“Minha pressa não é por vacina, é por comida”. A fila da fome em São Paulo turbinada por ato anti-Doria

Doação de 3.000 kits de alimento pela Ceagesp gera fila quilométrica e aglomeração, mesmo sob forte chuva. Iniciativa foi promovida por bolsonarista que dirige centro de distribuição

Fila de pessoas aglomeradas aguardando a doação de alimentos na Ceagesp nesta quinta-feira, 14 de janeiro.
Fila de pessoas aglomeradas aguardando a doação de alimentos na Ceagesp nesta quinta-feira, 14 de janeiro.Camila Svenson
São Paulo -

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O anúncio de uma doação de kits de alimentos pela Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, a Ceagesp, atraiu milhares de pessoas ao local nesta quinta-feira, causando aglomeração em meio à pandemia do coronavírus. Muitos chegaram de madrugada para tentar conseguir uma das 3.000 senhas disponíveis para receber uma cesta de verduras, legumes e frutas. A fila quilométrica para conseguir a ajuda dava voltas no quarteirão e nem mesmo uma forte chuva pouco após o início da distribuição, que começou por volta das 14h, espantou os interessados. A ação aconteceu em meio a um protesto dos permissionários do entreposto contra o governador João Doria (PSDB) em virtude do aumento do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) para a cadeia produtiva dos hortifrutigranjeiros. Horas depois, o governador revogou as mudanças nas alíquotas de ICMS para o setor.

Benedita Correia, de 71 anos, passou mais de 8 horas na fila para conseguir os mantimentos. Aposentada e com dois filhos desempregados, ela tem tido bastante dificuldade de manter a família apenas com um salário mínimo, que atualmente tem o menor poder de compra em relação aos produtos da cesta básica em 15 anos. “Fiquei com medo dessa aglomeração toda, algumas pessoas sem máscara, se apertando para entrar, mas vim pela necessidade”, afirmou ela ao EL PAÍS já com uma sacola de plástico com alface, cenoura, tomate e algumas frutas. Pertencente ao grupo de risco do coronavírus, ela não vê a hora de receber a vacina contra covid-19 para “voltar a ter uma vida mais normal”. “A verdade é que o Governo está muito enrolado com essa vacina e os casos aumentando”, disse. Em São Paulo, o avanço da pandemia atingiu na última semana a maior velocidade desde agosto do ano passado. O Estado registrou aumento de 63% no número de casos positivos de coronavírus e 49% no de óbitos da doença.

Alexandra de Melo e a mãe Benedita Correia, de 71 anos, chegaram às 6h da manhã para enfrentar a fila.
Alexandra de Melo e a mãe Benedita Correia, de 71 anos, chegaram às 6h da manhã para enfrentar a fila. Camila Svenson

Na fila desde 5h da manhã, a preocupação de Ivone dos Reis Oliveira, de 48 anos, era com o fim do auxílio emergencial que recebeu até dezembro. Ela faz parte do grupo dos mais de 14 milhões de brasileiros que estão atualmente sem um posto de trabalho e não sabe como vai se virar sem o benefício. “No meio dessa pandemia, não sei como vou viver, acho que só de ajuda. Agradeço muito ter recebido essa cesta com legumes, mas tinha entendido que receberia uma cesta básica. A condução pra chegar aqui foi cara”, lamentava a moradora do Jardim Prainha, na zona Sul da capital paulista. A mesma reclamação era feita por muitos da fila, que acreditavam que levariam arroz e feijão pra casa. “A minha pressa é por comida, a vacina eu vou esperar, tenho medo dessa que estão anunciando, vou esperar para ser algo mais garantido”, explicou Oliveira.

Com o marido desempregado e poucas oportunidades de bicos no setor de limpeza, a faxineira Almerinda Sampaio Pereira, de 57 anos, tem tido dificuldade de manter as contas em dia. “Com o aumento de casos de covid, os meus clientes já não querem receber gente em casa. Eu mesmo peguei a doença. Atualmente, só trabalho duas vezes por semana, tenho 2 filhos desempregados e um especial que precisa de mais cuidados”, explica. Até dezembro ela recebia o auxílio emergencial, mas avalia que mais importante do que estender o benefício seria o Governo gerar postos de trabalho. “O que quero é poder trabalhar para me manter”.

Almerinda Pereira dos Santos, que já se infectou com a covid-19, ficou preocupada com a aglomeração do local.
Almerinda Pereira dos Santos, que já se infectou com a covid-19, ficou preocupada com a aglomeração do local. Camila Svenson

Protesto contra aumento de imposto

A distribuição de alimentos gratuitos na Ceagesp já acontece desde outubro, mas em escala menor. A ação desta quinta-feira, que foi maior e mais divulgada, teve um componente político já que ocorreu em meio a um protesto, promovido pelo sindicato de permissionários da Ceagesp, contra a iniciativa do governador João Doria de promover aumento do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços( ICMS) a partir desta sexta-feira (15) para alguns serviços e produtos da cadeia dos hortifrutigranjeiros. “Será uma forma de mostrar à sociedade a importância de todas as categorias envolvidas no abastecimento e o quanto a criação e o aumento de impostos sobre os alimentos prejudicarão as famílias que mais precisam”, disse a Ceagesp em um comunicado. De acordo com o sindicato, a medida do Governo que prevê um aumento de 4,14% do ICMS sobre frutas, legumes e verduras pode pode impactar o preço final de hortifrutigranjeiros em até 10%. No estacionamento da Ceagesp, caminhões exibiam faixas em protesto contra o Governador e o a alta do imposto.

No estacionamento da Ceagesp, caminhões exibiam faixas em protesto contra o Governador e o a alta do imposto.
No estacionamento da Ceagesp, caminhões exibiam faixas em protesto contra o Governador e o a alta do imposto. Camila Svenson

Desde outubro, a companhia é chefiada pelo coronel Ricardo Mello Araújo, ex-comandante da Rota (força de elite da Polícia Miitar de São Paulo), após ter sido nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro. Em sua gestão, por sugestão do próprio presidente, a Ceagesp passou a dar desconto de 20% para policiais militares. Segundo Araújo, o abatimento, é “fruto de uma reunião entre a diretoria e os comerciantes varejistas” e não é uma imposição. Em dezembro, Bolsonaro visitou a Ceagesp, causando aglomeração e descartou privatizar ou mudar o local, como defende seu rival político, João Doria.

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