GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Os últimos dias sem lembranças de Gabriel García Márquez

Rodrigo García publica ‘Gabo y Mercedes: Una Despedida’, um livro sobre a morte do pai, o prêmio Nobel de Literatura, e da mãe, Mercedes Barcha

Mercedes Barcha Pardo e Gabriel García Márquez em Los Angeles, em 2008.
Mercedes Barcha Pardo e Gabriel García Márquez em Los Angeles, em 2008.Steve Pyke / Penguin Random House

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Quando Gabriel García Márquez escrevia Cem Anos de Solidão, nos anos sessenta, disse que um dos momentos mais difíceis aconteceu no dia em que datilografou a morte do memorável coronel Aureliano Buendía. Gabo saiu de seu estúdio na casa onde morava na Cidade do México, procurou sua esposa Mercedes em um quarto e anunciou desconsolado: “Matei o coronel”. “Ela sabia o que isso significava para ele e permaneceram juntos em silêncio com a triste notícia”, lembra seu filho, Rodrigo García, sobre o luto que seus pais viveram. Agora é ele, Rodrigo, que digita seu próprio luto com um novo livro para se despedir dos pais: Gabo y Mercedes: Una Despedida.

Este doce adeus, publicado neste mês pela Random House na Colômbia e na Espanha [ainda sem edição no Brasil], é a nova homenagem que Rodrigo, diretor de cinema, presta ao Nobel que morreu em 2014 e à mãe, Mercedes Barcha, que morreu em agosto do ano passado. “Meu pai reclamava que uma das coisas que mais odiava na morte era o fato de ser a única faceta de sua vida sobre a qual não poderia escrever”, anota Rodrigo, que mescla a narração dos últimos dias de seus pais com as mortes que Gabo escreveu. A de Simón Bolívar, por exemplo, em O General em seu Labirinto (“viu pela janela o diamante de Vênus no céu que ia embora para sempre”), ou o dia em que Úrsula Iguarán, a matriarca de Cem Anos de Solidão que “amanheceu morta na Quinta-feira Santa”, como Gabo morreu na Quinta-feira Santa de 2014.

Mercedes Barcha Pardo e Gabriel García Márquez em 12 de outubro de 1982, a manhã em que foi anunciado o prêmio Nobel.
Mercedes Barcha Pardo e Gabriel García Márquez em 12 de outubro de 1982, a manhã em que foi anunciado o prêmio Nobel. Rodrigo García Barcha / Penguin Random House

“Não tive de pensar muito para me lembrar dessas passagens”, disse Rodrigo García em uma entrevista coletiva virtual para promover o lançamento do livro. “A obsessão com a perda e com a morte é uma obsessão muito comum dos escritores, quase faz pensar que faz parte do DNA do escritor: a obsessão com a perda e com que as coisas acabam, e como o propósito da vida enquadra a experiência da vida. Então me lembrava perfeitamente de todas essas mortes de seus personagens principais”.

Nos últimos anos, Rodrigo García (Bogotá, 61 anos) se comprometeu a transformar alguns livros de seu pai em grandes produções de cinema: é o produtor executivo de Noticia de un Secuestro (produzida pela Amazon Prime e atualmente em rodagem na Colômbia) e da versão que a Netflix prepara de Cem Anos de Solidão (que ainda está em fase de pré-produção). Mas a família sempre foi muito cautelosa em não revelar suas intimidades, razão pela qual o livro de Rodrigo é uma pequena janela para a dor na casa de seus pais quando Gabo viveu seus últimos dias. “Não somos figuras públicas”, dizia-lhe a mãe, que cuidava que a intimidade do lar não aparecesse nos jornais. “Sei que não publicarei essas memórias enquanto ela puder lê-las”, admite agora o filho. Se seus pais pudessem lê-las agora, disse Rodrigo na coletiva de imprensa: “gostaria de pensar que eles ficariam felizes e orgulhosos, embora com certeza minha mãe me diria: ‘que fofoqueiros’”.

