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“Havia um cheiro doce de barata que incensava nossa vida”

Leias os trechos iniciais de ‘Os tais caquinhos’, de Natércia Pontes, publicado pela editora Companhia das Letras. Um romance sobre uma família, um apartamento caótico e as descobertas da adolescência

Natércia Pontes
Companhia das Letras

Jorro de cera

Daí que estavam Neca e Clau debruçadas sobre meu corpinho encolhido naquele apartamento limpo e ventilado. Cada uma munida de uma pequena haste azul com pontas de algodão. Neca se incumbiu da orelha direita. Clau, da esquerda. As duas trocaram olhares cúmplices, engoliram em seco e começaram a faxina. Cotonetes e mais cotonetes zarparam das mãozinhas ágeis em direção ao cesto de lixo. Compenetradas, faziam caras e bocas, inflamando as expressões, dilatando as narinas e esbu­galhando os olhos com fascínio e repugnância. Todas as pontas carregadas de uma matéria marrom. (Não digo a palavra “cera” porque acredito que sua definição vai além: cera, cera velha e o indizível, o incompreensível.) Neca e Clau desprezavam mi­nha presença e comentavam entre si o alto grau de imundice dos meus ouvidos. Exclamavam chocadas: “Mas não é possível! Não acaba nunca!” e exibiam exultantes as pontas dos cotone­tes encharcadas de uma pasta escura e gordurosa. Constrangida, eu me encolhia no banquinho que me foi cedido para ficar quieta e morrer de vergonha por nunca ter usado um cotonete na vida. Surda, surda, como uma tampa do pote de margarina, embora lá longe ouvisse o mar encrespar. Noutra vez, uma bola de cerume rolou orelha afora. Eu comia um folhado de frango, acompanhada da Juniana. Passávamos o recreio no gi­násio de esportes, lá em cima, entediadas e sentadinhas no úl­timo banco da arquibancada. Foi aí que Juniana, como se tives­se visto um inimigo, berrou, franzindo a imensa testa e apontando para minha orelha: “Tem um bicho aí!”. Meti o dedo no ouvido. Inspecionei a cavidade e percebi que o objeto em questão tinha pelos. Não era um bicho. Era cera. Uma maçaro­ca esférica e peluda de cera. Ao tocar o corpo estranho fui mui­to rápida em meu julgamento. Fingi ser um inseto delirante. “Ai, que nojo, Juniana! Eca!” Corri para o banheiro. Fechei a porta da cabine. Contei até trinta. Dei descarga e, com a pálpe­bra tremendo, voltei para a aula depois de ouvir o sinal tocar.

402, recanto dos tacos soltos

Meu apartamento não era ventilado e limpo como o de Neca. Nem asséptico e com cheiro de lavanda como a cabine do banheiro do colégio. Naquele lar as baratas não sofriam acua­das. Mesmo que, num mau dia, uma ou outra fosse esmagada pela ira existencial dos inquilinos (minha família), podia­se muito bem considerar nossa casa um local seguro para esses dóceis insetos de patinhas serrilhadas. Os insetos adoravam dormitar nas xícaras, explorar os recônditos dos nossos tênis, mergulhar no resto de água do garrafão, palmilhar nossas es­covas de dentes. Havia um cheiro doce de barata que incen­sava nossa vida. Havia um consenso íntimo também. Eu fazia vista grossa à infestação dos insetos e, em troca, esperava que houvesse o mínimo de respeito da parte deles. O de não subir em meu rosto enquanto eu dormia, por exemplo. Na maior parte do tempo as baratas cumpriam nosso acordo tácito e permitiam que a vida fosse mais suportável. Muitas vezes eu esquecia delas e dormia enrolada no lençol fino e cheirando a sebo. Mas cedo ou tarde encontrava uma patinha solta na gaveta de talheres ensebados da cozinha, e a vida voltava a ser indecifrável, como o nosso apartamento escuro, onde a luz não batia na sala. Até porque não havia sala. Havia um depó­sito de caixas de papelão entulhadas de livros que esfarelavam com o tempo. Algumas das caixas tiveram que ocupar a va­randa por falta de espaço. Então chovia, e as caixas ficavam encharcadas e depois secavam com o vento e o sol. Passados uns anos, elas viraram um monturo de mofo e de ninho de cupim. A ideia de abrir a porta de vidro com esquadrias enfer­rujadas era tão apavorante que decidimos não a abrir nunca mais.

