Recorde de medalhas do Brasil contrasta com corte em investimento no esporte

O Brasil fecha a Olimpíada com 21 medalhas conquistadas no Japão, sendo 7 de ouro, e o 12º lugar, que consiste no melhor desempenho da história para o país. Governo Bolsonaro comemora pódios e exalta Bolsa Atleta, mas corta recursos e sucateia programa

Bolsonaro recebeu atletas medalhistas no Pan de Lima em 2019.
Bolsonaro recebeu atletas medalhistas no Pan de Lima em 2019.Abelardo Mendes Jr (Ministério da Cidadania)
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O Brasil celebra os Jogos Olímpicos de Tóquio com o melhor desempenho em número de pódios de sua história, justamente quando o país mais deixou de lado o esporte e mantém sem reajuste, desde 2010, o principal auxílio dos competidores, o Bolsa Atleta. Neste domingo, o Brasil fechou os Jogos com 21 medalhas conquistadas no Japão, sendo 7 de ouro, 6 de prata e 8 de bronze, superando as 19 ganhas no Rio de Janeiro em 2016. O número de ouros é igual ao conquistado há cinco anos. O país também terminou no 12º lugar no ranking dos Jogos de Tóquio, superando a melhor classificação obtida até então —um 13º lugar, também no Rio.

O resultado tem sido comemorado pelo presidente Jair Bolsonaro, enaltecido em perfis oficiais de comunicação do Planalto e por vários ministros. No entanto, os cortes de verba do esporte e o sucateamento do Bolsa Atleta nos últimos anos mostram que os brasileiros tiveram um desempenho histórico em Tóquio apesar do Governo, e não por causa dele. Bolsonaro, na verdade, extinguiu o Ministério do Esporte assim que assumiu, transformado-o em secretaria subordinada ao Ministério da Cidadania, e reduziu ao mínimo o número de servidores atuando no setor.

Criado em 2005, o Bolsa Atleta vive seu pior momento financeiro. A começar pelo fato de que não tem o valor reajustado desde 2010. O benefício é dividido em quatro categorias principais: Bolsa Pódio, para quem consegue ficar entre os 20 primeiros no ranking mundial de sua categoria; Olímpica, para quem representou o Brasil em Jogos Olímpicos ou Paralímpicos; Bolsa Internacional, para quem representou o Brasil em campeonatos internacionais e ficou entre os três primeiros; e Bolsa Nacional, para quem participa do evento máximo da temporada nacional. A primeira categoria paga de 5.000 a 15.000 reais mensais. A segunda, 3.100 reais; a terceira, 1.850 reais; e a quarta, 925 reais.

Segundo levantamento do ge.globo.com, dos 301 atletas que foram a Tóquio, 242 recebem a Bolsa e 83 ganham as duas menores categorias, que correspondem a menos de 2.000 reais por mês. Além disso, 33 dos 301 se sustentam graças a outra profissão. São cinco motoristas de aplicativo, quatro empresários e quatro profissionais de educação física, as três profissões mais comuns aos atletas que não conseguem ser só atletas. Felipe Vinícius dos Santos, que competiu na prova de decatlo (terminou em 18°), é um dos que precisou dirigir Uber para se sustentar na preparação.

Além disso, o Governo não lançou o edital do Bolsa Atleta em 2020 e deixou os atletas sem receber por alguns meses. Antes, os esportistas se inscreviam no edital lançado em maio e, se aprovados, começavam a receber o auxílio em agosto. O prazo entre a abertura de inscrições e o pagamento da primeira parcela é usualmente de três meses. Então, as 12 parcelas eram repassadas mensalmente de agosto até julho do ano seguinte. Elas terminavam um mês antes de começar o pagamento do próximo acordo anual, em caso de renovação no edital seguinte. Desta forma, era garantida a renda do atleta durante todos os meses do ano, desde que seu auxílio seja aprovado ano a ano.

A partir do Governo Temer, em 2017, o mês de lançamento do edital passou a ser atrasado de tal forma a provocar “buracos” entre o último mês do pagamento anterior e o início do próximo. Por exemplo: até 2016, o atleta se inscrevia no edital em maio, começava a receber o auxílio em agosto de 2016 e tinha o 12º e último pagamento em julho de 2017. No entanto, a abertura do edital de 2017 foi atrasada para agosto, o que fez a primeira parcela cair somente três meses depois, em novembro de 2017. Com a Bolsa renovada, o atleta voltou a receber de novembro de 2017 a outubro de 2018, mas ficou sem pagamento nos meses de agosto, setembro e outubro de 2017. E a prática foi repetida ano a ano.

