O ADEUS A DIEGO MARADONA

Paixão por Maradona transforma velório na Casa Rosada em caos

Torcedores invadiram a sede do Governo argentino ao saberem que não poderiam se despedir do astro. Polícia reprimiu a multidão no centro de Buenos Aires

Policiais e torcedores diante da Casa Rosada, onde aconteceu o velório de Maradona.
Policiais e torcedores diante da Casa Rosada, onde aconteceu o velório de Maradona.Mario De Fina / AP

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Não se podia esperar outra coisa. O adeus a Diego Armando Maradona aconteceu da mesma forma que ele viveu: numa loucura transbordante de amor, paixão e caos. A Casa Rosada foi invadida pela multidão, houve gás lacrimogêneo e feridos dentro do palácio presidencial e foi necessário esconder o caixão para preservá-lo. O herói argentino morreu sozinho, apesar de tantas amantes, tantos filhos e tantos supostos amigos. E não descansou em paz, mas já não voltou a sofrer de solidão. As pessoas o amavam demais. Tudo acabou explodindo em um frenesi de amor e luto. Como poderia ser de outra forma? Maradona teve um adeus glorioso e atroz. Inesquecível. Como ele.

A análise dos fatos levará tempo. A ex-mulher, Claudia Villafañe, terá que justificar sua inamovível decisão de não permitir que o velório se prolongasse até sexta-feira, ou até mesmo sábado, como havia sido anunciado oficialmente. O presidente da República, Alberto Fernández, deverá explicar por que não se impôs, por razões de ordem pública, e cedeu aos desejos de Villafañe. Uma coisa é certa: assim que soube que a cerimônia seria encerrada às 16h, na hora local, a multidão enlouqueceu. Muitos tinham vindo de muito longe. O Governo havia prometido tempo suficiente, até sexta-feira ou inclusive até sábado, para que até o último seguidor se aproximasse pessoalmente do caixão fechado. A frustração coletiva acendeu como uma fogueira. E estourou a violência.

O Governo de Alberto Fernández fez todo o possível para acalmar os ânimos. Primeiro anunciou que o caixão passaria entre as pessoas antes de seguir para o cemitério de Bella Vista, a cerca de 35 quilômetros de Buenos Aires. Depois prolongou o velório até as 19h. Foi inútil. A polícia que protegia a Casa Rosada rapidamente foi ultrapassada pelos acontecimentos. Centenas de pessoas se empoleiraram nas grades e pularam para dentro. Houve golpes, lançamento de bombas de gás e corpos caídos dentro do palácio presidencial. A polícia tentou desocupar a Plaza de Mayo com balas de borracha e jatos d’água. O sangue aflorou. Havia crianças chorando, horrorizadas, sem entender o que estava acontecendo.

Os argentinos costumam dizer que é preciso ser argentino para compreender o fenômeno Maradona. Eles provavelmente têm razão. Estamos falando de um homem especial em uma sociedade especial. Mesmo aqueles que o odiava (eles existem) por sua vida particular muito pouco exemplar, tinham que admitir que Maradona, além de gênio supremo da bola, era um cara sincero, corajoso, autêntico, que nunca esqueceu a miséria em que cresceu e manteve, enquanto o álcool e as drogas lhe permitiram, uma surpreendente lucidez.

A morte do ídolo causou tal impacto que a realidade ficou em suspenso. Para começar, a realidade da pandemia. Ao longo da manhã, enquanto a grossa coluna dos que esperavam a vez para chegar à Casa Rosada se estendia por mais de dois quilômetros, logo três, e depois não se sabe, evaporou-se qualquer possibilidade de distanciamento físico. Desapareceram as máscaras. Desapareceu qualquer cautela. Ninguém se importava com o contágio do coronavírus. O calor e o consumo de álcool proporcionaram algo parecido com uma bipolaridade coletiva. O ânimo oscilava entre a euforia e as lágrimas. As autoridades sanitárias se resignaram diante do inevitável. “Não é possível se opor ao povo”, disse Ginés González García, ministro da Saúde.

Então, com a decisão da ex-mulher, o senso comum sumiu diante de dezenas de milhares de pessoas que exigiam, sim ou sim, dispor de alguns segundos de recolhimento diante dos restos mortais da divindade falecida. Terminar o velório tão cedo foi um imenso erro. A confusão deu lugar à fúria. E a fúria, à violência.

Durante algumas horas, no entanto, a homenagem fúnebre tinha sido emocionante e bela como uma tarde no estádio. A multidão foi se aproximando pouco a pouco da Casa Rosada de maneira organizada, dentro de um percurso marcado com cercas. Na fachada do palácio presidencial, rodeado de bandeiras, um telão exibia instantâneos da vida de Maradona. Os cantos futebolísticos (“Vamos ver, vamos ver, quem não salta é inglês”, “Diego, Diego, Diego”), os cartazes (“O diabo nos furou a bola”, “A bola está chorando”), a venda ambulante de bonés, lembranças, sanduíches e empanadas, a abundância da cerveja logo cedo, transformaram-se em recolhimento junto à entrada da Casa Rosada. Um a um, aqueles que cruzavam o umbral eram borrifados com álcool desinfetante e intimados a não se demorar. Flores, especialmente rosas, amontoavam-se perto do caixão.

Dentro estavam Claudia Villafañe, a ex-mulher, e suas duas filhas, Dalma e Giannina, sentadas discretamente em um dos lados da sala. Não havia nada planejado para os outros três filhos extraconjugais, mas reconhecidos (Jana, Diego Junior e Diego Fernando), nem para os que se dizem filhos e nem para as muitas ex-amantes: o lado escuro do exímio jogador de futebol, com sua caótica vida familiar e as denúncias por violência doméstica, foi deixado de lado.

Antes que o velório fosse aberto ao público, a família próxima, os ex-integrantes da mítica seleção argentina que ganhou a Copa do Mundo de 1986 e alguns convidados pessoais, entre eles o recém-aposentado Javier Mascherano, tiveram a oportunidade de se despedir de Maradona na intimidade e com o caixão aberto. O papa Francisco enviou um rosário. O presidente, Alberto Fernández, e a vice-presidenta, Cristina Kirchner, juntaram-se ao círculo mais próximo. O elenco do Gimnasia y Esgrima, clube de La Plata no qual Maradona trabalhava como treinador, também teve alguns minutos de solidão.

A noite anterior tinha sido agitada. O consumo excessivo de álcool e a presença de um grupo de torcedores do Boca Juniors levaram a incidentes sem danos graves. Quando o sol nasceu, aqueles que tinham passado a noite no local foram indo embora e o ambiente ficou mais calmo. Aos poucos, a multidão foi crescendo. Apesar de os ônibus de longa distância ―o meio de transporte mais popular na Argentina― ainda não estarem em operação, foram chegando torcedores de outras províncias durante o dia. As pessoas vestiam camisetas de todos os times, com predominância do azul e amarelo do Boca Juniors. “Eu vim de Jujuy!”, gritava um homem que dizia ter assumido o volante desde o dia anterior.

A autópsia não trouxe surpresas: o coração de Maradona, sofrendo de uma miocardiopatia dilatada há anos e com um desempenho reduzido a um terço de sua capacidade, não conseguiu seguir batendo.

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