Na plateia de Bolsonaro, empresários são vistos como cúmplices da política que já matou 345.000 brasileiros

Projeto bolsonarista para o Brasil avança a passos largos amparado por uma iniciativa privada que apoiou sua eleição e agora é questionada pela inércia diante do quadro trágico que afeta seus próprios interesses. Memórias da ditadura vêm à tona

Mulher vítima de covid-19 é sepultada em um cemitério no Rio de Janeiro, na terça-feira, momento em que o país registrou 4.195 mortes em 24 horas.
Mulher vítima de covid-19 é sepultada em um cemitério no Rio de Janeiro, na terça-feira, momento em que o país registrou 4.195 mortes em 24 horas.Antonio Lacerda (EFE)

O anúncio feito no início da semana de um jantar entre o presidente Jair Bolsonaro e líderes empresariais em São Paulo despertou interesse imediato: quem seriam as pessoas que, no momento mais crítico da pandemia no Brasil, quando mais de 345.000 pessoas morreram vítimas da covid-19, aceitariam sentar-se, num gesto de apoio, ao lado de um presidente negacionista que contribuiu para um resultado trágico como o de agora? O mistério foi revelado na noite de quarta-feira. Nomes de peso compareceram ao evento organizado por Washington Cinel, dono da empresa de segurança Gocil. Na plateia, além da presença de bolsonaristas tradicionais como Flávio Rocha (Riachuelo) e Alberto Saraiva (Habib’s), empresários como André Esteves, sócio do banco BTG, Rubens Ometto, presidente da Cosan, Paulo Skaf (presidente da Federação das Indústrias de São Paulo) e Davi Safra (do banco que leva o nome de sua família) também aceitaram participar.

Quem foi lá encontrou o Bolsonaro de sempre. Ao lado dos ministros Paulo Guedes (Economia) e Marcelo Queiroga (Saúde), além do general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), o presidente falou para convertidos. “Tem de olhar o lado bom do país. Os investidores estão acreditando no Brasil. Basta olhar, hoje, o leilão dos aeroportos. Não existe terra melhor do que essa!”, informou o jornal Valor Econômico, que teve acesso a gravação em áudio do encontro.

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Num momento de extrema fragilidade na saúde e da democracia brasileira, os gestos de quem detém o poder econômico para com Bolsonaro são acompanhados com lupa. Em comum entre o grupo do jantar desta quarta, o fato de nenhum deles ter assinado o manifesto de líderes empresariais e economistas que cobra medidas mais rígidas de combate à pandemia, como o lockdown e uma política social mais consistente para com os vulneráveis. “O empresário que vai conversar com o Bolsonaro não necessariamente vai apoiá-lo nas próximas eleições”, afirma o economista Marco Bonomo, um dos autores do manifesto. “Temos que lembrar que os empresários são um grupo muito diverso, e uma parte está muito insatisfeita com a condução que o Governo federal está tendo da pandemia”, completa.

O fato é que o jantar rendeu enormes críticas e os empresários se viram associados ao que vem sendo chamado de política genocida. O chargista Carlos Henrique Iotti utilizou a arte para manifestar sua indignação com a estratégia de condução da pandemia do Governo.

Iotti

Para Bolsonaro, porém, foi um dia de narrativa favorável ao gosto do seu público fiel. Nesta quarta, o Governo logrou arrecadar 3,3 bilhões de reais com o leilão de 22 aeroportos, um ágio médio de 3.822% em relação ao valor mínimo apresentado. E o presidente ainda ecoou suas teorias mais negacionistas. Criticou as medidas tomadas por prefeituras e Estados para combater a pandemia, defendeu a manutenção da abertura de igrejas, derrubada pelo Supremo nesta quinta, e até mesmo o “tratamento precoce” contra a covid-19. Pouco antes, havia sentenciado: “Não vai ter lockdown nacional”, durante passagem por Chapecó (SC), antes de viajar a São Paulo. Nenhuma menção às quase 4.000 pessoas mortas pela covid-19 em um único dia. Nenhum plano concreto de como acelerar a vacinação. Nada sobre medidas eficazes de amparo às pequenas e médias empresas.

Apoio na eleição, decepção na pandemia

Grande parte do PIB apoiou a eleição de Bolsonaro. Poucos se pronunciaram no primeiro ano, quando ele já dava sinais de investir numa diplomacia equivocada, que tem reflexos até hoje nas dificuldades para comprar vacinas. Ou quando atacava outras instituições e fazia campanha contra jornalistas, como Patricia Campos Mello. Mas o Congresso estava entregando a esperada reforma da Previdência em fevereiro daquele ano, cumprindo um dos compromissos do presidente com a economia liberal. Bolsonaro ainda teve o trunfo de anunciar o acordo do Mercosul com a União Europeia em junho de 2019 – que até hoje não saiu do papel. Para o poder econômico, não importava o que ele havia dito no passado, quando fazia loas à ditadura e tratava as mortes do regime militar de modo banal.

Mas em 2020 veio a pandemia e a banalidade com que o mandatário trata a morte mostrou seus efeitos devastadores. O projeto bolsonarista para o Brasil avançou a passos largos amparado por uma iniciativa privada acrítica. Foi só a partir do descontrole das mortes que empresários começaram a vir a público mostrar alguma insatisfação. Assim como os militares hoje são cobrados pelo endosso ao presidente, a classe empresarial passou a ser pressionada. “Não entendo hoje um empresário que fique ao lado de Bolsonaro, a não ser que seja para fazer parte do saque que eles estão fazendo no Brasil”, diz o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília. Para ele, sequer as soluções liberais defendidas pelo Governo vieram a contento. “Só se a meta do Governo for reduzir o tamanho do Estado matando uma parte da população”, diz Oreiro.

