O mais vergonhoso tapete vermelho do Globo de Ouro: “Encostei nos peitos de Scarlett Johansson!”

Na edição de 2006, um repórter televisivo tocou no seio da atriz enquanto a entrevistava e sem o seu consentimento. Quinze anos depois, revisamos um dos momentos mais embaraçosos da história da premiação

A atriz Scarlett Johansson chega para a cerimônia do Globo de Ouro em 2020.
A atriz Scarlett Johansson chega para a cerimônia do Globo de Ouro em 2020.MARIO ANZUONI (Reuters)
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(FILES) In this file photo taken on December 09, 2019 Golden Globe trophies are set by the stage ahead of the 77th Annual Golden Globe Awards nominations announcement at the Beverly Hilton hotel in Beverly Hills. - Hollywood's awards season kicks into high gear on February 28, 2021, with the Golden Globes, but the usual boozy party will be replaced with a pandemic-proof ceremony, hosted by comedians Tina Fey and Amy Poehler from New York and Beverly Hills. The ceremony will certainly be unusual, given that the stars cannot gather en masse for what is usually the party of the year, but that does not mean the potential for zany fun is completely lost. After all, if the A-listers cannot convene at the Beverly Hilton, they can always drink champagne at home before they appear at camera to accept their awards. (Photo by Robyn BECK / AFP)
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Como ela mesma confessaria depois, se preparou durante horas para aquele momento. Não era para menos. Com apenas 21 anos, a aparição no tapete vermelho do Globo de Ouro de 2006 de Scarlett Johansson significava algo parecido a uma cerimônia de formatura como grande estrela de Hollywood, confirmando com sua indicação por Match Point - Ponto Final o impacto de seu papel revelação em Encontros e desencontros. Para a ocasião escolheu um vestido vermelho de Valentino, decotado e adornado por franjas, que abraçava as curvas da jovem e potencializava a sensualidade glorificada no filme de Woody Allen. O look foi chamado por veículos de imprensa como a Bustle como “o definidor” de 2006 e suportou o passar do tempo até se transformar em uma imagem indelével da atriz que, entretanto, guarda uma péssima lembrança dela.

A premiação deste ano, em uma cerimônia semipresencial em razão da pandemia de coronavírus, ocorre neste domingo. E foi há 15 anos anos atrás que um repórter do canal de televisão norte-americano E! protagonizou um dos momentos mais embaraçosos da história dos prêmios. Na primeira entrevista dada por Scarlett Johansson em sua chegada ao tapete vermelho do Globo de Ouro, o estilista Isaac Mizrahi, na época com 44 anos e que trabalhava como comentarista especializado em moda, levou à máxima expressão o machismo enfrentado historicamente pelas atrizes, principalmente, antes da chegada de movimentos como o #MeToo.

Mizrahi, em dúvida sobre se a jovem usava sutiã, não ficou satisfeito com a resposta de Johansson —“está incorporado no vestido, é o estilo de Valentino”— e começou a apertar seu seio esquerdo sem nenhum consentimento. “O que está acontecendo?”, se pergunta a atriz olhando a câmera, tentando manter um sorriso de compostura diante do atrevimento. O entrevistador, que a aperta durante vários segundos, se desculpa dizendo que quer “tomar notas para o próximo vestido que irá desenhar”, e depois se orgulha, com um tom infantil e cantarolante, de “ter tocado nos peitos de Scarlett”.

Inserido no contexto e na sociedade da época, frouxa e tolerante com os comportamentos sexistas, o episódio passou praticamente despercebido. “Pode fazer isso porque é gay. Se os heterossexuais fazem isso damos uma bofetada, mas encorajamos os homossexuais a fazê-lo”, comentou entre risadas a jornalista Giuliana Rancic, colega de Mizrahi na cobertura televisiva daquela edição da premiação. Como frisaram anos depois veículos de imprensa como o The Hollywood Reporter, foi justamente a orientação sexual do estilista que o salvou do escárnio público: “A pergunta é, por que o fez? E, além disso, um estilista gay é menos culpado de assédio do que teria sido um homem heterossexual sem conhecimento algum de moda?”.

Johansson na premiação de 2006, quando sofreu o assédio.
Johansson na premiação de 2006, quando sofreu o assédio. AP

Johansson, que por fim não levou o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante (o prêmio foi para Rachel Weisz por O jardineiro fiel), levou vários anos para se pronunciar sobre isso, mas, quando o fez, condenou o comportamento do estilista. “Foi de muito mau gosto. Eu me preparei durante duas horas com a maquilagem, o cabeleireiro, me vestindo... e, na primeira entrevista que dou, alguém que nunca vi antes me toca para sua própria satisfação. Pensei, “Meu Deus, isso está passando ao vivo na televisão”, declarou ao Los Angeles Times. A atriz, que se transformou em uma das estrelas de Hollywood mais vocais na defesa do movimento feminista, liderando manifestações como a da Marcha das Mulheres, considera que Mizrahi pretendia “fazer um programa espetáculo” e que queria demonstrar seu lado “atrevido e picante” se excedendo com ela.

Mas Johansson não foi a única refém da atitude grosseira do estilista naquela noite. Ele também perguntou a outras presentes como Sandra Oh, Teri Hatcher, Keira Knightley e Jessica Alba se haviam colocado roupa íntima para ir ao evento e para Eva Longoria, indicada a melhor atriz pela série Desperate housewives, se havia “depilado suas partes íntimas”. “Estaríamos extraordinariamente irritados se ele o fizesse em nosso tapete vermelho”, disse John Pavlik, porta-voz da Academia de cinema norte-americano, ao ser questionado sobre o que ocorreria se os comentários de Mizrahi fossem no Oscar.

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Por sua parte, o estilista não só negou ter feito algo de errado —“deveria ter mais senso de humor”, alegou em referência à protagonista de Encontros e desencontros—, como teve o apoio de Ted Harbert, presidente da rede. “Queria alguém que fizesse perguntas de um modo diferente. Se não fosse gay teria falado pelo ponto para dizer-lhe que parasse com essa linha de entrevistas”, disse o executivo ao LA Times, novamente se respaldando na orientação sexual do protagonista do escândalo como salvo-conduto.

Com a intenção de erradicar de uma vez por toda esse tipo de perguntas, artistas como Reese Witherspoon e Lena Dunham colocaram em andamento em 2015 a hashtag #AskHerMore (#PergunteMaisaEla), pedindo aos jornalistas que perguntassem sobre algo mais do que os vestidos que usam e que se transformou em viral nas redes sociais. A própria Johansson, há anos cansada de ser interpelada pela enésima vez sobre sua dieta nutricional durante a apresentação à imprensa de um filme de Os Vingadores, se voltou ao seu colega Robert Downey Jr. e lhe perguntou: “Por que para você fazem a pergunta interessante e existencial e para mim sobre a comida do meu animal de estimação?”. 15 anos depois do vergonhoso episódio vivenciado por Scarlett Johansson, o sexismo no cinema continua estando mais vigente do que nunca.

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