Mundial de Clubes

Lico: “Aquele Flamengo botou o Liverpool na roda porque sentia prazer de jogar”

Campeão mundial, ex-atacante relembra soberba dos ingleses e festeja cântico da torcida que reverencia a primeira conquista, em dezembro de 1981

Lico em ação no jogo contra o Liverpool, em 1981.
Lico em ação no jogo contra o Liverpool, em 1981.Masahide Tomikoshi

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Os apelidos eram semelhantes, assim como os números do uniforme, sequenciais. Zico, o camisa 10 e maior ídolo da história do Flamengo, é, de longe, o mais lembrado daquela geração. Mas um nome discreto, porém indissociável das conquistas de Libertadores e, especialmente, do Mundial de Clubes, há quase quatro décadas, é o de Antônio Nunes, o Lico. Vestindo a 11, o atacante catarinense participou do segundo gol rubro-negro contra o Liverpool, na decisão intercontinental, ao disputar com a defesa o rebote que terminou na finalização de Adílio. “Fizemos um jogo perfeito”, lembra o ex-jogador, hoje com 68 anos, às vésperas da reedição do confronto entre brasileiros e ingleses.

Naquele 13 de dezembro de 1981, no Japão, o Flamengo chegava a seu primeiro Mundial, enquanto o Liverpool, que havia desistido de disputar duas edições anteriores do torneio, entrava em campo com pinta de favorito, credenciado por três títulos europeus em cinco anos. “Era uma equipe falada mundialmente, o grande bicho papão da Europa. Eles não se preocuparam muito com a gente”, conta Lico ao falar sobre os adversários. Para o ex-atacante, a empáfia custou caro ao time inglês. “O Júnior comentou sobre o desdém deles no vestiário, antes do jogo. Chegamos ao estádio fazendo batuque, e os caras lá, como se estivessem indo disputar um amistoso. Aproveitamos esse momento deles, de achar que futebol se ganha sem jogar. Quando se deram conta, já estava 3 a 0 pra gente.”

A vantagem construída no primeiro tempo, com dois gols de Nunes e um de Adílio, fez com que o Flamengo jogasse com o relógio a favor na etapa final. “Eles perceberam que, se saíssem muito para o ataque, tomariam mais. Coube a nós administrar o resultado, mas não deixamos de buscar o gol”, diz Lico. Diante dos 77.000 torcedores que compareceram ao Estádio Nacional de Tóquio, os rubro-negros apresentaram a melhor versão do futebol envolvente que seguiria reinando em solo brasileiro no começo dos anos 80. Toques de calcanhar, contragolpes em velocidade e um ataque imparável orquestrado por Zico, com Lico e Tita abertos pelas pontas e Nunes na referência. “A mídia focava muito em cima de um só jogador. Realmente, pra gente, era fácil jogar com o Zico. Mas havia a sustentação de um grande time ao seu redor.”

Carreira encurtada e frustração por Copa

Lico, que havia sido contratado do Joinville aos 28 anos, sem nenhuma badalação, ainda sagrou-se bicampeão brasileiro pelo Flamengo. Porém, encerrou a carreira de forma precoce, em 1984, por causa de uma lesão crônica no joelho. “Houve pressa para que eu retornasse aos gramados. E isso me prejudicou. Também tive minha parcela de culpa por querer voltar rápido demais”, conta. Inicialmente, os médicos do Flamengo imaginaram se tratar de uma tendinite. Lico jogou vários meses sob infiltração. Foi operado pela primeira vez depois de ser diagnosticado com desvio na coluna e hérnia de disco devido ao esforço para compensar o joelho lesionado. Depois da segunda cirurgia, não conseguiu mais jogar e pendurou as chuteiras aos 34 anos. “As infiltrações degeneraram a cartilagem do joelho. Eu não tinha consciência de que aquilo poderia acabar com minha carreira. Deveria ter ficado mais tempo parado para me recuperar totalmente.”

Um ano antes de aparecer a lesão, Lico vivia o auge no Flamengo. Se revezava com Tita, ora jogando pela ponta esquerda, ora pela direita. E as defesas adversárias penavam para segurar os atacantes rubro-negros. Como os laterais Leandro e Júnior, com os quais estava acostumado a atuar, além de Zico no meio-campo, formavam a base da seleção de Telê Santana, o atacante alimentava a expectativa de ser convocado para a Copa do Mundo de 1982. Preterido por Dirceu e Paulo Isidoro, ele acredita ter sido injustiçado pelo treinador. “Politicagem. Isso sempre existiu na seleção brasileira”, diz. “O lado esquerdo estava bem, mas eu merecia ser o jogador para atuar pelo lado direito com o Leandro, assim como o Adílio também merecia estar na Copa. Foi uma injustiça, até pelo entrosamento que a gente tinha no Flamengo.”

Hoje na torcida pelo bicampeonato mundial do clube que o projetou ao estrelato no futebol, Lico acredita que o time de Jorge Jesus e companhia terá um desafio ainda maior que o de sua geração há 38 anos. “O Liverpool de hoje é tecnicamente melhor do aquele que enfrentamos, mais voltado para a parte tática.” Entretanto, segue confiante no potencial da equipe para desbancar os campeões europeus. “O Flamengo tem um poder ofensivo enorme. É capaz de criar várias chances durante 90 minutos. Fazia muito tempo que não víamos algo parecido com a forma de jogar que o Jesus implementou.”

Em dezembro de 81, a façanha do esquadrão de Zico e Lico ficou marcada na história, reverenciada pela torcida com o cântico mais entoado nesta temporada nas arquibancadas do Maracanã. “Essa música é um prêmio por tudo que nossa geração representou. Me arrepio ao ouvir os torcedores cantando e demonstrando reconhecimento pelo que fizemos. Agora as pessoas me cumprimentam na rua e dizem: ‘Vamos ganhar, queremos o mundo de novo.” Para Lico, o único conselho antes do novo duelo com o Liverpool é curtir o momento, sem renunciar às raízes ofensivas que distinguem o rubro-negro. “Era tão gostoso treinar e jogar um com outro que ninguém queria descanso. Aquele Flamengo botou o Liverpool na roda porque fizesse chuva ou sol, fosse jogo ou treinamento, sentia prazer de estar em campo.”

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