Maior nadador paralímpico da história, Daniel Dias abre com pódio sua despedida das piscinas

Brasileiro que mais conquistou medalhas em Paralimpíadas se aposenta após os Jogos de Tóquio, no quais uma mudança na reclassificação funcional ameaça suas chances de ouro, mas não seu legado

Daniel Dias estreou em Tóquio com uma medalha de bronze nos 200 metros livre da classe S5.
Daniel Dias estreou em Tóquio com uma medalha de bronze nos 200 metros livre da classe S5.MOLLY DARLINGTON (Reuters)
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Os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 trarão a aposentadoria do maior atleta paralímpico da história do Brasil. O nadador Daniel Dias se despedirá das piscinas no dia 1 de setembro, aos 33 anos, assim que concluir sua última prova. Será o fim da trajetória do brasileiro que se inspirou num ídolo para chegar ao topo, com 14 medalhas de ouro, ainda sem contar as prováveis conquistas no Japão. Logo em sua estreia nesta edição, nesta quarta-feira, o atleta paulista mostrou que sua despedida das piscinas paralímpicas será com pódio, apesar das dificuldades impostas pela pandemia e por uma reclassificação funcional que diminuiu suas chances de medalha na classe em que compete. Daniel Dias garantiu um bronze nos 200 metros livre da classe S5, a 25ª medalha de sua carreira.

O brasileiro fechou a prova em 2min38s61, cerca de seis segundos a frente do quarto colocado. O ouro ficou com o italiano Francesco Bocciardo, que quebrou o recorde paralímpico de Dias com 2min26s76, mas não o recorde mundial —que pertence a ele próprio. O espanhol Antoni Ponci Bertran ficou com a prata e o tempo de 2min35s20. “Os dois primeiros atletas vieram da classe S6 [com menos dificuldades motoras]. Por isso eu vibrei muito [com o bronze]. Treinamos muito para entregar nossa melhor versão aqui”, afirmou Dias, comentando a polêmica mudança nas classificações funcionais feita pelo Comitê Paralímpico Internacional (IPC) antes dos Jogos de Tóquio.

A natação paralímpica tem 14 categorias funcionais para abranger todas as PcDs (pessoas com deficiência). Atletas com deficiências motoras competem nas categorias S1 a S10; deficiências visuais estão contempladas nas categorias S11 a S13; e esportistas com deficiência intelectual ficam na S14 ―na qual o estreante Gabriel Bandeir, 21 anos, garantiu um ouro nesta quarta. Desde o início da carreira, Daniel Dias disputa provas na classe S5. No entanto, uma mudança de critérios adotada em 2019 passou a encaixar atletas com menos dificuldades motoras que o brasileiro em sua categoria. Isso fez com que ele perdesse cinco recordes mundiais e diminuiu as expectativas para a sua última competição. “Sendo bem sincero, tirou todas as minhas chances de ouro em Tóquio”, disse campeão olímpico ao jornal O Globo antes de embarcar para o Japão. “A natação vai perder um pouco a credibilidade. Como é possível que eu evolua meus tempos, mas não traga medalha para o Brasil?”, reclamou ele.

Tanto Bocciardo quanto Bertran, que ficaram nas duas primeiras colocações nos 200 metros livres, são atletas com menos dificuldades motoras que Dias que foram reposicionados na mesma classe do brasileiro. Antes eles competiam na S6, uma categoria acima —quanto maior o número, menor a dificuldade motora do atleta. Os novos critérios, segundo o IPC, levam em conta uma nova avaliação acerca dos movimentos do nadador na água. “Falarei mais dessa reclassificação após nadar todas as provas. Sabíamos que precisava mudar, mas não do jeito que foi feito. Muitos atletas estão parando de nadar por conta desta mudança”, completou o brasileiro depois da prova. Ele ainda disputa outras cinco provas com chances de medalha na Paralimpíada de Tóquio.

