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Salvador, o “exílio doméstico” onde Lina Bo Bardi se apaixonou pela cultura popular

Leia capítulo de ‘Lina Bo Bardi - O que eu queria era ter história’ (Cia das Letras), onde autor Zeuler R. Lima conta a chegada da arquiteta italiana à capital da Bahia, que marcaria sua trajetória e seu trabalho para sempre

Lina Bo Bardi restaura azulejos no Solar do Unhão, em Salvador.
Lina Bo Bardi restaura azulejos no Solar do Unhão, em Salvador.Instituto Lina Bo e P. M. Bardi

Uma odisseia romântica e revolucionária

À beira da modernidade

Quando Lina Bo Bardi começou a frequentar Salvador, em 1958, não estava ainda de todo inteirada das mudanças que a cidade atravessava, e não podia imaginar os efeitos que o contato prolongado com ela teria em sua vida. A capital baiana fazia uma tentativa tardia de embarcar no processo de industrialização nacional, impulsionado pela exploração de poços de petróleo que haviam sido descobertos no fim dos anos 1930 no Recôncavo Baiano. A chegada da Petrobras trouxe à região um crescimento econômico e de investimentos sem precedentes. Os salários subiram, inflando a classe média, e a ampliação da infraestrutura deu grande impulso à construção civil e à expansão urbana. Na esteira dos serviços, do turismo e da indústria, veio a modernização cultural e institucional, além da ampliação da Universidade Federal da Bahia, fundada em 1946.

Enquanto isso, para além da costa verdejante, paisagens rurais semiáridas adquiriam um tom ocre, esturricando sob o vasto azul pontuado por um sol escaldante. Plantações secavam, poços de água viravam lama, o gado morria e as famílias, muito numerosas, passavam fome. O vento quente, soturno, e o poder implacável dos latifundiários locais forçavam uma enorme população de despossuídos e analfabetos a errar de vila em vila, apavorados pelas histórias de saques e de brutalidade que ouviam ao longo do caminho. Enquanto a indústria do petróleo vicejava no litoral, o desemprego e os despejos no campo criavam um forte movimento de êxodo rural, obrigando camponeses sem qualificação a migrar de suas casas para áreas urbanas, como Salvador, em busca de subempregos residenciais ou nos serviços. Milhares de pessoas sem recursos fugiam da seca crônica que afetava o sertão da Bahia e de todo o Nordeste. Viajavam dias e dias em bancos de madeira improvisados, na carroceria de caminhões apinhados, por estradas de terra esburacadas, aos solavancos, agarrando-se a seus assentos, seus parcos pertences e seus sonhos fugidios. Enquanto isso, artistas e intelectuais do país inteiro investiam a região de um significado cultural particular, ao projetar nela suas aspirações de transformação nacional, enraizados em valores populares e na tragédia do sertão. Lina logo se juntaria a eles nesse esforço.

Diferentemente das pessoas comuns que tanto idealizava, porém, ela chegou a Salvador de avião, com todo o conforto. As viagens aéreas, artigo de luxo no Brasil do fim dos anos 1950, eram um dos símbolos do governo populista e modernizador de Juscelino Kubitschek, que alegava ter saído ao resgate da região Nordeste, deixando como seu legado a criação de projetos como a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Depois de deixar São Paulo e vencer os quase 2 mil quilômetros do trajeto, o avião de Lina sobrevoou o velho farol na ponta da península que separa a baía do oceano Atlântico. Salvador se revelou como que emergindo da água, uma paisagem vincada por colinas cobertas de vegetação exuberante, edifícios coloniais marcados pelo tempo, novos arranha-céus, favelas em expansão e ruas íngremes e tortuosas. O avião por fim pousou no pequeno aeroporto, situado ao norte dos limites da cidade, em um campo aberto. Lina entrava em uma fase da vida em que se tornaria mais potente e autônoma, ainda que trilhando um caminho às vezes tão irregular quanto a paisagem que vira lá de cima.

A cidade aonde chegava se situava entre o mar e o interior rural, entre o desejo de se modernizar e uma tradição profundamente arraigada e arcaica. Mais do que qualquer outra cidade do Nordeste, Salvador tinha um caráter fortemente histórico e complexo. Nela, Lina conheceria uma cultura cotidiana carregada de um passado dormente de joias arquitetônicas barrocas e de traços africanos profundos e muito vivos. Mais precisamente, ela não chegou a Salvador de uma só vez, mas aos poucos, em quatro visitas diferentes feitas ao longo de um período de um ano e meio. Depois disso, acabou tendo uma longa permanência até 1964.

