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Por que votam em Bolsonaro?

Jair Bolsonaro é o favorito para o segundo turno das eleições presidenciais do Brasil, no próximo domingo, dia 28, com 56% das intenções de voto, segundo uma média das últimas pesquisas. A rejeição ao Partido dos Trabalhadores e ao ex-presidente Lula, o aumento da violência e a distribuição da riqueza num país ainda muito desigual são algumas das chaves que explicam o crescimento do político ultradireitista.Por TALITA BEDINELLI

Antipetismo

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O antipetismo é tão antigo como o próprio petismo (o PT foi fundado em 1980), mas ele se transformou ao longo das décadas. Nos primeiros anos, a oposição ao partido de Lula se devia ao seu radicalismo, mas à medida que o partido ascendeu ao poder o alvo de seus críticos migrou para os casos de corrupção e sua irresponsabilidade fiscal, que promoveu uma crise. Atualmente o candidato do PT, Fernando Haddad, é rejeitado por 52% do eleitorado, segundo as pesquisas. Um dado muito superior à rejeição de 29% que Lula despertava quando disputou e perdeu a presidência em 1989.

Violência

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A violência não para de crescer no Brasil, impulsionada principalmente pela luta entre quadrilhas para controlar o tráfico de drogas. Em 2017 foram registrados 63.880 homicídios, sete por hora, um macabro recorde para o país. O número de estupros aumentou 8,4% com relação ao ano anterior. A insegurança nas cidades é uma chave do discurso de Bolsonaro. O medo alimenta duas das suas promessas eleitorais: facilitar a posse de armas e ter mais pulso firme contra os criminosos.

Pobreza

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O eleitorado brasileiro está dividido pela renda. Segundo o Datafolha, Bolsonaro consegue dois de cada três votos entre os eleitores com rendas médias ou altas (os que ganham mais de dois salários mínimos). Por outro lado, entre os que têm menos renda Bolsonaro alcança só 46% das intenções de voto, e Haddad o supera com 56%.

Entre os municípios mais ricos, a intenção de voto em Bolsonaro dispara.

Esse mesmo padrão foi observado no primeiro turno da votação. Bolsonaro se impôs na maioria dos municípios de rendas médias e em praticamente todos os que têm uma renda média per capita superior a 500 reais. Resistem os municípios de rendas mais baixas, onde as políticas do PT beneficiaram a população mais pobre durante seus governos.

REGIÕES

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O petismo ainda tem seu reduto no Nordeste, onde já no primeiro turno se impôs na maioria dos municípios. É a região mais pobre, e lá se concentram os beneficiários do Bolsa Família e outros programas sociais criados pelo primeiro Governo de Lula, em 2003, que garantem uma renda mínima para as famílias pobres. Bolsonaro – que criticou o programa, embora agora prometa mantê-lo – perdeu em todos os Estados da região e em quase todos os municípios.

O ex-militar venceu, entretanto, em todos os Estados do Norte (exceto o Pará) e nas regiões mais ricas do país, como o Sudeste, mais industrializado, e o Sul e Centro-Oeste, mais agrícolas. Esses setores, muitos sensíveis à situação econômica, veem uma perspectiva de melhora nas propostas liberais do candidato ultradireitista. No mapa, Haddad mancha de vermelho o Estado de Amazonas. Na verdade, perdeu lá também, porque metade da população amazonense vive na capital, Manaus, onde Bolsonaro se impôs claramente. O candidato radical dominou as cidades maiores, vencendo em 239 dos 283 municípios brasileiros com mais de 100.000 habitantes, os quais concentram 84% da população.

Religião

“Deus acima de tudo” frase com que Bolsonaro encerra seus comícios

Bolsonaro é conhecido no Congresso por sua enfática defesa da família tradicional e se uniu a líderes religiosos para tentar frustrar projetos como o que estabelecia penas para quem discriminasse os homossexuais. Declara-se católico, embora tenha sido batizado pelos evangélicos, cujo apoio acabou obtendo. Bolsonaro consegue uma ligeira vantagem entre os católicos (51% das intenções de voto, contra 49% do rival), mas seus apoios se multiplicam entre os evangélicos: segundo a última pesquisa Datafolha, 7 de cada 10 votam ao candidato do PSL. Os seguidores dessa vertente (22,2% da população), junto com os partidários das armas e com os ruralistas, formam na Câmara a bancada conhecida como BBB – da bala, boi e Bíblia.

Questão racial

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Segundo o Datafolha, entre os eleitores brancos Bolsonaro terá o dobro de votos (68%) que seu rival Haddad (32%). Por outro lado, entre os pretos o petista passa à frente e consegue 55% dos apoios. A população branca compõe geralmente as classes com rendas mais altas. Os dados por municípios revelam o mesmo resultado. Nas cidades onde os brancos superam 85% da população, Bolsonaro se impôs sempre. Em alguns lugares, conseguiu o dobro de votos que Haddad (Sapucaia Sul), o triplo (Nova Hamburgo) e até sete vezes mais (Blumenau, Brusque, Jaraguá do Sul). Por outro lado, nos municípios com menos população branca (como Parintins, Bragança, Codó e Timon) Haddad foi o ganhador.

sexo

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Entre os homens, Bolsonaro recebe quase o dobro de apoios que Haddad. Já entre as mulheres os dois candidatos estão quase empatados. No começo da campanha, as mulheres foram mais críticas com as ideias radicais do ex-militar, como sua defesa da posse de armas ou sua justificação da tortura. Foi delas a iniciativa do movimento #Elenão, uma grande manifestação contra Bolsonaro antes do primeiro turno.

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