Simone Biles, em depoimento sobre o que sofreu: “Culpo Nassar e todo o sistema que permitiu o abuso sexual”

Atletas de elite exigiram diante do Senado dos EUA uma investigação independente para descobrir os responsáveis por não impedir o ex-médico da equipe olímpica. “Não tenho uma boa explicação”, responde o diretor do FBI

A ginasta Simone Biles, durante depoimento ao Senado dos EUA.
A ginasta Simone Biles, durante depoimento ao Senado dos EUA.POOL (Reuters)
Antonia Laborde
Washington -
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“Ganhei 25 medalhas em mundiais, sete em Olimpíadas, e sou uma sobrevivente de abuso sexual”. Foi assim que se apresentou, na quarta-feira, a ginasta Simone Biles ao comitê do Senado norte-americano que investiga as supostas falhas do FBI no maior escândalo esportivo do século: o caso do predador sexual Larry Nassar. Biles, de 24 anos, e outras três atletas de elite, também sobreviventes dos abusos do ex-médico da equipe de ginástica feminina dos EUA, exigiram que os agentes envolvidos na investigação sejam processados por falta de ação prévia contra Nassar enquanto ele, agora condenado, cometia os abusos. “Devem prestar contas”, pediram, “enojadas” por precisarem continuar batalhando para que as autoridades respondam uma pergunta básica seis anos depois das primeiras denúncias: “Por que nada foi feito?”.

Nos demolidores depoimentos de Biles e das também medalhistas olímpicas McKayla Maroney, Aly Raisman e Maggie Nichols, aparecia constantemente a queixa de que os agentes do FBI com os quais lidaram minimizaram e não atenderam às denúncias em 2015. “O agente que me entrevistou queria me convencer de que não valia a pena abrir um caso criminal contra Nassar”, narrou Raisman, que insistiu em falar com os investigadores do caso durante 14 meses. Maroney, que relatou aos agentes do FBI como Nassar tocou seus genitais durante horas quando ela tinha 13 anos, teve como resposta: “Isso é tudo?”.

Nassar abusou de aproximadamente 70 meninas e jovens desde que o FBI soube das primeiras acusações contra o predador sexual em 2015, até sua prisão no final do ano seguinte. A falta de ação das autoridades, disse na manhã de quarta-feira Raisman, foi como “servir meninas inocentes a um pedófilo em uma bandeja de prata”. O ex-médico abusou de mais de 300 atletas da Federação de Ginástica e da Universidade Estadual de Michigan durante duas décadas. Em janeiro de 2018, recebeu uma condenação de 40 a 175 anos de prisão, que se somou aos outros 60 que já cumpria na prisão por crimes de pornografia infantil.

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Consultado sobre o que deu errado durante a investigação, o diretor do FBI, Christopher Wray, que também prestou depoimento na quarta-feira ao comitê de Justiça, afirmou: “Não tenho uma boa explicação”. O Departamento de Justiça publicou em julho um relatório em que detalha os “numerosos e fundamentais erros” que o FBI cometeu na investigação sobre os abusos cometidos por Nassar. O documento constata que vários agentes cometeram negligências, violaram o protocolo e fizeram declarações falsas. A cadeia de graves erros permitiu que o criminoso continuasse abusando das atletas, muitas delas menores de idade. “A ação e a inação dos funcionários do FBI detalhadas no relatório são totalmente inaceitáveis. Traíram o dever fundamental que têm de proteger as pessoas”, disse Wray, que está no cargo de diretor do FBI desde 2017.

Durante seu depoimento, Biles, visivelmente incomodada e emocionada, esclareceu que culpa Larry Nassar pelos abusos dos que foi vítima, mas também “todo o sistema que o permitiu e o perpetrou”. A pentacampeã do mundo acusou a Federação de Ginástica dos Estados Unidos (USAG), e o comitê olímpico e paralímpico dos EUA de saberem “muito antes” que ela havia sofrido abusos. Apesar disso, o FBI nunca a contatou para sua investigação.

Aos 24 anos, a melhor ginasta do mundo é um ícone que não para de crescer. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio uma lesão psicológica a impediu de competir como previa. No entanto, ela chegou ao topo como uma líder no trabalho de acabar com o preconceito com os problemas de saúde mental. “Não quero que nenhum outro jovem atleta olímpico e nenhuma outra pessoa sofram o horror que eu e outras centenas suportaram e continuam suportando até hoje”, afirmou na quarta, em seu depoimento.

“Esta audiência é uma de nossas últimas oportunidades de obter justiça”, disse Nichols, que, quando era uma das melhores ginastas do país, foi a primeira a denunciar Nassar à sua treinadora, em junho de 2015. Ela enviou a queixa aos diretores, que, em vez de imediatamente alertarem as autoridades como a lei exige, abriram uma investigação interna e proibiram os pais de Nichols de recorrer ao FBI. Para a atleta, que viu sua carreira prejudicada quando rompeu o silêncio, a USA Gymnastics e o FBI “traíram” as sobreviventes ao perpetuar e permitir uma cultura de abuso que, no seu ponto de vista, —compartilhado pelo restante de suas colegas— ainda prevalece.

Os senadores perguntaram às ginastas o que precisa ser feito para que sintam que se está fazendo justiça. “Ignorando quem sabia o que e quando [soube], não podemos identificar todos os facilitadores e determinar se ainda estão em posições de poder. Simplesmente, não podemos solucionar um problema que não entendemos, e não podemos entender o problema até termos todos os fatos”, respondeu Raisman, que pediu, mais uma vez, que seja aberta uma investigação independente sobre por que a Federação e o Comitê Olímpico ignoraram os relatórios de abuso. “Se eles não vão me proteger, quero saber a quem estão tentando proteger”, acrescentou Maroney.

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