COPA AMÉRICA

Copa América pandêmica disputa holofotes com o Brasileirão e não arrebata torcedores

Seja na televisão, na internet, nos estádios ou nos bares, torneio foi organizado de última hora sob críticas no país ainda não mobilizou brasileiros mesmo com boa fase da seleção

Seleção goleou o Peru jogando no Nilton Santos sem público, pela segunda rodada.
Seleção goleou o Peru jogando no Nilton Santos sem público, pela segunda rodada.ANDRE COELHO / EFE
São Paulo / Rio de Janeiro - 18 jun 2021 - 21:18 UTC

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Nunca houve uma Copa América como a que está sendo realizada no Brasil em 2021. Em primeiro lugar, há a pandemia de covid-19, que impede a presença de público nos estádios, desestimula aglomerações em bares e faz com que o torneio aconteça sob críticas. Não é para menos: a defesa de Jair Bolsonaro para que a competição se realizasse em solo brasileiro, depois da rejeição de Colômbia e Argentina, acontece quando o país está prestes a alcançar a marca de meio milhão de mortos na crise sanitária e atravessa um novo período de alta velocidade de transmissão. Além disso, outros fatores colaboram para o ineditismo da competição. A mudança de emissora detentora dos direitos de transmissão ―da poderosa e tradicional Globo para o SBT―, a troca de sedes em cima da hora e a concorrência com torneios de clubes nacionais são alguns deles que, se não indicam uma queda de interesse do brasileiro pela seleção, desenham uma Copa América menos popular que a anterior, em 2019, também sediada no Brasil. Toda essa falta de empolgação acontece mesmo com o time de Tite despontando como grande favorito a levantar o troféu no Maracanã. Ou seja, se Bolsonaro queria um torneio para exibir como trunfo político, ou ao menos um evento de distração de massas, isso até agora não ocorreu.

Como as comparações entre públicos no estádio não podem ser feitas, os números do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) provam que mais pessoas viram a estreia do Brasil na Copa América 2019 do que a abertura da edição em 2021. Nos dados do Ibope, a vitória da seleção por 3 a 0 sobre a Bolívia, no Morumbi, numa sexta-feira à noite de 2019, alcançou a média de 32,9 pontos na TV Globo em São Paulo, o que equivalia a mais de 6,5 milhões de telespectadores. Em 2021, a vitória do Brasil pelo mesmo placar contra a Venezuela, num domingo à noite, chegou à média de 14 pontos (cerca de 2,8 milhões de pessoas) no SBT em São Paulo, com pico em 15,6 pontos. Na maior cidade do país, o jogo da seleção ficou atrás da TV Globo, que alcançou os 16 pontos de média ao exibir no mesmo horário o programa Domingão do Faustão sem seu apresentador principal, substituído por Tiago Leifert.

A troca de emissora explica, em parte, a menor audiência da Copa América em 2021. Desde que a Globo rescindiu o contrato da Libertadores com a Conmebol, em 2020, a entidade sul-americana priorizou o SBT ao vender seus direitos. Com a estreia do Brasil, a TV de Silvio Santos teve seu recorde de audiência com transmissões de futebol em São Paulo no ano, que antes era de 10 pontos no Ibope com Palmeiras x Independiente Del Valle, pela Libertadores. Ainda assim, longe da Copa América global em 2019, quando o recorde foi de 43,3 pontos na semifinal entre Brasil x Argentina. Apenas cinco capitais registraram liderança do SBT sobre a Globo com a abertura do atual torneio de seleções: Recife, Fortaleza, Manaus, Brasília e Goiânia.