Naqueles anos, descobriu um terceiro país — outro território dentro do Brasil — desde que deixou a Itália. Em Salvador, ela encontraria vitalidade e liberdade em uma espécie de exílio doméstico que lhe deu a oportunidade de renegociar suas identidades, tanto a cultural quanto a pessoal, além de afiar sua visão crítica do desenho industrial e seus compromissos intelectuais e políticos como arquiteta, sobretudo como arquiteta brasileira. Com a vida acadêmica e profissional em compasso de espera, e ressentindo as infidelidades de Pietro, seu futuro — fosse em Salvador ou em São Paulo — não era claro. No início, não tinha planos de ficar a longo prazo, mas eis que, aos quarenta e tantos anos, logo descobriu um tipo de independência que não tivera a oportunidade de exercitar por completo desde que vivera em Milão, mais de dez anos antes. Além disso, em Salvador, envolveu-se de perto com algo que procurava, mas não conseguira encontrar em São Paulo: uma comunicação de mão dupla entre vanguarda e cultura popular.

Antes de ter ido lecionar em Salvador, Lina já havia feito uma primeira e curta visita à cidade, organizada por Odorico Tavares, jornalista e mecenas poderoso que dirigia a filial local dos Diários Associados. Os motivos daquela viagem, em fevereiro de 1958, não são totalmente claros. É provável que ela tenha ido como enviada de Chateaubriand, que, interessado na cena cultural e econômica da cidade, que se renovava, planejava com Tavares a criação de um museu de arte. Tavares foi um dos promotores pioneiros do modesto círculo modernista da cidade, e era também muito bem relacionado na política, com acesso direto ao reitor da universidade e ao gabinete do governador. Ele controlava o grosso da produção artística de Salvador e de sua difusão, e era um colecionador ávido, ainda que insistisse em valorizar o lado folclórico da cultura local. Ele também abrira o primeiro espaço de arte na cidade, a Galeria Oxumaré, que funcionou por muitos anos no prédio dos Diários Associados, como tinha acontecido com o Masp, em São Paulo. Tavares recebera Lina bem em Salvador porque, com o envolvimento dela com o museu, a arquiteta poderia ser uma conexão vital com o mundo das artes de São Paulo. A confiança que ela depositou nele naquela acolhida, contudo, seria, ao mesmo tempo, uma bênção e, como veio a descobrir mais tarde, uma maldição.

Investida de uma função de prospecção como representante de instituições cosmopolitas, Lina Bo Bardi chegou a um ambiente cultural patriarcal e politicamente provinciano. Mesmo assim, colheu benefícios pessoais na missão, conhecendo artistas e até mesmo novos clientes, um político local e sua esposa, para os quais projetou uma casa no bairro do Chame-Chame. Foi a partir daquele primeiro encontro que recebeu um convite para voltar temporariamente, em abril de 1958, para dar palestras e, alguns meses depois, em agosto, para passar um período mais longo, lecionando na UFBA e editando uma página dominical com crônicas sobre arte no jornal Diário de Notícias, controlado por Tavares. Nessa terceira temporada, ela firmaria parcerias novas e importantes fora do meio arquitetônico da cidade, em especial com o artista e professor de arte Mario Cravo Jr. e com o diretor da Escola de Teatro, o diretor Eros Martim Gonçalves.

Essa experiência breve, mas produtiva, a incentivou a voltar, pela quarta vez, em 1959, pouco depois da eleição de um novo governador, Juracy Magalhães, que era firme aliado do projeto desenvolvimentista do governo federal e decidira patrocinar a criação do museu de arte sonhado por Tavares e Chateaubriand. Nesse meio-tempo, Lina ajudou Gonçalves a organizar, para a Bienal de Arte de São Paulo de 1959, uma exposição sobre a Bahia que foi o trampolim para sua contratação como diretora do novo museu, a ser instalado no Campo Grande, perto da Federal da Bahia. A partir daí e por alguns anos, ela seria presença constante em Salvador.

Lina se lembrava dessa última e mais longa temporada, de 1959 a 1964, como sua experiência mais notável e definitiva na região. “Cinco anos entre os brancos”, como a chamaria em um artigo escrito alguns anos mais tarde. Ao todo, Lina passaria quase seis anos e meio em Salvador, na ponte aérea com São Paulo, onde a construção do novo prédio que projetara para o Masp continuava pendente. Também ia e vinha, na Bahia, entre as correntes econômicas e políticas dominantes e as contracorrentes culturais progressistas. Além de dar aulas e palestras, ajudou a organizar programas culturais, publicou artigos e editoriais, ajudou a criar o Museu de Arte Moderna da Bahia, dirigindo seu programa pedagógico e de exposições, projetou cenários, uma casa e até um mausoléu na ilha privada da família Odebrecht, bem como reformou um conjunto histórico na esperança de instalar nele uma escola popular de desenho industrial. Foi sobretudo exercendo o papel de diretora — aliás, nada convencional — do museu, mais do que como professora ou profissional da arquitetura, que Lina ampliou e amadureceu nesse período sua perspectiva como arquiteta. Ao afirmar sua independência, transformou-se de Signora Bardi em d. Lina, como ficou conhecida em Salvador por uma geração mais jovem de artistas e intelectuais de vanguarda.

