Pandemia de coronavírus

Economias da América Latina serão incapazes de se recuperar por completo em 2021

Em seus últimos balanços anuais, organismos internacionais condicionam o crescimento do PIB a uma boa distribuição da vacina e à permanência dos estímulos fiscais. Cepal prevê que Brasil terá crescimento de 3,2% na economia no próximo ano

Pessoas caminham pelo Saara, região de comércio popular no centro do Rio, capital do segundo Estado mais afetado pela pandemia no Brasil.
Pessoas caminham pelo Saara, região de comércio popular no centro do Rio, capital do segundo Estado mais afetado pela pandemia no Brasil.Antonio Lacerda / EFE

Do México ao Chile, os latino-americanos esperam que a vacina contra o coronavírus venha acompanhada da renda e dos empregos perdidos durante a pandemia. Essa recuperação começará em 2021, de acordo a organismos multilaterais, mas será árdua e incompleta. Dependerá da eficiência dos poderes públicos em distribuírem e administrarem a vacina, da capacidade de manter os estímulos fiscais para ajudar suas populações, e de como os Governos lidarão com possíveis insatisfações sociais.

Ao final deste ano, os dados retratam uma realidade econômica crua e difícil. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal, um órgão da ONU), a economia se contrairá 7,7% em 2020 e crescerá 3,7% em 2021. A melhora será apenas um “repique estatístico”, observa o organismo, insuficiente para restituir os níveis de atividade econômica anteriores à pandemia da covid-19. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em um relatório apresentado na quinta-feira, projeta que 30 milhões de pessoas estão desocupadas atualmente e 23 milhões terão deixado a força de trabalho neste ano. “Em 2021 o emprego estará em terapia intensiva e os indicadores poderiam piorar”, diz o relatório anual. Por sua vez, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) informou que o valor das exportações de bens se contrairá entre 13% e 11% neste ano, limitando a entrada de divisas nos países.

Em uma apresentação como parte de seu último Balanço Preliminar das Economias da América Latina e Caribe 2020, a Cepal apontou quatro fatores que definirão a recuperação econômica: a intensidade e propagação da segunda onda de contágios, a agilidade para produzir e distribuir as vacinas, a capacidade de cada país para manter os estímulos monetários e fiscais, e as tensões geopolíticas ou sociais que possam surgir.

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“Embora os importantes esforços fiscais e monetários realizados pelos países tenham permitido mitigar os efeitos da crise, as consequências econômicas e sociais da pandemia foram exacerbadas pelos problemas estruturais que a região arrasta historicamente”, informou a organização em um comunicado. “Para o ano de 2021, espera-se uma taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB) positiva, que reflete fundamentalmente um repique estatístico, mas a recuperação do nível do PIB prévio à crise será lenta e se alcançaria apenas por volta do ano de 2024.”

Antes da pandemia, a América Latina já registrava um baixo crescimento econômico. A Cepal aponta que entre 2014 e 2019 o crescimento foi em média de 0,3% ao ano. Em 2019, especificamente, foi de 0,1%. De acordo com suas projeções, a América do Sul se contrairá 7,3% neste ano e crescerá 3,7% em 2021; a América Central cairá 6,5% em 2020 e se expande 3,8% no próximo ano; finalmente, o Caribe será a região com maior contração em 2020, de 7,9%, mas verá um crescimento de 4,2% em 2021. No Caribe, o país mais afetado será Santa Lúcia, uma ex-colônia britânica. Espera-se que a contração econômica na ilha seja de 26,6%.

Fora do Caribe, os países mais afetados na América Latina serão a Venezuela, com uma queda estimada de 30%, seguida do Peru, com uma contração de 12,9%, e Panamá, com 11%. Argentina, México e Chile verão suas economias encolherem, respectivamente, 10,5%, 9% e 6%. Para o Brasil, maior economia da região, a contração estimada para este ano é de 5,3%, seguida de uma recuperação de 3,2%, em 2021. A organização também prevê uma recuperação do Peru (+9%) e Panamá (+5,5%) no próximo ano, influenciada pela base baixa de comparação. Para Argentina, México e Chile são projetadas altas de 4,9%, 3,8% e 5%, respectivamente. A organização prevê mais um tombo de 7% na economia da Venezuela no próximo ano.

O BID, por sua vez, publicou um balanço anual das exportações na região apontando que, apesar da tendência de melhora nos indicadores comerciais, a atual incerteza não permite divisar uma recuperação. A região teve uma queda de 20,2% nas suas exportações ― a maior do mundo, segundo o relatório. Estima-se que as importações tenham caído em uma amplitude similar, 19%.

O relatório mostra que as exportações do Brasil cairão em 2020 cerca de 7,9%, aprofundando a contração de 5,8% experimentada em 2019. Embora os embarques para a China e resto da Ásia tenham aumentado, em 10,5% e 2,7%, respectivamente, o aumento não foi suficiente para compensar a queda nas vendas para os Estados Unidos (-30,5%) e para a sub-região latino-americana (-23,3%), especialmente para a Argentina. As exportações brasileiras também tiveram redução nos embarques para a União Européia (–14,7%). “A contração das exportações é explicada principalmente pela queda nas vendas de combustíveis e plataformas de exploração. Em contrapartida, destacam-se os aumentos nos valores da soja exportada”, informou o BID.

“Embora a região não tenha recuperado os níveis de exportação anteriores à pandemia, o impacto da crise está sendo atenuado, e as perspectivas melhoraram”, disse no comunicado Paolo Giordano, economista principal do Setor de Integração e Comércio do banco e coordenador do relatório. “Entretanto, a instabilidade persiste, e ainda não se vislumbra uma mudança de tendência para uma trajetória de crescimento sustentado”, acrescentou.

A magnitude desta crise econômica por causa da pandemia a torna diferente de qualquer outra, afirmou em entrevista coletiva na quinta-feira o diretor regional da OIT para a América Latina e o Caribe, Vinicius Pinheiro. “É uma crise que chega a todos os setores econômicos e também estamos falando de níveis de desocupação e desemprego sem precedentes na história”.

“As pessoas perdem o emprego e já não voltam a trabalhar. Um dos impactos mais importantes está na taxa de desocupação de maneira permanente”, afirmou Pinheiro. Para os trabalhadores ocupados, “o que aconteceu foi uma redução de salário ou do montante de horas trabalhadas, ou seja, é uma crise que afeta também quem manteve seu emprego”. As mulheres e os jovens foram os mais impactados pela perda do emprego, e o trabalho infantil aumentou, acrescentou. O relatório da OIT mostra o desemprego atinge mais de um terço dos jovens que participam do mercado de trabalho no Brasil. De janeiro a setembro, o desemprego chegou a 31,1% dos jovens, um crescimento em relação ao mesmo período de 2019, quando 28,5% dessa população estava fora do mercado de trabalho.

Os países que implementaram estímulos fiscais neste ano fizeram esforços “formidáveis”, apontou Pinheiro, “mas para o ano que entra é fundamental mudar o chip e olhar para a recuperação econômica sustentável de longo prazo. Não somente para curar as cicatrizes que deixaram a crise, mas também para explorar oportunidades e, mais importante, para tratar os elementos estruturais”.

Colaborou Regiane Oliveira, de São Paulo.

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