Meg Ryan chega aos 60: como um nu acabou com a carreira da estrela da comédia romântica

A namoradinha da América da década de noventa chocou a opinião pública em 2003 quando decidiu mudar de registro e protagonizar o thriller erótico ‘Em carne viva’. Um atrevimento que defenestraria a atriz para sempre

Ryan posa para os fotógrafos em setembro deste ano, na inauguração do museu da Academia Cinematográfica de Hollywood.
Ryan posa para os fotógrafos em setembro deste ano, na inauguração do museu da Academia Cinematográfica de Hollywood.Getty

A lista de atrizes de renome que chegam à maturidade distantes dos sets de Hollywood —uma indústria que continua amortizando suas estrelas femininas com base apenas na sua data de nascimento— é tão longa quanto notável. Mas, no caso de Meg Ryan, que comemora 60 anos neste 19 de novembro, a injustiça ecoa com mais força. Líder das bilheterias internacionais durante uma década e meia, a ponto de se transformar na carismática namoradinha da América graças a comédias românticas como Harry e Sally, Sintonia de amor e Mensagem para você, está há seis anos afastada do cinema. Não só teve seu trabalho sistematicamente ignorado por críticos e acadêmicos (jamais foi indicada ao Oscar) como também viu os mesmos espectadores que haviam se apaixonado por seu sorriso contagiante lhe darem as costas quando ela quis ser algo além do interesse romântico do protagonista. Seu pecado? Tirar o sutiã.

Lá por 2002, aos 41 anos e com um bom punhado de sucessos no currículo, a atriz norte-americana apostou em uma guinada na sua filmografia, antepondo a visão artística à comercial. Depois de embolsar a bagatela de 15 milhões de dólares por seu papel de protagonista na comédia romântica Kate & Leopold, tornando-se assim uma das artistas mais bem pagas do mundo do cinema, aliou-se à cineasta Jane Campion (O piano) para perseguir a cobiçada estatueta do Oscar com o thriller Em carne viva, lançado um ano depois. Ryan encarnava uma professora solitária que embarca num relacionamento com um investigador que apura uma série de crimes —um papel inicialmente pensado para Nicole Kidman, mas que a australiana recusou porque se encontrava em pleno processo de divórcio. A alta carga erótica do filme obrigou Ryan a protagonizar cenas de nu e de sexo explícito, algo que não era novidade na sua carreira. Mas ela não levou em conta como um passo em falso —quando dado por uma mulher— pode representar o suicídio profissional até para a estrela mais brilhante das colinas de Los Angeles.

Cena de ‘Em carne viva’, na qual Ryan dava vida a uma professora de Manhattan.
Cena de ‘Em carne viva’, na qual Ryan dava vida a uma professora de Manhattan.SONY PICTURES

Em carne viva foi um antes e um depois na minha carreira. A reação foi cruel”, afirmou a própria Meg Ryan em uma entrevista ao The New York Times em 2019. A atriz reconhece que, ao tentar romper com o clichê e com os anseios que o público projetava nela, acabou provocando um trauma do qual jamais se recuperou. “Desde então, todos os publicitários disseram que eu deveria ter preparado os meus fãs, porque o sexo afasta as pessoas. Nunca eu havia me apresentado tão sexual, era muito diferente do arquétipo que tinham atribuído para mim.” Ryan reconhece que o sentimento de final de ciclo após o vexame do filme nos cinemas era mútuo: “Eu achava que estava acabada, e provavelmente eles também acharam”.

Honrando um país que se gaba da sua hipócrita dissimulação, a imprensa especializada não hesitou em transformar aquela cena no tema central de qualquer informação sobre o filme. “Chega uma época na carreira de qualquer atriz em que você tem que tirar a roupa se quiser ser levada a sério”, dizia a frase de abertura da crítica publicada na revista Empire. “Meg Ryan se despe e deixa seu coprotagonista nervoso”, titulou a Entertainment Weekly, destacando o “estresse vivido por um aterrorizado Mark Ruffalo” ao tentar estar à altura de sua colega nas cenas de intimidade.