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E foi assim. Sobramos nós: eu, Berta e Lúcio e as baratas. Mas Lúcio gostava da rua e nela ficava o tempo que fosse possível. Ficava até o galo cantar e o sol subir. Quando voltava, rodava a chave com cuidado, verificava a mangueira do gás e fechava as janelas de correr deixando uma fresta. O vento assobiava mortiço, ninando nossa insônia adolescente. Na hora de ir para o colégio, Berta e eu catávamos nossos uniformes embo­lados no monte de roupa suja que jazia na área de serviço. Os caminhos intrincados das rachaduras nos azulejos da área de serviço. Os azulejos amarelos da área de serviço. De onde avistávamos a vizinhança através dos buracos dos cobogós, o quintal úmido da casa grande, lavado com fortes jatos de man­gueira pela empregada magra. A outra casa sem muros, em cujas paredes cresciam unhas­-de­-gato lenhosas. E o condomí­nio grã­-fino, cuspindo varandas helicoidais, recheadas de sa­mambaias. Lá fora tudo parecia estar em ordem. Lá dentro a louça era desencontrada, assim como os trapos de cama e de banho. Lá dentro os quadros estavam sempre por ser pendu­rados e as panelas exibiam depressões, nódoas pretas, tampas avulsas e cabos soltos. Havia uma camada de gordura na su­perfície dos poucos móveis de que dispúnhamos. E a ausência de sofá me envergonhava fundo. Lembro de abrir a geladeira e sentir um vapor frio e sulfuroso. Algum iogurte estragado. Uma bandeja de presunto — as bordas das fatias se enrosca­vam e enegreciam, manchas brancas de fungo tomavam a carne rósea e cresciam como espumas, pequenos conglome­rados de algodão. Isso quando havia comida. Na maior parte do tempo não tínhamos nada para comer, então Berta e eu precisávamos pedir ovos para as vizinhas. Chegávamos do co­légio cansadas, telefonávamos para Lúcio e pedíamos almoço. A gente tá com fome, pai. Ele suspirava e nos enviava um táxi. Seguíamos mudas e famintas no banco de trás, o moto­rista calado, o rádio da central abafado e ininterrupto, as ilhas tristes das avenidas ensolaradas correndo pela janela. Por fim aportávamos em nosso destino: um restaurante refrigerado, povoado de mesas redondas cobertas com toalhas de sarja branca. Espiávamos pelos cantos e encontrávamos Lúcio sen­tado lá no fundo, de cabeça baixa, concentrado e escrevendo em seu caderno de notas. Ao seu lado, uma tulipa de chope suada e pela metade, um prato vazio que abrigara havia pou­co uma porção de rodelas de linguiça. Ele levantava seus olhos de gato sobre a borda da tulipa e perguntava o que queríamos. Com as mãos grandes deslizava em nossa direção o cardápio com capa de couro e dizia: escolham. Eu sempre pedia o ca­marão gratinado no abacaxi. Berta, mais sóbria, ficava com o filé à Osvaldo Aranha. Uma jarra de água de coco para beber. E, de sobremesa, por unanimidade, duas mousses de chocola­te moles e aeradas. Geralmente esses almoços eram regados a silêncio. Algumas poucas vezes eu o interrompia com uma historieta ou outra relacionada ao colégio. Mas, a despeito dos buracos negros e da temperatura baixa do ambiente — nossas pernocas frias, os pelinhos eriçados dos braços —, havia uma ligação forte que nos unia, um sentimento bruto de família, uma cumplicidade gelatinosa que nos protegia como uma pla­centa. Estávamos juntos. Éramos juntos. Os olhos de gato nos vigiando, perscrutando nossos caminhos íntimos, adivinhando nossos próximos passos. E no mesmo táxi voltávamos para casa arrotando mousse. Essa era a única refeição do dia. A não ser que pedíssemos ovos às vizinhas.

