Bolsonaro diz que Trump se comprometeu a não sobretaxar o aço brasileiro

Presidente norte-americano tuitou que ambos tiveram uma “ótima conversa”, que incluiu comércio exterior, e que a relação entre Brasil e EUA “nunca esteve tão forte”

Jair Bolsonaro entre o chanceler Ernesto Araújo e o assessor especial da Presidência Filipe Martins.
Jair Bolsonaro entre o chanceler Ernesto Araújo e o assessor especial da Presidência Filipe Martins.Reprodução Facebook

A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de sobretaxar o aço e o alumínio brasileiros não durou mais de um mês. E tudo o que ele precisava para desistir da ideia era conversar com o colega Jair Bolsonaro. Pelo menos nas palavras do próprio Bolsonaro. O presidente brasileiro anunciou nesta sexta-feira, em uma live no Facebook, que se entendeu sobre o assunto com o líder norte-americano. “Ele se convenceu dos meus argumentos e decidiu dizer a nós todos, brasileiros, que o nosso aço e o nosso alumínio não serão sobretaxados. Repito: não serão sobretaxados”, anunciou Bolsonaro.

Vestindo uma camiseta da seleção de futebol do Catar e escoltado pelo chanceler Ernesto Araújo e o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais Filipe G. Martins, Bolsonaro aproveitou para destacar sua “amizade pessoal” e simpatia por Trump, que retribuiu a gentileza por meio de seu perfil no Twitter: “Acabo de ter uma ótima conversa telefônica com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Conversamos sobre vários assuntos incluindo comércio exterior. A relação entre Estados Unidos e Brasil nunca esteve tão forte”.

Quando a sobretaxa foi anunciada para Brasil e Argentina, no início de dezembro, o Instituto do Aço Brasil criticou a decisão, baseada, segundo Trump, na desvalorização deliberada dos câmbios brasileiro e argentino. Meses antes, em agosto, o Governo norte-americano havia flexibilizado as importações destes metais ― as companhias dos EUA que negociassem aço brasileiro não precisariam pagar 25% a mais sobre o preço original desde que comprovassem a ausência de matéria-prima no mercado interno.

Gepostet von Jair Messias Bolsonaro am Freitag, 20. Dezember 2019

Os EUA são o maior destino do aço brasileiro. De acordo com o Instituto Aço Brasil, o mercado norte-americano recebeu 6,6 milhões de toneladas das 16 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos exportados pelo Brasil em 2018. Das 119.500 toneladas de alumínio exportadas pelo Brasil de janeiro a outubro deste ano, quase a metade, 52.000 toneladas, foi para os Estados Unidos.

Nesta sexta, Bolsonaro destacou que, na época do anúncio de Trump, “não aceitamos a provocação de uma reação imediata contra o Governo americano”. Na live, o presidente brasileiro reclama ainda dos “ataques da mídia” recebidos quando o homólogo norte-americano anunciou a sobretaxa ― mais cedo, o presidente havia se desentendido com jornalistas novamente durante entrevista coletiva, e chegou a dizer que um deles tinha uma “cara de homossexual terrível”, além de mandar outros “ficarem quietos”.

A irritação de Bolsonaro foi uma reação aos questionamentos sobre a investigação acerca de seu filho Flavio Bolsonaro. Hoje senador, Flavio é investigado por conta da suspeita da prática de “rachadinha” ― embolsar dinheiro do salário de seus funcionários ― quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Questionado sobre se tinha recibos do empréstimo de 40.000 reias que alega ter feito a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flavio e um dos pivôs das suspeitas acerca do suposto esquema do gabinete do então deputado estadual, Bolsonaro explodiu: “Pergunta para tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?”

Entidades de imprensa como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) manifestaram repúdio às atitudes do presidente. “Foram mais de uma dezena de ocasiões ao longo do primeiro ano de mandato em que o presidente teve atitude semelhante. Os apoiadores do presidente que também o aguardam na porta do [Palácio] Alvorada costumam celebrar os ataques, acentuando o clima de intimidação contra os repórteres”, disse a Abraji em nota.

Popularidade

A conversa com Trump e o anúncio de uma vitória comercial são um alento para um dia em que Bolsonaro, já perturbado pelo caso do filho senador, recebeu mais uma má notícia. Pesquisa Ibope divulgada nesta sexta-feira indica que a popularidade de Bolsonaro tem oscilado negativamente desde abril. A aprovação de seu Governo (aqueles que o consideram ótimo ou bom) é de 29%. Na pesquisa anterior, divulgada em setembro, esse percentual era de 31% ― o pico de aprovação foi em abril, com 35%. Por outro lado, a avaliação de ruim ou péssimo passou de 34% para 38% desde setembro.

Já quando a pergunta é sobre a maneira de governar de Bolsonaro, 53% dos 2.000 pesquisados dizem desaprová-la. As avaliações sobre o desempenho econômico do Governo também não são boas: 62% desaprovam a taxa de juros ― apesar de a taxa básica ter sido reduzida para 4,5% neste mês, o menor percentual desde 1999 ―, 56% desaprovam o combate ao desemprego e 64% desaprovam a cobrança de impostos. Apesar disso, 40% dos entrevistados consideram o Governo Bolsonaro melhor do que o de Michel Temer ― 36% acham que são iguais e 20% dizem que é pior.

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