Tom Zé: “A música brasileira de hoje é digna do tropicalismo”

Confinado no apartamento em São Paulo, “o último tropicalista” trabalha em composições para musical e disco sobre a língua brasileira, enquanto revisita memórias de sua juventude no sertão

São Paulo -
Tom Zé, em sua casa, em São Paulo, em abril de 2021.
Tom Zé, em sua casa, em São Paulo, em abril de 2021.Lela Beltrão

— Tom Zé! Tom Zé! Tom Zéeeee!

É preciso que Neusa, sua mulher e empresária, chame cinco vezes para que ele finalmente se ponha ao telefone. Tom Zé (Irará, 84 anos) estava fazendo anotações. Desde março do ano passado, quando estourou a pandemia de covid-19 no Brasil, o cantor e compositor tem trabalhado muito. Ele, que espera tomar a segunda dose da vacina nos próximos dias, dorme cedo, por volta das nove da noite —um pouco mais tarde quando tem futebol— e acorda às três da manhã. Às quatro, já começa seu processo criativo, que concilia com o cuidado das plantas de seu apartamento em Perdizes (São Paulo), um hobby de muitos anos. O próximo disco, que nasce de um musical no qual trabalha com o dramaturgo Felipe Hirsch, será um estudo sobre a língua brasileira.

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— À medida que a pandemia ia atrasando as datas do musical, ele [Hirsch] me ligava e dizia “Tom Zé, vamos aproveitar e compor mais músicas, vamos fazer o musical ficar mais musical”. Como sou lento para fazer música, aproveitei. Já fiz mais de 50. Eu sou cumpridor de dever, ri Tom Zé.

E seu dever inclui a pesquisa meticulosa dos entraves históricos, políticos e culturais da língua, em uma viagem que vai do cancioneiro celta até os pormenores da dinastia Carolíngia. Todo o conhecimento que ele despeja em quase duas horas de conversa com o EL PAÍS.

— Tudo isso nasceu do verso “última flor do Lácio, inculta e bela”, de Olavo Bilac. A última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. Na Idade Média, Roma invadiu tudo quanto é lugar na Europa e tudo ficou gótico romano. Mas a canção brasileira vem do gótico árabe. Primeiro, ela vem do chantalon, que é a música religiosa da civilização celta e que alcançava os graus mais altos da nobreza. Depois, ela foi influenciada pelos cancionistas árabes, no século VIII.

Tom Zé defende fervorosamente a tese de que a tropicália nasceu justamente dessa tradição moçárabe (dos cristãos hispanos que viviam em território conquistado pelos muçulmanos), que ele também vê refletida em várias passagens de sua infância e juventude no sertão baiano. Não à toa, é O último tropicalista, título de sua biografia, escrita pelo jornalista italiano e pesquisador de música brasileira Pietro Scaramuzzo e lançada pelo Sesc em fevereiro. Ao longo de quase um ano, ambos conversaram semanalmente por telefone e chamadas em vídeo para repassar memórias e inspirações do artista brasileiro. E isso que Tom Zé diz mal saber ligar um celular direito.

Tom Zé, em sua casa, em São Paulo, em abril de 2021.
Tom Zé, em sua casa, em São Paulo, em abril de 2021.Lela Beltrão

—A loja do meu pai, em Irará, foi minha primeira educação, porque o freguês era o homem da roça. Até os oito anos, eu fui educado sem Aristóteles e apenas com a visão de mundo moçárabe, que é a que circula lá, através das danças e das festas populares, lembra ele, referindo-se a tradições culturais como a chegança e o bumba meu boi. —Eu aprendia com o que eu via. Sou mesmo um nordestino muito nordestino, ri.

O artista, que cresceu entre a loja do pai e os almoços com “muitos tios comunistas”, só descobriu Aristóteles aos 8 anos, na escola primária, e esse encontro foi definitivo para que outros —principalmente com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e os demais tropicalistas— fossem frutíferos. Depois de viajar 163 quilômetros na boleia de um caminhão até a escola, em Salvador, o Toinzé, como era conhecido em Irará, não era mais o mesmo quando voltou para a pequena cidade.

— Tinha um estranhamento quando o professor abria a boca, porque eu entendia o que ele falava, mas, lá em casa, o raciocínio era diferente. Lembro que fiquei três dias sentado numa escada lá de casa que dava para uma mata pré-cabralina, digamos assim, e de costas para a cidade, onde estava essa civilização que eu fui ver no primeiro dia de curso primário, e pensando: mas será que o mundo será assim? Era só Aristóteles, Aristóteles, Aristóteles. Eu defendo a tese de que Caetano e Gil pegaram essas reflexões, que foram um tiro no hipotálamo, para construir no Brasil a tradição de uma arte mais forte.

Para ele, gênios são apenas Gil e Caetano. Ele próprio não se vê sequer como um intelectual.

