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“Com Chávez, tudo mudou, mas nada realmente mudou na Venezuela”

A poupança dos tempos de bonança foi consumida na reta final do Governo pela desvalorização e pela escassez de produtos, relata jornalista no livro ‘Mãe Pátria’, da Companhia das Letras. Leia trecho

Mural com Chávez e Maduro em Caracas, em dezembro de 2020.
Mural com Chávez e Maduro em Caracas, em dezembro de 2020.FEDERICO PARRA / AFP

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Quando Chávez entrou em nossas vidas, na madrugada de 4 de fevereiro de 1992, morávamos na minha Maracaibo natal. Meus pais não eram de lá, mas suas vidas convergiram para esse lugar. Eu tinha dez anos e estava começando o ensino fundamental. Ouvi o barulho da grade do portão de casa, não estava amanhecendo ainda. Era meu pai, que tinha saído uma hora antes para fazer seu percurso de transporte escolar. Não era normal ele voltar antes das oito horas da manhã. Não tive tempo de lhe perguntar coisa nenhuma, porque ele foi direto ligar a televisão, que nessa época era a nossa conexão com o mundo.

Meus pais obtinham a maior parte de suas informações pela televisão. Eu pensava nos jornais impressos como coisa de gente culta e com dinheiro suficiente para comprar todo dia algo que jogaria fora algumas horas depois. Não era o nosso caso, pois nem éramos muito cultos nem tínhamos dinheiro.

Junto de meus dois irmãos mais velhos, ainda terminando de vestir o uniforme do colégio, vi imagens de um tanque tentando derrubar os portões do Palácio de Miraflores em Caracas, o presidente Carlos Andrés Pérez afirmando que a situação estava sob controle, contatos telefônicos dos repórteres com Valencia, Maracay e Maracaibo, a nossa Maracaibo, onde “os rebeldes” tinham tomado de assalto a residência do governador do estado que ficava a poucas quadras de casa. A rua estava em silêncio, como no domingo de um feriado prolongado.

No meio da manhã, a televisão mostrou a rendição do então desconhecido tenente‑coronel Hugo Chávez. Jovem, alto, com seu uniforme verde‑oliva coroado por uma boina vermelha, que depois se tornaria um ícone, “o comandante Chávez” apareceu diante das câmeras naquela confusa manhã de 4 de fevereiro com uma subversiva mensagem de rendição que bateu fundo. O golpe de Estado foi controlado pelo governo, mas o “por enquanto” de Chávez, durante anos analisado, transmitiu mais uma sensação de começo que de fim.

Para mim, o dia terminou apenas como mais um feriado. Jesús, meu irmão mais velho, permaneceu indiferente, ele não demonstrava empatia por nada que não trouxesse alguma consequência imediata e tangível para a sua vida. Já Andrés, meu segundo irmão, parecia entusiasmado, e até foi para a rua com tinta preta e escreveu numa parede vizinha um tímido “Viva Chávez”. O país vivia momentos difíceis, não só devido à dura crise econômica que se instalara como ressaca do boom petroleiro dos anos 1970, mas pela violência que tinha começado a despontar a partir do Caracazo, a revolta de 1989 que abalou o governo do recém‑eleito social‑democrata Carlos Andrés Pérez.

O ponto de honra que desencadeou essa revolta foi o aumento do preço da gasolina. Foi um erro de cálculo enorme, porque assim como os venezuelanos acham que a água de todas as praias é quente e de cor turquesa, também assumimos que se temos petróleo à vontade a gasolina tem que ser grátis.

Minha mãe abraçou a causa do tal Chávez, mas quando o Comandante morreu, em 2013, do seu ardor inicial não restava nada além de frustração. Tudo havia mudado, mas nada havia realmente mudado. Ela não tinha mais autonomia econômica, nem era mais rica que vinte anos antes. Na verdade, a poupança que conseguiu fazer durante a primeira década de Chávez, a dos tempos de bonança, foi consumida na reta final do governo dele pela desvalorização e pela escassez de produtos, o que a obrigava a comprar quase tudo no mercado paralelo.

Em 2013, minha mãe morava sozinha na mesma casa da minha infância, ou pelo menos no mesmo lugar, porque a casa já não era a mesma, nada era igual. Com o passar dos anos e o aumento da violência, minha mãe a transformara numa fortaleza de onde ninguém entrava e ninguém saía depois do pôr do sol.

A notícia da morte de Chávez não a afetou. Ela ouviu o boato que circulava de que o presidente tinha morrido antes, em Cuba, e seu séquito demorou a anunciar o fato para ganhar tempo. Conversávamos diariamente pelo telefone quando eu estava em Caracas cobrindo o enterro, e enquanto a ouvia criticar tudo o que antes defendia com veemência, observava os seguidores do Comandante manifestando sua simpatia das formas mais diversas; no mínimo, usando uma camiseta vermelha.

Passei muitas horas em Los Próceres, conversando com as pessoas que vinham de todos os lados do país para se despedir de Chávez. Estavam tristes, mas confiantes de que o legado do presidente permaneceria. O país tinha problemas, sim, mas não era culpa do presidente, era a oposição, a greve do petróleo, a sabotagem, a guerra econômica e, claro, o “império”, como chamávamos os Estados Unidos graças a Chávez, que ressuscitou um léxico nacionalista em seu afã de impor uma tendência.