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Os atrasos sistemáticos chegaram ao cúmulo em 2020, quando não foi lançado um edital do Bolsa Atleta. Segundo o Planalto, por conta da ausência de competições na pandemia, foram unificados os anos de 2020 e 2021. O Governo lançou um edital apenas em janeiro de 2021, enquanto o último havia sido aberto em outubro de 2019. Este foi suficiente para cobrir os meses de 2020, mas não os primeiros de 2021. Fernando Scheffer, medalhista de bronze da natação, é um atleta que recebe o Bolsa Pódio, mas precisou treinar em um açude durante a pandemia por conta do fechamento do seu clube. A estratégia cumpriu a função de baratear o programa. Se o Bolsa Atleta custava 140 milhões de reais anuais em 2020, o Ministério da Cidadania divulgou um investimento previsto em 97,6 milhões de reais no ano de 2021.

O próprio Ministério dos Esportes foi extinto pelo Governo Bolsonaro. A pasta se tornou uma Secretaria Especial dos Esportes, uma subdivisão do Ministério da Cidadania. No ano passado, cerca de dois terços dos funcionários da Secretaria (cerca de 500 terceirizados) foram demitidos. Incluindo no Bolsa Atleta, que teve um corpo de 18 empregados reduzido para dois.

A queda no investimento não impediu o Planalto de comemorar e se auto responsabilizar pelo desempenho histórico dos atletas brasileiros no Japão. “Graças ao apoio do Governo do Brasil, teremos em Tóquio nossa maior delegação na história dos Jogos Olímpicos”, escreveu o perfil oficial da Secretaria de Comunicação do Governo no dia da abertura da Olimpíada. Os 301 brasileiros em Tóquio formam a maior delegação do país no exterior, mas é menor que os 465 atletas que competiram no Rio de Janeiro em 2016. A cada medalha conquistada, a SeCom publicou uma tabela dos medalhistas dizendo quais recebem Bolsa Atleta, quais são das Forças Armadas e quais são patrocinados por empresas públicas federais, exaltando os bons resultados devido ao “incentivo ao esporte” por parte do Governo.

Segundo números do Ministério, 242 dos 301 esportistas em Tóquio recebem o Bolsa Atleta. São 89 vinculados às Forças Armadas, das quais também recebem auxílio. A medalhista de ouro na maratona aquática, Ana Marcela Cunha, prestou continência ao ouvir o hino brasileiro no pódio porque é sargenta da Marinha, de onde tira parte do seu sustento. Ela também recebe o bolsa Pódio. Mas o lado contrário chama a atenção.

A situação gerou algumas declarações de atletas que viralizaram durante os Jogos. “Eu estou feliz com meu resultado porque foi um ano muito difícil. Embora a gente esteja numa pandemia, eu estou sem patrocinador e com o salário do clube muito reduzido. A única coisa que me manteve foi o auxílio da Marinha”, disse Vitória Rosa, que não passou da primeira eliminatória dos 200 metros rasos em Tóquio. Ela integra o Bolsa Pódio desde março de 2020, mas não o citou como apoio financeiro recebido. Antes de viajar ao Japão, o ginasta Arthur Zanetti já explicava a queda nos investimentos. “Foi feito um planejamento financeiro a curto prazo por parte do Governo para os Jogos do Rio que não teve continuidade depois de 2016”, contestou ele. Zanetti recebe Bolsa Pódio, auxílio da Aeronáutica, além de patrocínios e salários da Prefeitura de São Caetano e da Confederação de Ginástica. Ele foi ouro nas argolas em 2012, prata em 2016 e ficou em oitavo lugar em Tóquio.

O presidente Jair Bolsonaro se manifestou duas vezes durante a Olimpíada de Tóquio. Na primeira, surfou na onda das medalhas do skate para dizer que reduziu o imposto sobre os skates importados ao país. Na segunda, postou uma mensagem de apoio aos atletas brasileiros, com um vídeo de esportistas que se emocionaram com derrotas em Tóquio. Já o ministro da Cidadania, João Roma, tuítou a cada medalha conquistada pelo Brasil. Ele foi o escolhido como representante do Governo em Tóquio. Ao contrário dos dois, o secretário de Esportes, Marcelo Reis Magalhães, não se manifestou publicamente durante os Jogos. Ele tem experiência em marketing esportivo, assumiu a pasta em fevereiro de 2020 e é amigo de infância de Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente.

Vale lembrar, ainda, a falta de apoio de empresas ao esporte. Os dados do ge mostram que 131 atletas competiram em Tóquio sem nenhum patrocínio, e 41 precisaram fazer vaquinha para viajar. Para estes, a Olimpíada é uma chance de ouro mesmo sem medalha. Afinal, o objetivo é capitalizar as vezes em que eles aparecem nas televisões dos brasileiros, espalhadas de quatro em quatro anos.

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