Mercado de arte nos EUA retoma voracidade com leilões milionários

Van Gogh e Picasso aquecem a temporada de outono estadunidense em um leilão de 332 milhões de dólares na Christie’s de Nova York, que volta a ter público ao vivo com diminuição de números da pandemia

O quadro de Picasso 'Mousquetaire á la pipe II' leiloado pela Christie's em Nova York em 11 de novembro de 2021.
O quadro de Picasso 'Mousquetaire á la pipe II' leiloado pela Christie's em Nova York em 11 de novembro de 2021.ED JONES (AFP)

Nos últimos dias, a sede da casa de leilões Christie’s, na milha de ouro de Manhattan, está fervilhando com visitantes. Ali se realiza um dos principais eventos do mercado de arte, a temporada de outono, e os primeiros leilões com público desde o início da pandemia, embora ainda em formato híbrido, com licitantes online de cerca de trinta países. Centenas de pinturas que muitos museus do mundo sonhariam em incorporar a seu acervo são expostos ao público, composto de uma mistura de curiosos, estudantes, executivos em ternos imaculados e belas damas com bolsas que não valem menos de quatro dígitos. É difícil focar os olhos em uma única obra, tamanho é o superestímulo artístico —e a avassaladora exibição de riqueza, com preços vertiginosos— que o lugar abarca. A pandemia, longe de enfraquecer o mercado, parece ter aumentado o apetite exclusivo pela beleza.

Boa parte dos visitantes está ciente de que, não fossem essas oportunidades, seria impossível contemplar obras cuja existência corre paralela à vida pública dos museus: um retrato feminino e violeta de Picasso, ou as figuras vaporosas e travessas de Chagall que parecem flutuar. Obras transformadas em apostas da especulação depois de serem temperadas na fortuna de magnatas como Ed Cox, cuja coleção foi arrematada nesta quinta-feira na Christie’s por 332 milhões de dólares (1,82 bilhão de reais), ou pelas desventuras de um casal, como a coleção Macklowe, à venda por causa do divórcio do magnata do mercado imobiliário Harry Macklowe em 2018 e que, com apenas 65 peças, está avaliada em mais de 600 milhões de dólares (3,28 bilhões de reais). A coleção, a joia da coroa da Sotheby’s, é a mais cara leiloada até hoje e a venda será em duas etapas, a primeira na próxima segunda-feira, a outra, em maio. Segundo fontes da empresa, será o negócio mais importante desde 2015.

Porque na Nova York dos dias de hoje há lugar para todos: a primeira divisão é representada pelas centenárias firmas Christie’s e Sotheby’s, mas também casas mais modestas como a Bonhams, que no domingo celebrará seu dia de postas abertas a um seleto grupo de convidados com um brunch animado com jazz ao vivo. A epítome de Nova York.

Retrato de 'Jean-Michel Basquiat' feito por Andy Warhol, leiloado na quinta-feira, 11 de novembro em Nova York.
Retrato de 'Jean-Michel Basquiat' feito por Andy Warhol, leiloado na quinta-feira, 11 de novembro em Nova York. ED JONES (AFP)

A Christie’s e a Sotheby’s também são a quintessência de um mercado de arte cada vez mais mundial, a julgar pelo perfil de seus exclusivos clientes. Os colecionadores asiáticos trouxeram dinamismo a um mercado até recentemente monopolizado por fortunas de longa data. Na apresentação virtual da coleção Macklowe, Patti Wong, chefe da Sotheby’s na Ásia, destacou o tamanho desse mercado: “Sua importância ficou clara neste último ano, depois de seu desembarque há uma década. Os colecionadores asiáticos estão entrando no mercado em um ritmo sem precedentes. Das vinte peças mais importantes leiloadas em 2020, nove foram compradas por asiáticos. Eles também adquiriram 50% das obras de mais de cinco milhões de dólares no mesmo período”.