O luto se misturava com a incerteza quanto ao futuro. Enquanto o povo chorava por Chávez, também tinha que assumir que a vida continuava e que era preciso escolher um novo presidente para substituir o líder morto, por mais que para eles o Comandante fosse insubstituível.

Ao contrário dos milhares de pessoas que me rodeavam em Los Próceres, minha mãe não estava sofrendo por causa da morte de Chávez. “Ladrões”, dizia a respeito de cada líder de esquerda que chegava a Caracas para trazer suas condolências. Nem o príncipe espanhol Felipe, que ela sempre elogiava, se salvou da sua ira.

O velório se estendeu tanto que a questionada posse de Nicolás Maduro como presidente interino passou quase despercebida. As pessoas continuavam fazendo fila para ver pela última vez o homem cujo rosto tínhamos nos acostumado a ver todo dia em intermináveis discursos televisivos. Em Los Próceres, nem todos concordavam com a decisão de Chávez sobre sua sucessão, mas a respeitavam. Já havia um clima de campanha, com camisetas e cartazes prometendo votos para o herdeiro político do Comandante.

Esse clima de campanha sempre foi característico do governo Chávez. Tínhamos eleições com muita frequência: nova Constituição, plebiscitos, mudanças constitucionais, mais plebiscitos, prefeitos, governadores, vereadores e, claro, nova eleição presidencial. Mal saíamos de uma votação, entrávamos no cronograma eleitoral de outra. Isso estimulava a tensão constante de protestos nas ruas, a favor e contra, porque, ao contrário do que ouvia com frequência no Brasil, existem protestos a favor, pelo menos na Venezuela. Chávez usava o nosso rosário de eleições como argumento para mostrar como seu governo era democrático.

Chávez ganhou quase todas as eleições de que participou. As primeiras, é preciso dizer, por sua popularidade arrasadora, mas pouco a pouco o uso do aparato estatal e a parcialidade do sistema eleitoral foram deixando em evidência um sistema de votação que, devido às pressões, era auditado em cada etapa. Os adversários de Chávez viviam cada votação em ritmo de “agora sim”, numa espécie de tudo ou nada no qual se decidia a sorte de um país. Mas ganhar parecia quase impossível, embora, pelo menos na primeira década da revolução, não parecesse provável uma fraude nas urnas, que eram auditadas manual e eletronicamente. A armadilha, de novo, estava na desigualdade da disputa. O impacto da lista “Tascón”, que deixou milhares desempregados, permaneceu na psique nacional, e muitos temiam que seu voto, que devia ser secreto, fosse revelado. Com um Estado nacionalizando tudo o que havia pela frente e se transformando quase que na única fonte de renda, isso era um risco que podia cobrar um preço muito alto. Mas o chavismo também perdeu algumas eleições, o que desmentia a tese de fraude eleitoral esboçada continuamente por alguns líderes opositores. O problema é que o governo não aceitava as derrotas. Quando Chávez perdeu o plebiscito para a reeleição indefinida, em 2007, reconheceu o resultado que favorecia a oposição qualificando‑o como “uma vitória de merda” e convocando outra eleição para votar o mesmo ponto. Quando seus candidatos a prefeito ou a governador perderam, como aconteceu em 2008, ele criou cargos paralelos para aniquilar administrativamente os governantes opositores eleitos. Quando a oposição conquistou em 2015 a maioria no Congresso, Maduro, o sucessor do Comandante, tentou dissolver o Legislativo com uma decisão judicial, mas ao enfrentar protestos multitudinários inventou uma Assembleia Nacional Constituinte para funcionar de forma paralela.

No final do dia, ir votar ou não era um debate adicional e estéril que drenava as energias de um país já esgotado.

Em Los Próceres, olhando aquela maré de fiéis em procissão, eu pensava nas palavras de Gabriel García Márquez, que, depois de um voo com Chávez entre Havana e Caracas após a eleição presidencial de 1998, escreveu “O enigma dos dois Chávez”. O colombiano termina esse texto dizendo que teve a sensação de ter conversado com dois homens opostos. “Um, a quem a sorte empedernida oferecia a oportunidade de salvar seu país. E o outro, um ilusionista que podia entrar para a história como mais um déspota.”

Eu não tinha dúvida de qual dos dois representava o que Chávez tinha sido em nossas vidas, mas vendo tantos milhares de pessoas num luto que se pintava de vermelho, e lendo as previsões econômicas para o futuro próximo, consequência da desastrosa administração revolucionária, parecia não só que a leitura imediata dessa parte da população era diferente da minha, mas que com Chávez se vivia melhor. Eles veriam na morte dele uma explicação para a miséria que se aproximava.

Paula Ramón é jornalista venezuelana e correspondente da AFP em São Paulo. Nasceu em Maracaibo, vivenciou três golpes de Estado antes dos 25 anos e deixou a Venezuela em 2010. É autora de ‘Mãe Pátria: a desintegração de uma família na Venezuela em colapso’, publicado pela Companhia das Letras.


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