Quando Lina Bo Bardi chegou a um terreiro de candomblé em Salvador

A arquiteta italiana realizou projetos de reestruturação no Centro Histórico e deu de presente o desenho do espaço de cerimônias à Casa Ilê Asé Oyá. Bardi ganhou traços de intimidade com a cultura e o artesanato baianos e virou referência na capital baiana

O artista plástico Alberto Pitta na entrada do terreiro Ilê Asé Oyá, em Salvador.
O artista plástico Alberto Pitta na entrada do terreiro Ilê Asé Oyá, em Salvador.Daniele Rodrigues
Salvador -

A Bahia tirou Lina Bo Bardi do eixo, como ela própria costumava dizer. Conhecida por obras como o MASP ou a Casa de Vidro, em São Paulo, a arquiteta italiana, que nasceu em Roma, em 1914, e faleceu em São Paulo, em 1992, recebe este ano (ainda não tem data) o Leão de Ouro da Bienal de Veneza pelo conjunto de seu trabalho. O que poucos sabem é que Bo Bardi também deixou marcas em Salvador, na Bahia, onde trabalhou nos anos cinquenta —quando remodelou o Solar do Unhão, que abriga o Museu de Arte Moderna (MAM-BA), dirigido por ela entre 1958 e 1963— e na década de 1980, quando realizou o projeto de reestruturação do Centro Histórico da cidade. Mas sua assinatura também aparece fora dos pontos turísticos da capital baiana, mais especificamente em Pirajá, um bairro do subúrbio: é ali que está o terreiro de candomblé Ilê Asé Oyá, cujo desenho do barracão de cerimônias foi um presente da arquiteta à ialorixá Mãe Santinha de Oyá, uma das mais importantes da Bahia.

“Tudo começou porque eu fazia a decoração da casa de Caetano Veloso, com tapetes, telas, cortinas e sofás e o arquiteto do imóvel era Marcelo Suzuky, parceiro de Lina. Aí Caetano contou que minha mãe estava querendo fazer o barracão, Marcelo veio visitar o terreiro e depois voltou com o projeto.” Quem conta é o artista plástico Alberto Pitta, um dos 10 filhos de Mãe Santinha, em frente à construção inspirada em uma moradia tradicional do Benin: paredes que formam uma circunferência ovalada cobertas por um teto de palha. “Minha mãe fez algumas observações, disse que um terreiro não poderia ser oval, que teria que ser mais quadrado e o teto teria que ser de outro material, para evitar incêndios. Então fizemos essas adaptações”, continua Pitta, que ressalta que Bo Bardi nunca teve, no entanto, relação religiosa com o local.

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Mãe Santinha, que faleceu em 2015 aos 90 anos e foi sucedida pela neta, Mãe Nívia Luz, fundou o terreiro no início dos anos oitenta, quando saiu do bairro central da Liberdade e descobriu um terreno privilegiado em meio à Mata Atlântica, na região da Bacia do Cobre e próximo às cachoeiras de São Bartolomeu. Ainda hoje, a estrutura do lugar se integra perfeitamente com a exuberância da natureza, que insiste em entrar pelos vãos dos corredores e pelas janelas e portas de vidro. “É um espaço que agrega muitos valores estéticos. Muita gente vem aqui visitar por conta disso”, conta Pitta.

Para além da estética, as obras de Lina Bo Bardi partiam do pressuposto de uma “arquitetura humanizada”, como mostram suas duas recentes biografias —Lina Bo Bardi: O que eu queria era ter história (Companhia das Letras), de Zeuler Lima, e Lina: uma biografia (Todavia), de Francesco Perrotta-Bosch. Nesse sentido, o terreiro Ilê Asé Oyá também é muito mais que uma coisa só. No mesmo terreno funciona a sede do Instituto Oyá de Arte e Educação, que educa e capacita crianças e jovens da comunidade de Pirajá com aulas escolares e oficinas de costura, serigrafia, estamparia e design de joias, entre outras. “Queremos que esses jovens entendam que a joia que lapidam é uma metáfora para a própria vida”, diz Pitta. O artista plástico diz que o instituto é uma continuação do trabalho social de Mãe Santinha. “Ela era bordadeira, mas sempre teve escola. Colocava para dentro de casa os filhos de ninguém, as crianças e adolescentes pobres da comunidade que não conseguia acesso nem à escola pública e ali os educava e alfabetizava”, explica.

O terreiro também é a sede do Cortejo Afro, bloco de carnaval criado por Pitta em 1998 —quando ele deixou o cargo de diretor do Olodum, após 11 anos. Em um ateliê dois níveis abaixo do barracão de Lina Bo Bardi, forrado por metros de tecidos de mil estampas, o artista desenha as fantasias de Carnaval e aplica as estampas em serigrafia sobre os panos. Ali também pinta as telas gigantescas que fazem parte do acervo de amigos como Gilberto Gil e Regina Casé. “É um privilégio poder trabalhar aqui”, afirma.

