Fundador do antivírus McAfee é encontrado morto em prisão de Barcelona

Empresário John McAfee foi preso há oito meses no aeroporto de El Prat e seria extraditado aos Estados Unidos por sonegação fiscal. Caso é investigado como suicídio

Imagem de John McAfee em setembro de 2015.
Imagem de John McAfee em setembro de 2015.Ng Han Guan / AP

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O fundador do antivírus McAfee, John McAfee, foi encontrado morto na tarde de quarta-feira na prisão de Brians, em Sant Esteve de Sesrovires (Barcelona). Os funcionários da prisão o encontraram em sua cela, segundo fontes policiais, que dizem tratar o ocorrido como um suicídio. À espera da autópsia, a polícia não encontrou nenhum indício de crime. McAfee esperava sua extradição aos Estados Unidos após ser preso pela Polícia Nacional espanhola no aeroporto de El Prat por sonegação fiscal. O Departamento de Justiça afirma que “tudo indica um suicídio”.

Seu advogado, Javier Villalba, disse à agência de notícias Reuters que a morte se deve a suicídio e que McAfee se enforcou em sua cela. “Isso é resultado de um sistema cruel que não tinha motivos para manter esse homem na prisão por tanto tempo”, disse o advogado.

McAfee, de 75 anos, estava há oito meses encarcerado na prisão catalã. O polêmico fundador do antivírus foi preso em 3 de outubro de 2020 no aeroporto de El Prat, quando estava prestes a entrar em um avião rumo à Turquia. A prisão foi feita a pedido da Justiça dos EUA, que acusa McAfee de sonegar milhões de dólares em impostos dos lucros supostamente obtidos com atividades como o comércio de criptomoedas. O juiz da Audiência Nacional José de la Mata ordenou seu encarceramento, e sua extradição aos Estados Unidos já estava prevista.

A Audiência Nacional deu sinal verde à extradição do magnata, segundo informações da agência Efe na tarde de quarta-feira. McAfee era acusado de sonegação fiscal em 2016, 2017 e 2018. A Promotoria se posicionou a favor de sua extradição por esses períodos, mas não pelos anos de 2014 e 2015, pelos quais a Justiça norte-americana também pedia sua extradição.

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O tribunal descartou que McAfee fosse perseguido por “questões políticas, de ideologia e similares”, porque “além das alegações verbais” do fundador do antivírus, não havia surgido “nenhum indício revelador” de que fosse assim. “A relevância social, econômica e de qualquer âmbito alegada pela defesa do recorrente não dá a ele imunidade alguma, estando submetido às leis do mesmo modo que qualquer pessoa sem relevância”, afirma o tribunal. Nos últimos anos, McAfee dizia que havia um complô contra ele.

John McAfee foi preso após uma notificação da Interpol, que o incluía em sua lista de pessoas mais procuradas com código vermelho, prioritário, a pedido dos Estados Unidos. O empresário passava temporadas em Tarragona. Após uma investigação da Polícia Nacional espanhola, os agentes descobriram que havia viajado à Alemanha, de onde retornou em um voo privado que aterrissou no aeroporto de Reus. Uma fotografia que ele mesmo publicou nas redes sociais serviu para localizá-lo na região. A partir desse momento, os agentes centraram seus esforços nos aeroportos espanhóis, até prendê-lo no de El Prat, em Barcelona. No dia seguinte, 4 de outubro, foi enviado à prisão de Brians, onde foi encontrado morto.

A investigação da Promotoria norte-americana afirma que McAfee sonegou milhões de dólares com a divulgação das criptomoedas e a venda dos direitos à publicação de sua biografia entre 2014 e 2018. Além disso, também o acusa de comprar outros bens através de terceiros, entre eles um iate. De acordo com o supervisor da Bolsa norte-americana, a Securities and Exchange Commission (SEC), o empresário usou o Twitter para promover entre seus seguidores a compra de criptomoedas sem avisar que ele ganhava dinheiro com isso. Com as operações supostamente embolsou 23 milhões de dólares (115 milhões de reais).

A vida do empresário sempre esteve envolvida em polêmica. Ele mesmo disse em entrevistas à imprensa norte-americana que após estudar Matemática na universidade e se dedicar à tecnologia, se viciou em drogas. Trabalhou em Nova York, Londres, Los Angeles e Cincinnati. Passou um ano no México percorrendo o país em uma caminhonete, vendeu joias e drogas até parar no Vale do Silício. Em 2010, vendeu sua empresa à Intel por quase 6 bilhões de euros (35 bilhões de reais).

Entre os episódios exóticos que cercam sua trajetória está a morte em 2012 de seu vizinho em Belize, onde McAfee morava cercado de cachorros, guardas e jovens mulheres. O vizinho morreu com um tiro na cabeça, e quando a polícia quis interrogar o fundador da empresa do antivírus para perguntar a ele se sabia algo sobre o ocorrido, este fugiu. Afirmou que as autoridades o acusariam do crime e até o matariam se o prendessem.

Desde 2011, disse recorrentemente que não se sentia seguro e que existia um complô contra ele elaborado pelo Governo dos Estados Unidos. Em sua vida, foi preso várias vezes. Antes da Espanha, em 2019 foi preso na República Dominicana quando seu barco atracou no país e nele encontraram armas, munições e dinheiro vivo. Seu advogado disse à época que McAfee foi libertado após comprovar que não existiam casos ativos e solicitações de extradição, e que as armas foram apreendidas antes de conseguir declará-las.

Os especialistas lembram que o suicídio não costuma ter um só motivo, é o resultado de fatores psicológicos, biológicos e sociais que têm tratamento. As pessoas com condutas suicidas podem ligar para o Centro de Valorização da Vida – CVV, telefone 188, dedicado à prevenção deste problema.

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