Como exemplo, Oreiro cita o lobby do Governo para a aprovação no Congresso do camarote vip da vacinas, que visa facilitar a compra e o uso de imunizantes pelo setor privado, sem a necessidade de aprovação da Anvisa e sem ter de respeitar os grupos prioritários. “Até algumas semanas atrás, eu achava que o que estava em curso no Brasil era uma política de genocídio por incompetência, agora sei que é uma política de genocídio intencional”. O grupo Judeus pela Democracia também não se calou ao ver Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), sentado à mesa com o presidente. “A ida do presidente da Conib no jantar de empresários com Bolsonaro é inaceitável. Não nos representa como judeus ou brasileiros. Ir a um jantar com alguém que colabora com o genocídio e negacionismo da pandemia, no Dia da Lembrança do Holocausto, é uma página triste para a história da Conib”, manifestaram em rede social.

A compra das vacinas pela iniciativa privada é defendida por pessoas do núcleo duro bolsonarista, como Luciano Hang (Havan), Carlos Wizard e Washington Cinel, que organizou o encontro em São Paulo, mas não é unanimidade entre líderes empresariais. Muitos parecem ter acordado de que o não há mais espaço (e tempo) para fechar os olhos a escandalosos gestos como esse. É o caso do apresentador Luciano Huck, considerado um candidato da direita para 2022, que se posicionou contra o camarote vip das vacinas. “Eu vou tomar a vacina quando chegar a minha vez no SUS. #diganãoàfiladupla”, escreveu o apresentador no Twitter.

Outras personalidades do setor empresarial como Jorge Gerdau Johannpeter (Gerdau), Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles (ambos Itaú Unibanco) também vieram a público criticar o “falso dilema” entre salvar vidas e garantir o sustento da população, um dos argumentos mais recorrentes de Bolsonaro para justificar ser contrário a medidas mais rígidas como o lockdown. Os empresários fazem parte de um grupo de 1.700 lideranças que assinaram uma carta aberta a Bolsonaro no final de março. A iniciativa teve como resultado o criação de um comitê de crise para combater a covid-19. “Efetivamente, Bolsonaro fez aquele gesto de criar a comissão para a pandemia, mas ela não está funcionando, nenhuma medida concreta saiu dali”, conta Marco Bonomo, um dos idealizadores da iniciativa. “Bolsonaro não mudou de posição, continua contra o distanciamento social e o combate à pandemia se mantém descentralizado, sem uma coordenação nacional. Dizem que vem aí uma campanha para usar máscara, uma coisa que devia ter sido feita há um ano”, lamenta o professor.

Pouco a pouco, novas vozes abandonam o princípio de isenção. “Falou-se em ‘menos Brasília, mais Brasil’, mas não estou vendo esse mais ‘Brasil’ chegar aqui na sociedade, nos cidadão, nas grandes e pequenas empresas”, disse em tom de desabafo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, durante videoconferência com jornalistas na quarta-feira. Moraes não poupou críticas a políticos que, por “incompetência, falta de visão ou visão só eleitoral”, estão criando ruídos “inaceitáveis” na gestão da crise sanitária e econômica. “Não se percebeu ainda em Brasília a gravidade da situação e se perceberam, estão demorando demais para agir”, afirmou.

Muitos não vão abandonar o barco. É o caso do primeiro bolsonarista, Luciano Hang, cujo papel nas eleições de 2018 fez com ele ele fosse investigado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no caso do disparo de mensagens de WhatsApp em massa pró-Bolsonaro. Um levantamento realizado pela revista Forbes mostra que o Governo Bolsonaro tem feito muito mal para os negócios do dono da Havan: ele perdeu cerca de 5 bilhões de reais só em 2020. “A pessoa apoiar um sujeito que faz com que ele perca dinheiro, eu, como economista, me sinto incapaz de analisar. Isso é o tipo de comportamento para um psiquiatra, sociólogo, antropólogo”, afirma José Luis Oreiro.

Seja pelo julgamento da história ou pelo bolso, os empresários vão ser cobrados a tomar um posição pela postura – ou silêncio — em meio à pandemia, tal qual nos tempos da ditadura. Durante o “regime empresarial-militar”, termo cunhado pelo jurista Fabio Konder Comparato, o apoio da sociedade civil foi fundamental para manutenção do poder dos militares nos anos de chumbo. A mesma Fiesp que hoje senta à mesa com o Governo militar de Bolsonaro, realizava encontros para convidar empresas a colaborar com a ditadura ―“Ford e a Volkswagen forneciam automóveis, a Ultragás emprestava caminhões e a Supergel abastecia a carceragem militar com refeições congeladas”, conta o jurista em artigo. O inimigo mudou, é verdade: a subversão comunista deu lugar à ameaça petista. “Imagina se o [Fernando] Haddad tivesse ganhado a eleição? O Brasil teria afundado, tinha virado o caos social”, disse Bolsonaro durante o encontro, segundo o áudio obtido pelo Valor Econômico. Em resposta ouviu ovação de um dos presentes: “Estamos com o senhor. O Brasil não volta para ladrão e vagabundo”.

Das empresas que colaboraram com a ditadura, a história vem cobrando sua parte. Que o diga a Volkswagen, que no final do ano passado foi obrigada a reconhecer sua cumplicidade com os órgãos de repressão e a destinar 36,3 milhões de reais a ex-trabalhadores e iniciativas pró-memória. A preocupação de empresários que agora tentam descolar sua imagem de Bolsonaro é a consciência de que a história também não vai esquecer aqueles que o elegeram e não se importam em ter sua imagem associada a sua política que desfigura o Brasil.

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