Outros projetos

Lina Bo Bardi chegou em Salvador em 1958, para dar três palestras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e logo foi convidada para assumir a direção do MAM-BA (que antes localizava-se no Teatro Castro Alves). Nesse período de grande efervescência cultural na Bahia, a italiana logo enturmou-se com o artista Mario Cravo Jr., o cineasta Glauber Rocha, Odorico Tavares e o diretor da Escola de Teatro da UFBA, Eros Martim Gonçalves. Ela viajou pelo interior do Estado e do Recôncavo baiano ao sertão, estudando festas populares e procissões e chegou a estudar a Guerra de Canudos, adquirindo uma bagagem que se vê refletida em seus projetos pela capital baiana, sempre em diálogo com a vanguarda e com a cultura popular.

O que ainda hoje tem maior destaque foi a restauração do Solar do Unhão, um antigo engenho colonial com vista para a Baía de Todos os Santos, que ela transformou na sede do MAM-BA em 1963 —que ela queria converter em um grande museu de arte popular, algo impensável para a sociedade conservadora da época e motivo pelo qual se demitira um ano depois. No casarão colonial, com grandes janelas que garantem ventilação natural, imperam os espaços vazios, tão característicos na obra de Bo Bardi, e a icônica escada de madeira cujos degraus são encaixados sem pregos ou parafusos: o que os sustenta são tarugos similares àqueles usados em carros de boi. Além de restaurar os prédios nobres do espaço (o casarão e a Capela Nossa Senhora da Conceição), a arquiteta também trabalhou nos galpões, que outrora fizeram vezes de senzala, e nos trapiches que sustentam o píer.

“Ali ela trabalhou com a bela sutileza de desocultar a memória, quer dizer, fazer um resgate da memória física, respeitando as camadas históricas dos edifícios e de tudo que aquele espaço abrigou”, comenta a arquiteta Ana Carolina Bierrenbach, especialista na obra da italiana.

De acordo com o também arquiteto Nivaldo Andrade, professor da UFBA, o MAM-BA é uma referência global de intervenção patrimônio histórico, tanto na restauração quanto na inovação. “A escada do local, por exemplo, tem uma forte relação com a cultura popular da Bahia e do Nordeste. O período no Estado foi fundamental para que ela abandonasse uma arquitetura mais universalista, como a do MASP e da Casa de Vidro, desse modernismo internacional”, comenta.

De fato, Zeuler Lima, um dos biógrafos da arquiteta diz que essa experiência na Bahia “lhe deu a oportunidade de renegociar suas identidades, tanto a cultural quanto a pessoal, além de afiar sua visão crítica do desenho industrial e seus compromissos intelectuais e políticos como arquiteta, sobretudo como arquiteta brasileira”. Tais compromissos ficam evidentes na década de 1980, quando Bo Bardi é convidada para elaborar, ao lado de João Filgueiras Limas (conhecido como Lelé), o Plano de Revitalização do Centro Histórico da cidade, começando pelo projeto-piloto da Ladeira da Misericórdia, que liga a prefeitura à cidade baixa de Salvador e que foi pensada para ocupação do centro da capital baiana, com um projeto de habitação e geração de renda. “As intervenções dela sempre têm uma dimensão estética potente, mas não são apenas isso. Havia toda uma preocupação de impacto na sociedade, de como a população poderia usufruir desses patrimônios”, explica Bierrenbach. Infelizmente, dos casarões reformados por Bo Bardi nessa região, apenas dois são ocupados como alojamento policial.

Na Ladeira da Misericórdia também está a Casa Coaty, concebido pela italiana como um restaurante, onde as fibras aparentes da folha de capim-palmeira viraram placas plissadas de argamassa em paredes erguidas ao redor de uma árvore, uma cobertura que filtra em tons verdes a entrada da luz. Vãos abertos em formas circulares ao redor da construção fazem as vezes de janelas com vistas para o Elevador Lacerda e a parte baixa de Salvador. Uma saída lateral, por uma escada, leva ao terraço voltado para o Forte de São Marcelo, no meio do mar, cujo formato circular inspirou Bo Bardi.

O restaurante Coaty, projetado por Lina Bo Bardi, em Salvador.
O restaurante Coaty, projetado por Lina Bo Bardi, em Salvador.Instituto Lina Bo e P. M. Bard

Já no Pelourinho, a italiana foi responsável pela reestruturação da Casa do Benin, centro cultural e museu de arte tradicional do país africano, onde sua famosa escada de concreto e o uso de pilotis em vez de colunas pesadas fazem os traços modernos dialogarem com a estrutura secular do casarão de três andares. “Na Bahia, Lina aguça seu olhar para a existência. Ela olha para o passado através do presente histórico e aproveita os elementos que ainda fazem sentido no agora”, comenta Bierrenbach.

Os traços da italiana também estão presentes na sede da Fundação Gregório de Mattos, onde ela abriu uma janela escancarada que representa a garganta do poeta satírico virada para a Praça Castro Alves e construiu uma arena sem palco fixo, um espaço vazado que se move de acordo com cada obra apresentada no edifício de curvas externas. Na Casa Olodum, hoje já descaracterizada, ela conservou as características externas do casarão do século XVII e apostou em um interior moderno, projetado em forma de pirâmide, com parte da cobertura de vidro, permitindo a entrada de luz natural. “Essas experiências foram transformadoras de sua obra. A Lina Bo Bardi que hoje é internacionalmente homenageada e reconhecida é essa Lina pós-Bahia, que trouxe esse tipo de singularidade em sua arquitetura”, afirma Nivaldo Andrade. A Lina Bo Bardi, a Bahia deu régua, compasso e liberdade criativa.

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