Mais do que provocar nela um processo radical de transformação intelectual e de comportamento, a temporada em Salvador e suas incursões físicas e intelectuais pelo Nordeste despertaram interesses que estavam latentes, permitindo que ela vivesse por fim de acordo com aquilo que, de fato, lhe importava. Em sua nova cidade, ela pôde se destacar, ser autônoma e se integrar a um ambiente cultural boêmio, muito mais parecido com o que vivera antes de se casar com Bardi do que com a vida que tinha nos círculos sociais abastados de São Paulo. Na maturidade, Lina ajudaria a colorir sua experiência em Salvador e no Nordeste com narrativas heroicas, nas quais aparece, ao chegar à cidade, como uma agente de modernização cultural e depois, ao deixá-la em definitivo — em agosto de 1964, alguns meses depois do golpe militar —, como vítima de perseguição política. Até certo ponto adequada, essa versão épica, contudo, acabou por impedir que se entendesse e se apreciasse por completo os aspectos complexos, ambíguos e intrigantes de sua participação na vida social e cultural local, suas parcerias, as mudanças pessoais que sofreu e, não menos, suas lutas e seus dilemas.

Não era só Lina que estava redefinindo sua identidade pessoal e profissional entre o fim dos anos 1950 e o começo dos anos 1960; Salvador e a Bahia também se reorganizavam. No período em que viveu lá, o Nordeste inteiro lutava contra uma estagnação econômica crônica, e a região seguiria sendo uma referência simbólica e geográfica vital para ela pelo resto da vida. O estado da Bahia, como outros da costa nordestina do Brasil — e como o Sul da Itália de Lina —, ainda era majoritariamente rural e pobre. Até ali, a monocultura agrícola dominara a economia da região. O poder político se concentrava nas mãos de fazendeiros autoritários, tanto nas capitais quanto nos latifúndios do sertão. Nessa situação,mantinha-se ferozmente no comando um sistema político oligárquico e patriarcal de homens brancos, que sobrevive ainda no século XXI, trocando favorecimento —como Lina perceberia e tentaria evitar — por submissão e lealdade.

Nesse contexto arcaico, as imagens de pobreza e autenticidade da região passaram a servir de plataforma de lançamento de um programa nacional de socialização da cultura baseado em práticas e artefatos populares e da vida cotidiana. Em um misto de voluntarismo social e cultural e de ativismo político de base, seus promotores, artistas e intelectuais frequentemente simpáticos ou afiliados ao Partido Comunista Brasileiro, reivindicavam o papel de porta-vozes das massas despossuídas. Ao transformar a imagem do povo em protagonista da identidade nacional, entre os anos 1950 e 1960, eles criaram um desvio cultural em relação à norma, ao mesmo tempo que definiram as regras desse desvio cultural. A invenção de um Nordeste mitológico, popular, e a reinvenção da vida cultural da Bahia se apresentavam como cruzadas culturais diferentes do que Lina vira ao chegar ao Brasil; nelas, em vez de aspirações cosmopolitas, eram autonomia e ideias nacional-populares que ocupavam a linha de frente. Ao desenvolver uma grande afinidade com essas correntes culturais, ela encontrou uma tela para projetar sua ideia de que “um país cuja base é a cultura do povo é um país de grandes possibilidades”.

Em sua campanha por uma identidade nacional baseada nos imaginários populares, aqueles artistas e intelectuais brasileiros atribuíram a si mesmos o propósito de adotar uma estratégia política e crítica fervorosa (porque revolucionária) e idiossincrática (porque romântica). Seus esforços, que iam do ensino universitário à literatura e do teatro ao cinema, seriam neutralizados aos poucos, sobretudo depois do golpe de 1964 e durante o regime autoritário, entre os anos 1970 e meados dos anos 1980, período em que Lina entrou numa fase prolífica e produtiva como arquiteta de edifícios, mas também de desencanto profundo. Ainda assim, a luta por uma cultura nacional e popular deixaria uma marca consistente, significativa e duradoura em sua carreira. Sua experiência em Salvador reacendeu a energia de sua juventude na Itália, principalmente no fim da Segunda Guerra Mundial; dessa vez, porém, as vulnerabilidades de sua solidão foram ofuscadas pelo poder que a independência lhe dava. Achillina, que na primeira década que passou no Brasil lutara impulsivamente por suas crenças, embarcaria, tal qual seu homônimo Aquiles, de Homero, na jornada épica de tentar usar seus múltiplos talentos para realizar seu desejo de mudanças e encontrar, quiçá, um lugar no mundo.

Trecho de Lina Bo Bardi - O que eu queria era ter história, de Zeuler R. Lima (Companha das Letras).

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