O último filme de Meg Ryan data de 2015.
O último filme de Meg Ryan data de 2015.Getty

A etapa de divulgação virou um julgamento público sobre o direito de Meg Ryan se desvencilhar da imagem pré-estabelecida que os espectadores tinham a respeito dela. Nas entrevistas, repetia com insistência que as sequências sexuais não tinham sido difíceis de rodar, e inclusive negava que sua participação no filme significasse um ato de ruptura na sua carreira. “Fiz 30 filmes, e só 7 deles são comédias românticas. Então não, nem sei qual é o típico filme de Meg Ryan”, alegou. Nem sequer era a primeira vez que a atriz de Connecticut protagonizava este tipo de sequência na telona: já o tinha feito antes em The Doors e A força de um passado, em que contracenava com seu então marido, Dennis Quaid.

Ryan foi uma das atrizes mais populares da década de 90. Na imagem, junto a Diana de Gales, Billy Crystal e Dennis Quaid.
Ryan foi uma das atrizes mais populares da década de 90. Na imagem, junto a Diana de Gales, Billy Crystal e Dennis Quaid.Getty

Foi justamente a conturbada ruptura desse midiático casamento o outro motivo que levou o público a deixar de gostar de Meg Ryan. O romance da atriz com Russell Crowe durante a rodagem de Prova de vida a levou a se divorciar de Quaid e romper, ao menos perante os olhos da opinião pública, um casamento canônico e exemplar na Meca do cinema. Não importavam as infidelidades sistemáticas do pai de seus filhos nem seu vício em álcool e drogas; Ryan havia metido chifres nos Estados Unidos, e os beatos a fariam pagar pela queda do mito num momento em que os debates sobre os vieses de gênero, as discriminações sistemáticas e as imposições convencionais às mulheres não estavam nem no horizonte. A atriz jamais voltaria a protagonizar um sucesso de bilheteria nem a ser sugerida como a mulher de todo um país. “Ser a namorada da América não permite que você se expresse por completo como pessoa. Ser uma estrela exige um vazio”, admitiria ela mesma.

A situação escalou até limites inesperados numa entrevista recordada como uma das mais “incômodas e infames” já exibidas na televisão britânica. O apresentador Michael Parkinson, uma lenda viva da BBC, não hesitou em personificar a indignação popular pelo atrevimento da atriz em protagonizar as cenas picantes, encurralando a norte-americana em sua passagem por seu programa. “Como pode que você tenha aparecido nua? Deveria ter preparado a seu público antes de fazer algo diferente”, argumentou. Ryan, que pediu a Parkison para interromper a entrevista antes da hora, admitiu depois que se sentiu muito ofendida por sua atitude. “Era como se me desse uma bronca por ter ficado pelada. Comportou-se como um pai que desaprovava o que eu fazia. Não somos parentes, fique longe de mim.” Aquele choque televisivo deixou tamanho impacto que no último mês de agosto, 18 anos depois da exibição, o próprio Parkinson pediu desculpas publicamente por ter “perdido os modos” em um momento que qualifica como o mais difícil de sua histórica carreira.

Desligar-se dos papéis que os transformam em celebridades é um passo inevitável na carreira de qualquer ator de renome (aí estão outros ícones das rom-coms, como Tom Hanks e Matthew McConaughey), mas a perspectiva de gênero tem um papel crucial na sua experiência. “As cenas de sexo não assassinaram a carreira de Meg Ryan. A carreira de Meg Ryan foi assassinada por ser uma mulher em Hollywood”, argumenta Christina Cauterucci na Slate. “Era um problema de sexismo. Não quiseram levá-la a sério, e isso é uma vergonha”, acrescenta o crítico Scout Tafoya. A lição para as próximas estrelas femininas estava clara: se você apostar em uma queda-de-braço com a indústria para sair do molde estabelecido por seus interesses comerciais, é melhor estar preparada para nunca mais voltar a pisar num set de filmagem.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS