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‘Druk - mais uma rodada’: Uma jornada gloriosa e alcoólica

Indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e melhor direção, é a afirmação de que continuaremos dançando enquanto a festa durar

O ator Mads Mikkelsen em uma cena 'Druk', indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.
O ator Mads Mikkelsen em uma cena 'Druk', indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

O álcool, essa substância efusiva, consoladora e perigosa protagoniza boa parte da trama de dois filmes excelentes, belos, duros, feitos tanto com inteligência como coração. Um deles, em formato documental, é produzido por Johnny Depp com amor e admiração transparentes pelo velho amigo que o protagoniza e o diretor, Julien Temple, um homem que entende muito de música e de vida. É intitulado Crock of Gold: A Few Rounds With Shane MacGowan e retrata a existência vulcânica e a incrível sobrevivência de Shane MacGowan, um cantor hipnótico e brilhante compositor, a alma de The Pogues, gente que associo aos últimos hinos que alguns de nós escutávamos e cantávamos nas noites de álcool e de drogas, pouco antes dos bares fecharem as portas, de que nos despedissem até o dia seguinte.

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MacGowan tem 60 e poucos anos (mas eu também poderia jurar que viveu trezentos), está prostrado em uma cadeira de rodas, sua voz está muito fraca e tem o rosto fustigado. Não perdeu a sinceridade nem o mau humor. Ele se sente amado pela mulher e por sua família. E a sua memória fala com uma linguagem singular, brutal, cáustica e terna, sem arrependimento, embora se tenha perdido tantas vezes no inferno, nas clínicas, no desmoronamento, na violência, no caos emocional, na defesa incondicional daquela Irlanda convulsionada que ele ama e da qual tem sido o menestrel, do punk, de Joyce, de Yeats, cheiros e sensações de infância. Continua bebendo (começou a se encharcar na infância), mas agora com uma certa tranquilidade, sem pressa e sem pausas. Os ácidos, o speed (cristal), a coca o cercaram até limites suicidas.

Fala da heroína como a rainha das drogas, conseguiu abandoná-la, mas garante que se alguém nestes tempos plácidos que vive lhe oferecesse uma seringa carregada, ele voltaria a usá-la. É selvagem, lírico, linguarudo, também secreto, é verdade. Fala de tudo que é humano e divino com Gerry Adams, o lendário líder do Sinn Fein, confessa que tentou fazer militância pelo IRA por meio de sua música, gostava demais de mulheres, apesar de seus dentes juvenis que eram um desastre provocador, lhe custa lembrar de uma época em que estivesse sóbrio. O diretor Julian Temple combina magistralmente seu testemunho corajoso com imagens de arquivo muito bem escolhidas e belos desenhos animados do ilustrador Ralph Steadman. Excede duas horas de filmagem. E me parece muito curto. Em nenhum momento me desligo do que vejo e ouço.

Meu deleite é prolongado pelo esplêndido filme dinamarquês Druk — mais uma rodada, dirigido por Thomas Vinterberg (autor do angustiante A Caça), que concorre ao Oscar como melhor filme em língua estrangeira e melhor direção. Quatro professores, que também são amigos íntimos, com a existência estagnada, ou solitária, ou resignada até a mediocridade, ao nada acontece, decidem trabalhar alguns dias nas aulas, na convivência familiar, entupidos do desinibidor álcool, recuperar a imaginação e alegria, alterar sua monotonia vital, conectar-se de verdade com os alunos, fazer o que nunca fizeram. Os dias do vinho e das rosas sempre acabam cobrando um preço, as ressacas podem tornar-se desesperadoras, suas famílias e seus chefes não estão preparados para semelhante disparate, o vitalismo alcoólico pode se transformar em amargura e depressão.

Tudo isso é contado com graça, com perplexidade, com sentimento, com humanismo crível. E tem um dos finais mais preciosos que vi em muito tempo, a afirmação de que continuaremos dançando enquanto a festa durar. Há química entre os atores e o inquietante Mads Mikkelsen também pode ser comovente. Hoje foi um dia perfeito, que diria o saudoso Lou Reed. Estar no cinema era um prazer.

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