Gabo, no livro de Rodrigo, viveu durante seus últimos anos uma versão parecida com a interpretada por Anthony Hopkins em Meu Pai: um homem ansioso porque começa a perder a memória e se sente perdido entre os familiares. “Por que essa mulher está aqui dando ordens e administrando a casa se não é nada minha?”, reclamava Gabo quando não reconhecia a esposa, Mercedes. “Quem são essas pessoas na sala ao lado?”, perguntava a uma empregada doméstica quando não reconhecia Rodrigo e Gonzalo, seus dois filhos. “Esta não é minha casa. Quero ir para casa. Para a do meu pai”, pedia o escritor quando queria voltar, não para a casa do pai, mas para a do avô, um coronel que cuidou dele até os oito anos e que inspirou a figura do coronel Aureliano Buendía.

Mas os últimos dias de Gabo são também aqueles em que ele volta ao mais doce de sua infância em Aracataca, a pequena cidade colombiana onde nasceu em 1927. Gabo sabia recitar de cor poemas do Século de Ouro espanhol, mas quando perdeu essa capacidade, “ainda podia cantar suas canções favoritas”. Gabo passou seus últimos dias ouvindo vallenatos, a música da costa colombiana com a qual cresceu. “Mesmo nos últimos meses, sem se lembrar de nada, seus olhos se iluminavam de emoção com as notas de abertura de um clássico do acordeão”, escreve Rodrigo García. “Nos últimos dias, as enfermeiras começaram a tocar todos eles [os vallenatos] no volume máximo em seu quarto, com as janelas escancaradas”. As canções de Rafael Escalona inundaram a casa do México como canções de ninar para se despedir. “Elas me devolvem ao passado de sua vida como nada mais poderia fazer”, escreve o filho.

A fase final [do meu pai] já foi mais fácil”, esclarece na entrevista coletiva. “Há uma fase terrível em que a pessoa tem consciência de que está perdendo a memória, então, não só ver a pessoa sem suas faculdades, mas também muito ansiosa de perdê-las, é uma fase tremenda e muito difícil. A etapa final foi triste, mas mais tranquila. Nessa fase final ele estava calmo, não sofria de ansiedade, estava muito distraído, não se lembrava de muitas coisas, mas estava bem, estava tranquilo, e isso nos reconfortava”.

Mercedes Barcha Pardo e Gabriel García Márquez na Espanha, 1968.
Mercedes Barcha Pardo e Gabriel García Márquez na Espanha, 1968. Rodrigo García Barcha / Penguin Random House

Embora os últimos dias de Gabo sejam os que mais ocupam as páginas deste livro, o último capítulo é dedicado à morte de Mercedes, chamada “la Gaba”, apelido que Rodrigo García acertadamente chama de “patriarcal”. “Mas, apesar disso, todos que a conheciam sabiam que ela havia se tornado uma magnífica versão de si mesma”, escreve o filho. Rodrigo a descreve como “uma mulher de seu tempo”: sem estudos universitários, mãe, esposa, dona de casa. Mas ao mesmo tempo aquela que dirigiu o sucesso de seu pai e aquela que provocava inveja por “sua consciência de si mesma”. Em uma das melhores cenas do livro, Rodrigo e Gonzalo se contorcem em suas cadeiras quando um presidente mexicano (cujo nome eles não mencionam, mas com as datas é claro que se trata de Enrique Peña Nieto), se refere à família como “os filhos e a viúva”. Mercedes então “ameaça contar ao primeiro jornalista que cruzar que planeja se casar o mais rápido possível. Suas últimas palavras a esse respeito foram: ‘não sou viúva. Eu sou eu’”, escreve Rodrigo.

Mercedes Barcha morreu em 2020, no meio da pandemia, sem todas as câmeras e seguidores que choraram a morte de Gabo. Mas como o marido, ela teria exigido de seus filhos que, se fossem escrever sobre sua morte, o fizessem tão bem que deixassem todos os leitores em um luto profundo. Nos dias posteriores à morte dela, Rodrigo conta que esperava constantemente uma ligação dela. Uma ligação em que Mercedes perguntaria: “Então, como foi minha morte? Não, calma. Sente-se. Conte-o bem, sem pressa’”.

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