Daniel Dias nasceu em Campinas, a 90 quilômetros de São Paulo, com uma má formação congênita dos membros superiores e na perna direita. Com uma prótese e o incentivo dos pais Paulo e Rosana, o campineiro cresceu experimentando vários esportes. Mas foi aos 16 anos, durante a Paralimpíada de Atenas, que ele resolveu ser nadador. A ideia veio na frente da televisão, enquanto assistia a Clodoaldo Silva, o “tubarão paralímpico” de quem virou fã, ganhar seis medalhas de ouro para o Brasil na edição de 2004. Dois anos depois, Daniel Dias era campeão mundial no mesmo esporte.

O primeiro ouro de grande porte veio no Mundial de Durban 2006, na África do Sul, com uma vitória nos 100m livre da classe S5. Naquele mesmo torneio, levou ainda outros dois ouros e duas pratas. O desempenho aos 18 anos mostrou que ali nascia um ídolo do esporte brasileiro e da natação global. Nos Jogos de Pequim 2008, sua primeira Paralimpíada, Dias faturou quatro ouros, quatro pratas e um bronze, encostando no ídolo do Clodoaldo. A partir dali, entrou para a história. O auge da carreira, entre 2010 e 2012, teve 25 vitórias em 26 finais disputadas, entre campeonato mundial, Parapan-americano e Paralimpíada. Na única que não venceu, foi medalha de prata.

É difícil de mensurar o tamanho da carreira do nadador, mas alguns números servem como parâmetro. Ele nunca perdeu uma final parapan-americana —foram 24 provas e 24 medalhas de ouro em três edições. A sua melhor Paralimpíada foi a de Londres 2012, quando ganhou todas as seis provas que competiu. E mesmo o pior desempenho paralímpico da carreira do atleta, obtido na Rio 2016, não pode ser apontado como decepcionante. Nadando em casa, o brasileiro conquistou nove pódios nessa edição, com quatro ouros, três pratas e dois bronzes.

Dias chegou a Tóquio 2020 com a bagagem de 25 medalhas em Paralimpíadas, contando o terceiro lugar de hoje: 14 ouros, sete pratas e quatro bronzes. É não só o maior atleta paralímpico da história do Brasil, como também o nadador paralímpico mais vitorioso do esporte. Não é surpresa que o brasileiro seja chamado também de “Michael Phelps das Paralimpíadas”, algo que não o incomoda. “Para mim, ser comparado a uma lenda é uma honra. Não sinto pressão nisso, e sim uma alegria imensa por ser comparado a esse grande atleta”, declarou.

Daniel Dias nunca perdeu uma prova em Parapan-americanos.
Daniel Dias nunca perdeu uma prova em Parapan-americanos.Saulo Cruz/EXEMPLUS/CPB (Saulo Cruz/EXEMPLUS/CPB)

Apesar das críticas à reclassificação feita, o atleta de 33 anos garante que não está em decadência. Ele conta que a escolha pela aposentadoria tem relação com a vontade de passar mais tempo com os filhos. “Chegou um momento que eu vi o que meus filhos me pediam. Por causa dos treinos eu não tinha energia para brincar, ou não podia jogar futebol com eles por medo de lesões. Queria estar mais próximo deles, aproveitar alguns momentos que fui abdicando ao longo da vida de atleta”, justificou. Dias tem três filhos com a esposa Raquel: Asaph, Danielzinho e Hadassa. Além deles, o nadador também quer dedicar mais tempo ao Instituto que fundou em 2014 para fomentar o esporte paralímpico e se candidatou a uma cadeira no conselho de ex-atletas do IPC.

Entre os dias 26 e 1 de setembro, Daniel Dias compete em mais cinco provas: 100 metros livre, revezamento 4x50m livre, 50m borboleta, 50m costas e 50m livre. Independente dos resultados que conquistar no Japão, o legado de Daniel Dias será eterno. E seus sucessores têm tudo para manter o nível. Em especial Gabriel Bandeira, 21 anos, a quem Daniel chama de “excepcional” e, competindo há um ano entre paralímpicos na categoria S14, já bateu seis recordes pan-americanos e levou o ouro na primeira final da carreira numa Paralimpíada. Afinal, é assim que o ciclo funciona entre gerações. Clodoaldo inspirou Daniel, e agora chegou a vez de Daniel inspirar Gabriel. Com a certeza de que cumpriu seu papel.

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