Pandemia de coronavírus

A controversa volta do futebol, sem público e sob a sombra do coronavírus

Ainda sem conseguir controlar a pandemia, Rio Grande do Sul e São Paulo seguem caminho do Rio de Janeiro ao retomar campeonatos diante de recorde de novos casos da doença

Corinthians exibe faixa de luto em clássico contra o Palmeiras.
Corinthians exibe faixa de luto em clássico contra o Palmeiras.Rodrigo Coca / Agência Corinthians

Juntos, os dois Estados contabilizaram mais de 400 mortes por coronavírus e bateram o recorde diário de registros de novos casos nesta quarta-feira. Ainda assim, no mesmo dia, Rio Grande do Sul e São Paulo retomaram seus campeonatos estaduais com rodada de clássicos. Pelo Gauchão, o Grêmio venceu o Inter por 1 a 0. Já no Paulistão, o Corinthians superou o Palmeiras pelo mesmo placar. Os jogos de poucos gols e sem torcida, devido às medidas restritivas em vigor desde março, dão a medida da “nova normalidade” propalada por governos que ainda não conseguiram controlar o avanço da doença que já deixou mais de 80.000 mortos no país.

Paralisado por quatro meses, o Campeonato Paulista contou com o sinal verde do governador João Doria para reiniciar partidas somente na região metropolitana de São Paulo, enquadrada pelo Governo estadual como área de menor risco que o interior, que hoje soma mais mortes por covid-19 que a capital e seu entorno. Porém, nesta quarta, o Estado registrou número recorde de infecções pelo vírus (16.777) e 361 óbitos em 24 horas. No Campeonato Carioca, primeiro torneio a ser retomado no país, a bola voltou a rolar em 18 de junho, quando o Rio de Janeiro confirmou 279 mortes, sendo duas delas no hospital de campanha do Maracanã, palco da vitória do Flamengo sobre o Bangu.

Mais informações

Se a volta do futebol no Rio aconteceu 15 dias depois do pico de óbitos pela doença (324), em São Paulo a competição estadual recomeçou quase um mês após o maior registro de mortes (434), apurado em 23 de junho. Por outro lado, ligas europeias que agora finalizam a temporada autorizaram jogos somente em fases de curva descendente da pandemia. Na Itália, um dos primeiros epicentros globais da doença, as competições voltaram 76 dias depois do pico de mortes por coronavírus. Na Espanha e no Reino Unido, esse intervalo foi de 69 dias, enquanto a França resolveu dar por encerrado o campeonato local, mas permite, desde o último dia 12 de julho, a realização de partidas com público limitado nos estádios.

De portões fechados, o clássico Grenal foi deslocado para Caxias do Sul, já que a prefeitura de Porto Alegre segue vetando a disputa de jogos na capital gaúcha. “Apesar do acompanhamento técnico e de protocolos criados pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), o momento da pandemia na cidade não permite a realização de eventos desse porte”, explicou a autoridade municipal. Assim como São Paulo, o Rio Grande do Sul também bateu recorde de novos casos de coronavírus com 3.258 infectados e 48 mortes confirmadas nesta quarta. A média diária de óbitos provocados pela doença cresceu aproximadamente 85% no Estado nas últimas duas semanas.

Em Caxias do Sul, local designado pela FGF para abrigar o clássico entre Internacional e Grêmio, com total de 41 mortes por coronavírus até o momento, 90% dos leitos de UTI estão ocupados. A cidade da Serra Gaúcha consta entre os municípios classificados pelo Governo em bandeira vermelha, representando alto risco de contaminação por covid-19. “Quem liberou o Campeonato Gaúcho foi o governador, não o prefeito de Caxias. Se no entendimento do Estado o campeonato pode ocorrer durante a bandeira vermelha, é este o entendimento que estamos cumprindo”, afirmou o vice-prefeito Elói Frizzo (PSB) ao justificar o aval para a partida.

Depois do clássico, Marcelo Medeiros, presidente do Inter, qualificou a retomada como uma “rodada histórica” para o futebol gaúcho. Tanto ele quanto o mandatário do Grêmio, Romildo Bolzan Júnior, foram infectados pelo vírus em março, durante um jantar de confraternização entre as diretorias dos dois clubes na véspera do Grenal pela primeira fase da Libertadores. Quatro jogadores de cada time testaram positivo para covid-19, um deles, da equipe colorada, diagnosticado e afastado do restante do elenco um dia antes da partida.

Como a CBF já determinou a volta do Campeonato Brasileiro, prevista para o fim de semana de 8 de agosto, federações pelo país trabalharam para acelerar os trâmites de retorno aos treinamentos com o intuito de concluir seus torneios estaduais. A volta apressada tem gerado apreensão em atletas e funcionários de clubes expostos ao risco de contrair o vírus. No Rio de Janeiro, depois da reestreia do Flamengo, que apresentou cinco jogadores infectados e perdeu o massagista Jorge Luiz Domingos, morto após desenvolver complicações da doença, o prefeito Marcelo Crivella publicou decreto suspendendo o torneio por mais cinco dias. O campeonato foi concluído uma semana atrás.

Em Santa Catarina, a Federação Catarinense de Futebol (FCF) se viu obrigada a adotar medida semelhante, por recomendação do Governo, depois que o jogo entre Avaí e Chapecoense precisou ser adiado em função de uma contaminação em massa. Incluindo membros da diretoria, comissão técnica e elenco, 26 funcionários da Chape foram diagnosticados com coronavírus. Na segunda-feira, o clube divulgou que o técnico Umberto Louzer e o auxiliar Felipe Endres estão recuperados da doença. O Campeonato Catarinense, retomado em 8 de julho, acabou suspenso por duas semanas.

Na rodada de reabertura do Paulistão, os clubes prestaram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da covid-19 antes das partidas. Jogando em sua arena, o Corinthians entrou em campo com uma faixa indicando luto. O time corintiano teve 23 de seus 33 atletas infectados pelo vírus, a maior incidência entre clubes paulistas. Na semana passada, o meia Cantillo apresentou sintomas, testou positivo e desfalcou a equipe contra o Palmeiras. O dia do clássico ainda marcou o recorde de casos confirmados —mais de 65.000— em todo o país.

Mais informações