—Eu sou uma pessoa simples, talvez inteligente. Eu trabalho, faço música, mas o que eu vi esses homens fazerem, minha filha, é de outro mundo. Eles não são mole! Espero até que minha capacidade possa dar crédito a essa afirmação.

A admiração é tamanha que Tom Zé não se ressente do fato de, no auge do tropicalismo, ter feito menos sucesso comercial que os colegas. Ironicamente, o último tropicalista alcançou maior êxito quando David Byrne, líder dos Talking Heads, descobriu sua música na Bahia, em 1989, e levou-a para o mundo.

—Nós convivíamos, principalmente no apartamento de Caetano, no centro de São Paulo. Eu escrevia de noite e eles só acordavam à uma da tarde, eu levantava cedo e escrevia um pouco mais, a gente sempre trocava música.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com 2001, de autoria de Tom Zé, com o título original de Astronauta libertário, mas rejeitada por ele, que passou para Rita Lee:

— Aí Rita fez aquela coisa sensacional. Ela fez com essa música o que Kubrick fez com 2001 - Uma odisseia no espaço. Virou praticamente uma música caipira europeia.

Para quem vivia driblando a censura da ditadura militar brasileira, Tom Zé ainda se surpreende com o tipo de autoritarismo que vê no Brasil de hoje que, segundo ele, é diferente daquele de então, mas ainda mais aguçado pela internet.

—Na época do impeachment de Dilma [Rousseff], fiz umas músicas contra Michel Temer e, um dia, Neusa entrou no computador e tinha mais de 3.000 mensagens me ameaçando. Ela ficou tremendo de medo das coisas inacreditáveis que me diziam e pediu para eu parar de escrever aquilo, porque não queria perder o marido. Isso funciona como censura.

Um tipo de censura que não impediu, em 1973, o lançamento do disco Todos os olhos, cuja capa traz uma bola de gude no centro de um orifício que parece ser um ânus, mas que, na verdade, é uma boca de mulher.

—Décio Moraes, publicitário, realmente teve a ideia de colocar um ânus feminino, e a namorada de um sócio dele topou fazer a foto. Mas foi tanta dificuldade em chegar no ângulo certo para a imagem que decidiram colocar lábios ao redor da bola. Fez tanto sucesso que as lojas expuseram na vitrine. Às vezes, a gente colocava uma roupa diferente para não ser reconhecido e brincava: “Vou ali ver um cu na Praça da República”, gargalha.

Longe de ser um saudosista, Tom Zé vê a mesma irreverência, talento e inovação na música brasileira contemporânea. Não à toa, ele colaborou nos últimos anos com nomes como Emicida, Mallu Magalhães e a banda O Terno, para citar apenas alguns.

A música brasileira de hoje me dá orgulho, é digna do tropicalismo. Essa geração sabe pegar qualquer referência, chegar a qualquer informação de qualquer lugar do mundo. Ouvem coisas de Londres, dos Estados Unidos, absorvem essas referências e as transformam em coisas tão autênticas que depois esses mesmos estadunidenses e londrinos compram o trabalho deles. É inacreditável. I-na-cre-di-tá-vel! O Brasil sempre foi assim em música.

Primórdios

Se hoje o Brasil tem Tom Zé, há de agradecer a um tal de Renato Portela, um verdadeiro Platão de Irará, que meteu na sua cabeça, desde os 10 anos, ideias metafóricas e, aos 17, lhe apresentou o violão.

—No dia que ele tocou o violão na minha frente na praça da cidade, eu tive um insight, perdi a consciência. Fiquei encantado! Não à toa virei um estudante fanático por contraponto. Nesse dia, decidi estudar violão e comecei a fazer música.

O contraponto —nota contra nota, que, em movimento contrário, é considerado perfeição— é uma das paixões de sua vida. Descobri-lo despertou-lhe o mesmo assombro e encantamento de quando viu uma lâmpada se acender diante de seus olhos pela primeira vez, em 1950. E na Faculdade de Música da Universidade Federal da Bahia, aperfeiçoou durante cinco anos esse amor. Foi ali também que conheceu Moraes Moreira, de quem foi professor de violão.

— Ele apareceu por lá com uma roupa de menino de interior. Eu disse que ele não ia conseguir pagar minhas aulas, que eu cobrava caro. Mas ele insistiu em aprender, porque era compositor. Pedi para ele cantar e, quando abriu a boca, decidi dar aula para ele de graça. Moraes aprendeu em dois meses, porque estudava tanto, que voltava para as aulas sabendo mais do que eu.

Tom Zé é falador. Mas talvez seja por esse ceticismo em relação ao próprio intelecto que prefere falar mais dos companheiros de música e tropicália do que do próprio trabalho. Mestre em sair pelas beiradas, recorre, mais uma vez, à cultura popular para evitar dar detalhes do que borbulha em sua cabeça e que será traduzido nas próximas canções:

—Na Bahia já se diz: mulher que fala muito, perde logo o seu amor. Parece que o segredo é parte da força para trabalhar.



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