Os ovos

As tardes eram longas e mornas. Muitas vezes a gente dormia. A TV ligada, o ventilador no rosto, as hélices imundas. Já era quase noite e Berta e eu acordávamos com a garganta seca e de mau humor. A gente bebia a água do filtro, que tinha gosto de ferrugem. Minha moleza era tanta que Berta saía e eu ficava deitada, com as canelas contra a parede. As solas sujas dos meus pés deixando marcas. Pequenos esses cinza. Os pôsteres das pin­turas do Salvador Dalí entre elas. Um gafanhoto imenso. Um relógio derretido. Um elefante de pernas enormes e finas. For­migas, formigas, uma horda de formigas. Eu podia acompanhá­­-las mesmo estáticas na pintura. Ficava assim por muito tempo A TV ligada. As pernas para cima até os pés ficarem dormentes e azuis. O telefone me despertava do transe. O telefone que ficava na cozinha e cujo bocal tinha cheiro doce de barata. Era uma das vizinhas oferecendo ovos. E eu sempre dizia sim. O telefone ficava na cozinha, já que não havia mesmo sala. O que havia era o acesso interditado da porta de entrada (as chaves no intrigante bolso de Lúcio) e, na boca do corredor, uma bar­ragem de grades, impossibilitando nossa passagem. As “grades” eram estantes de ferro vazadas que serviam como muro trans­parente. Do corredor, podíamos vislumbrar a montanha de li­vros, resmas, apostilas, potes de lápis sem ponta, canetas com tinta ressecada, furadores de papel, grampeadores, caixas de clipes abarrotadas de cartuchos enferrujados, caixas de sapatos repletas de objetos, compassos, réguas de diversos tamanhos e cores, tesouras preservadas em suas embalagens e uma fina camada de poeira e maresia cobrindo tudo de cinza.

Trincheira de lençóis roídos

Lembro da primeira vez que senti ira. Odiei com fúria todos aqueles objetos quando entendi o que eles diziam. Planejei uma destruição aos chutes. Planejei unhar e balançar as grades e sujar minhas mãos como uma prisioneira. Planejei jogar baldes de água e sabão nos livros e nos papéis e em todos aqueles objetos imundos. Planejei abrir a porta de vidro em­baçado da varanda e jogar as caixas de livros quatro andares abaixo. No meu quarto escuro, vivi toda a cena e chorei uma lágrima grossa e salgada. Fiquei quieta. Lúcio chegou cansado, rodando devagar a chave na fechadura. Conferiu a manguei­ra do gás na cozinha, alcançou o corredor e iniciou o ritual de fechar as janelas deixando somente uma fresta. Entrou em meu quarto escuro e viu uma maçaroca encolhida sob o lençol fino: eu fingia dormir e esquentava meu corpo com raiva. Suava sob o lençol, e minhas lágrimas e meus hormônios se misturavam num caldo grosso. E assim eu adormecia fundo. Lúcio deixava meu quarto e seguia em direção ao dele. Con­feria os dois interruptores do corredor repetidas vezes. As lu­zes piscavam intermitentes, e os cliques invadiam meu sonho e se misturavam com meu mergulho, minha tormenta. Lúcio chegava ao pé da cama repleta de livros e pastas grossas e folhas plásticas e caixas vazias e palmilhas e cartões­ postais e contas e cadarços sem par e agendas e convites e retratos e rolos de papel ­jornal e calçadeiras de sapato e calendários e lembrancinhas de festa de aniversário. Tudo arrumado de uma maneira tortuosa, à deriva, embora seguisse uma linha quase harmônica, um caminho de formiga. Sobrava um pequeno espaço para Lúcio dormir. Em minha tormenta abafada, so­nhei com minúsculas garras de duende avançando por debai­xo da cama. Seus dedos finos e nodosos, afiados com pequenas unhas negras, tentavam me caçar. Eu me encolhia no canto do colchão, encostada na parede fria. Das bolhas que cresciam no lençol, e que eu explodia com tapas nervosos, brotavam borboletas de pelúcia branca. Aranhas delicadas de aço esca­lavam a parede e se misturavam nos desertos e nas falésias do Salvador Dalí. O espírito de Rona cruzava as pernas ao meu lado, soprando baforadas gordas de fumaça e entabulando uma conversa na outra em línguas guturais e incompreensí­veis e nunca cedendo a uma pausa para que eu interviesse, para que eu pudesse expor meu ponto de vista. Rona era uma amiga mais velha que jamais olhava nos olhos. Um dia deu pra dizer que via um espírito acompanhando a gente (eu, Ber­ta e Lúcio). Um espírito que cheirava a enxofre, vestia preto e provavelmente escapulira do casting de uma novela das sete. Rona estava certa; um sopro pesado suspirava uma nota grave de longa sustentação. Nossa casa era ruim.

Trecho do romance Os tais caquinhos, de Natércia Pontes, publicado pela editora Companhia das Letras.

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