A escolha das cidades-sedes também representam outra mudança significativa de 2019 para 2021. Há dois anos, a Conmebol optou por realizar a competição em Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador, locais mais ligados a equipes tradicionais do futebol brasileiro do que Goiânia, Brasília e Cuiabá, as sedes de 2021 (apenas o Rio foi repetido). Isso porque a competição foi realocada para o Brasil a duas semanas de seu início e, além de ser vetada por governadores em alguns Estados por conta da covid-19, precisou encontrar estádios que não estejam sendo tão usados pelos principais torneios nacionais, que acontecem simultaneamente aos jogos de seleções —o que não ocorreu em 2019. A concorrência também ajuda a explicar a menor audiência: no mesmo horário em que o Brasil se preparava para estrear em Brasília, os fãs de futebol também tinham a opção de assistir Atlético-MG x São Paulo na Globo, pelo Brasileirão, e Holanda x Ucrânia na TV fechada, pela Eurocopa.

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As restrições sanitárias necessárias pela pandemia de covid-19 também impedem que o sucesso da Copa América seja medido pela quantidade de pessoas em bares e restaurantes durante os jogos. “Por aqui não sentimos nenhum impacto até agora. Não ficamos sabendo de nenhuma concentração, não há expectativas e acho difícil que aconteça na atual situação, porque não é uma época apropriada para aglomerações”, comentou Percival Maricato, presidente do conselho estadual de São Paulo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (ABRASEL). “O fato de São Paulo não ser uma cidade-sede reduz ainda mais a influência, não há como comparar com 2019. E não vejo a empolgação crescendo por aqui”, conclui.

Ao menos até o momento, a empolgação citada por Maricato não foi vista nem nas sedes. Protagonista entre elas, a cidade do Rio de Janeiro recebeu a seleção pela primeira vez no torneio nesta quinta, 17 de junho, quando a seleção goleou o Peru pela segunda rodada do torneio, e tampouco abrigou um clima entusiasmante para ver o Brasil jogar. Nas horas anteriores ao jogo do Brasil, o entorno do estádio Nilton Santos, no bairro do Engenho Grande, não teve aglomerações de torcedores nem sequer na chegada do ônibus com a delegação brasileira, o que corrobora com as orientações sanitárias por conta do novo coronavírus, mas não é explicado somente por isso. Vários pedestres que caminhavam pelas ruas do bairro, pela tarde do dia do jogo, perguntavam aos funcionários presentes da Conmebol se era ali que aconteceria a Copa América. Sem público, os traillers de comidas na praça em frente ao estádio permaneceram fechados até a saída da imprensa do estádio, assim como raras camisas da seleção brasileira foram vistas nos bares em volta do local nas horas antes da partida.

Na mesma cidade, o Ibope local apontou a audiência da transmissão do SBT de Brasil 4 x 0 Peru atrás da Globo, que liderou no horário com Jornal Nacional e novela antiga, e também da Record, que exibia a novela bíblica Gênesis. Segundo dados do Kantar Ibope Media, que leva em conta as 15 principais praças televisivas do Brasil, o SBT teve pico de 13 pontos durante a transmissão exclusiva do primeiro tempo da partida —não encostou na Globo, que chegou a 21,9 pontos no mesmo período, mas fez a emissora de Silvio Santos ficar na frente da Record, o que é incomum para o horário.

Por outro lado, uma boa plataforma para medir o entusiasmo do brasileiro com o torneio é a rede social. Durante a estreia, os nomes dos autores dos gols, Marquinhos, Neymar e Gabigol, figuraram entre os assuntos mais comentados do Twitter, o que mostra certo engajamento do usuário na partida do Brasil. No intervalo do segundo jogo, a concorrência entre torneios se provou novamente nos trending topics. Enquanto Alex Sandro, o autor do gol brasileiro até aquele momento, era o 11º assunto mais comentado no Brasil, jogadores que estavam atuando simultaneamente em partidas do campeonato brasileiro, como Paulo Victor do Grêmio e Marinho do Santos, lideravam nas métricas da rede social. Já no fim, após a goleada por 4 a 0, Neymar, Firmino e Everton Ribeiro figuravam no top 10 assuntos do Brasil, segundo o Twitter.

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