Mas, em face do dinamismo asiático, o assentado —e bem amortizado— estilo dos impressionistas continua a ser o ativo mais seguro, o timbre de glória em qualquer coleção que se preze. A venda da Cox foi fechada nesta quinta-feira por 332 milhões de dólares; metade, em obras de Van Gogh, incluindo um desenho do holandês saqueado pelos nazistas, mais oito picassos que arrecadaram 92 milhões (503 milhões de reais) e um caillote que bateu seu próprio recorde, 53 milhões de dólares (290 milhões de reais), e foi adquirido pelo Museu Getty de Los Angeles. Os demais compradores permanecem anônimos. Curiosamente, os impressionistas vêm tendo menor acolhida no mercado asiático: apenas 13% dos compradores são desse continente. O estilo continua tendo mais destaque na América (52%) e na Europa (35%), segundo fontes da empresa.

Colecionadores mais jovens

Os colecionadores também estão ficando mais jovens, graças à incorporação da geração do milênio no mundo da arte, ou em seu mercado. No caso da Christie’s, 30% de seus compradores em 2021 eram “novos clientes” e, entre eles, 31% eram millennials. Esse fator talvez explique a crescente presença de obras digitais ou NFTs e também o uso de criptomoedas na transação. A Sotheby’s vai leiloar em Ether (ETH) duas obras físicas de Banksy, um “fato sem precedentes”, anunciou na quinta-feira. Em um leilão online de NFT da Sotheby’s em junho, que arrecadou mais de 17 milhões de dólares (93 milhões de reais), quase 70% dos compradores eram recém-chegados. Os primeiros NFTs vendidos pela Christie’s na Europa no mês passado foram comprados por 1,3 milhão de dólares (7,1 milhões de reais) pelo proprietário de uma plataforma de empréstimo de criptomoedas. O norte-americano Beeple, criador do NFT mais caro já leiloado, viu sua primeira obra hibrida (virtual e física) render quase 30 milhões de dólares (163,5 milhões de reais) na sessão de terça-feira da Christie’s. Diante da profundidade da coleção Macklowe, forjada ao longo de cinco décadas e que, portanto, nos permite apreciar a evolução da maioria dos artistas que a compõem, a virtualidade instantânea ou improvisada vai ganhando cada vez mais terreno: o consolidado dá lugar à centelha.

À esquerda, a pintura de Vincent Van Gogh 'Meules de ble' (1888) leiloada pela Christie's em Nova York em 11 de novembro de 2021.
À esquerda, a pintura de Vincent Van Gogh 'Meules de ble' (1888) leiloada pela Christie's em Nova York em 11 de novembro de 2021. ED JONES (AFP)

O circuito da arte às vezes parece ter vida própria, arbitrária e caprichosa, independentemente da vontade de licitantes e colecionadores. Na terça-feira, no primeiro leilão da estação a Christie’s, dedicado ao século XXI, um enorme basquiat com preço estimado entre 40 e 80 milhões de dólares (220 e 440 milhões de reais), foi liquidado pelo preço inicial, pouco mais de 40 taxas e impostos incluídos, um resultado discreto para a expectativa existente. Dez outros criadores menos conhecidos, como o escocês Peter Doig, surpreenderam e bateram recordes de cotação: Doig alcançou sua melhor marca ao vender uma de suas obras, de 1990, pelo mesmo valor do esperado basquiat. No total, o leilão ultrapassou 200 milhões de dólares (1,1 bilhão de reais). Com o leilão impressionista de quinta-feira, o valor ultrapassou 971 milhões de dólares (5,3 bilhões de reais). Basquiat, curiosamente, teve melhor sorte na quinta-feira: um retrato dele feito por Andy Warhol rendeu 40 milhões de dólares (220 milhões de reais).

No que se refere à circulação das obras, ao seu posicionamento no mercado, a tendência aponta para uma relação cada vez mais direta entre artistas e leiloeiras, sem intermediários. Até agora, as galerias eram geralmente os interlocutores obrigatórios entre o artista e o colecionador. “A maior novidade é que cada vez mais os artistas querem trabalhar diretamente com as casas de leilão”, explica Rebekah Bowling, da Phillips, outra empresa do setor com portfólio internacional. “A estrutura tradicional do mercado se inverteu”, acrescenta ela. A facilidade de contato e exposição proporcionada por redes sociais como Twitter e Clubhouse hoje agiliza muitas etapas do negócio, à espera do metaverso, esse universo virtual em que muitos enxergam o futuro ecossistema da arte, ou pelo menos um deles. Um reflexo desbotado do lado artesanal do leilão de sempre, a golpe de um martelo, com operários de luvas transportando com cuidado as obras para o palco. Também na vida pós-pandêmica.

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