Zezé Motta: “Sempre neguei a falácia da democracia racial. Essa luzinha no fim do túnel ainda vai demorar”

Com 40 anos de uma carreira marcada pelo pioneirismo na dramaturgia nacional, a atriz e cantora reflete sobre vaidade, passagem do tempo, arte e militância em conversa com o EL PAÍS

A atriz e cantora Zezé Motta.
A atriz e cantora Zezé Motta.Alllexandros/@alllexandros

Ela se perfuma e se acaricia com cremes dia e noite enquanto se emociona muito com essa coisa, de aos poucos, voltar à “sensação de uma vida normal”. Frustra-se, no entanto, com o joelho machucado, que a privou, nos últimos tempos, dos quatro quilômetros diários de corrida e a afastou do pilates. Aos 77 anos, a atriz e cantora Zezé Motta celebra sua vaidade e se rebela contra o que chama de ditadura da aceitação. “Se as pessoas te chamarem de velha e você aceitar isso, você fica velha mesmo. Por enquanto, estou lutando contra os limites”, brada, com a mesma firmeza com a qual se engajou na luta dos movimentos negros desde o início da sua carreira, há 40 anos, quando uma palavra, um punho em riste, um cenho franzido custavam muito mais do que o possível fim de uma trajetória de trabalho.

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Com mais de 35 novelas, 40 filmes e 14 discos no currículo, Zezé desbravou espaços para artistas negras nas décadas de setenta, oitenta e noventa e fez história na dramaturgia ao protagonizar Xica da Silva, no filme de Cacá Diegues de 1976. Enquanto interpretava em frente às câmeras a negra escravizada convertida em madame, a atriz reivindicava nas ruas da vida real o seu black power, a beleza do seu nariz largo, seus traços de ancestralidade. E isso que, naquele momento, ela ainda não tinha ouvido as palavras de Lélia Gonzalez que a marcariam pelo resto da vida: “Não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo”, diria a expoente do feminismo negro, em 1980, em uma aula no Parque Lage, no mesmo Rio de Janeiro em que Zezé cresceu, sentindo, desde pequena, que havia alguma coisa “fora de ordem” no mundo.

Durante a adolescência, vivida em um prédio de classe média baixa do Leblon, onde se misturavam “pretos, brancos e até pessoas que se achavam brancas, mas não o eram”, esse incômodo começou a tomar forma. “Minhas coleguinhas diziam que meu nariz era chato, minha bunda, grande, e meu cabelo, ruim. Sem intenção de ofender, passavam a mão no meu black e diziam: ‘Nossa, parece um bombril, por que você não alisa isso?’. Eu me sentia realmente inferior e feia”, lembra. Para sentir-se mais bonita, começou a alisar o cabelo e guardou dinheiro para comprar uma peruca de corte chanel, sucesso na época. Até pensou em comprar lentes de contato verdes e pesquisou a existência de cirurgias plásticas para diminuir bumbum. “Passei uma fase de completa negação das minhas origens”. Até que encontrou as palavras de Lélia Gonzalez e decidiu viajar para os Estados Unidos em 1969, no auge do movimento Black is beautiful. “Vi aqueles negros lindos, de cabeça erguida, e aquilo me ajudou muito a repensar minhas próprias questões raciais. Fiquei muito mais segura, inclusive como atriz”, conta.

Além de cravar seu nome na história da arte brasileira, junto com outros como Ruth de Souza, Antônio Pitanga e Grande Otelo, Zezé Motta colocou sua militância sempre a serviço de seus pares e criou em 1984, ao lado de colegas, o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), um catálogo para atores brasileiros afrodescendentes no mundo, que beneficiou mais de 500 artistas. Foi também em reverência a todos eles que ela voltou aos palcos para apresentar, no dia 25 de julho, o musical Zezé Motta – Mulher negra, para comemorar o Dia da Mulher Negra, instituído para homenagear a líder quilombola Tereza de Benguela. Ali, ela esteve ao lado da escritora Conceição Evaristo, da filósofa Djamila Ribeiro, da cantora Iza e da influenciadora e ex-BBB Camilla de Lucas, cujo cerne do trabalho, para todas, é, de uma forma ou de outra, o feminismo negro. “A nova geração diz que lhes sirvo de inspiração, que têm muito a aprender comigo, mas, na verdade, eu acho que aprendo mais com elas. A artista, afinal, não pode ficar estagnada, tem que acompanhar o tempo”, diz Zezé, com seu sorriso aberto, sincero e modesto. É com esse espírito que ela reflete sobre a importância das palavras ancestrais de sua própria geração, gritadas em protestos nas ruas, escadarias ou salas de aula, serem transmitidas hoje nas redes sociais e na televisão. “É só uma questão de estar atenta para ver que Camilla de Lucas, por exemplo, reverbera esses discursos.”

Zezé Motta se sabe protagonista da História, mas não reivindica para si vaidades para além do próprio cuidado com o corpo e o bem-estar. Ri muito quando é lembrada, por exemplo, que Grande Otelo afirmou, no documentário La femme enchantée, de 1987, que ela é a “expressão do povo brasileiro”.

“Sobre os elogios, sempre digo que esperamos que venham e que devemos ser gratas quando eles chegam. Mas eu mesma me vangloriar, sem falsa modéstia, não faz parte do meu temperamento. Sou muito autocrítica. Nunca acho que fiz muito”, revela.

Sobre as muitas ameaças à arte e à própria democracia nos tempos atuais, Zezé Motta é taxativa: “Democracia no Brasil nunca houve e nunca haverá enquanto o racismo for o pilar do nosso país, da nossa sociedade. Sempre neguei a falácia da democracia racial e lembro que, quando começamos a falar de um movimento negro para combater o racismo no Brasil, diziam que estávamos importando um problema dos Estados Unidos. Diziam isso a mim, que sou do tempo em que negros não entravam na porta principal dos edifícios de luxo”. Ela lembra que se engajou nos movimentos negros justamente para que seus descendentes encontrassem, em suas palavras, um mundo melhor. “Estou com seis netos e ainda não chegamos lá. Essa luzinha no fim do túnel vai demorar a aparecer”, lamenta.

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