Opinião
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Em que momento a Pixar esqueceu que seus filmes, às vezes, também são vistos por crianças?

Com ‘Soul’, o estúdio aposta em questões metafísicas, continua explorando o tema da morte e se divorcia definitivamente do público infantil

‘Soul’ estreou em 25 de dezembro.
‘Soul’ estreou em 25 de dezembro.Cortesía / EFE

Meus filhos de seis e dois anos passaram por uma recente fase de obsessão por A Noviça Rebelde. De maneira que eu achava estar em boa forma no departamento de perguntas difíceis. A primeira exibição completa das aventuras da família Von Trapp, rebatizada pelo menor como “as crianças que cantam”, me levou a enfrentar questões do tipo: o que é uma freira? O que é um nazista? Há crianças nazistas? A freira velhinha é a mãe da Maria? Freiras engravidam? O trabalho das freiras é cantar nos casamentos? Como o Capitão sabe que está se apaixonando?

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Mas até mesmo narrar as complexidades da Anschluss a uma criança do primeiro ano do primário é amplamente mais simples que abordar as questões geradas por Soul, o novo filme da Pixar, que estreou no dia de Natal na plataforma Disney+. Aí o interrogatório vai mais na seguinte linha: por que as almas querem ir para o céu? O que acontece quando a gente morre? Alma tem esqueleto? Essas e outras questões vão surgindo durante e sobretudo depois dos 107 minutos do filme e dariam para vários cursos de filosofia – ”A pessoa nasce ou se faz?” – e teologia.

Pelo menos, os adultos que estiverem em dia com as estreias da Pixar terão a musculatura bem trabalhada. Divertidamente abordava a depressão, Viva – A Vida É uma Festa tratava da perda e do luto, e com Soul entramos totalmente e sem anestesia no terreno da metafísica e do sentido da vida. De fato, há quem diga que desde o Up – Altas Aventuras, que estreou em 2009, o estúdio do qual se esperam os melhores filmes infantis andou ocupado com um só tema: a morte. Talvez a principal diferença entre esta última estreia e os longas anteriores é que Peter Docter já nem sequer pretende que seu principal público sejam as crianças.

Durante a década de 1990, numa época que ficou conhecida como o “Renascimento da Disney”, estabeleceu-se a fórmula canônica para o filme infantil de prestígio e grande orçamento, depois adotada com estilos diversos por outros estúdios, como DreamWorks e Illumination. Ele teria que ter pelo menos dois planos narrativos, um mais para infantil e outro para adultos, e estaria salpicada de brincadeiras e comentários que só os adultos poderiam desbloquear, como prêmios dados a eles a cada poucos minutos por estarem fazendo minimamente bem o seu trabalho como cuidadores. Assim, por exemplo, em Aladdin, quando tudo começa a balançar na cena do casamento, o Gênio diz: “Eu achava que a Terra só ia tremer na lua de mel”. Ou quando Buzz Lightyear conhece Jessie em Toy Story e, de repente, suas asas se abrem fora do seu controle, em uma nem tão sutil ereção metafórica para astronautas.

A fórmula foi subvertida no começo do século e, já nesta década, não é absolutamente exagerado dizer que os filmes da Pixar só são acessíveis em seu conjunto para cérebros adultos não distraídos – que ninguém tente ver Soul espiando o celular de vez em quando. Só de vez em quando os roteiristas recordam que se supõe que há crianças vendo e incluem alguma passagem puramente infantil. Há em Soul pouquíssimos momentos de puro pastelão – faz muito sucesso entre as crianças uma piada que dura apenas dois segundos: quando as almas comem pizza, e como são imateriais, a comida sai igual a como entrou. Como sempre, a escatologia triunfa nesse público-alvo – e a maioria dessas alusões está concentrada no segmento em que o protagonista, o músico Joe Gardner, e um gato trocam acidentalmente seus corpos. No portal The Ringer, vários redatores fizeram a experiência de ver o filme com seus filhos e contar como foi. A maioria também relata que “a parte em que o cara é um gato” fez mais sucesso nas suas casas, e que, numa escala de 1 a 10, seus pequenos captaram a mensagem do filme “tipo um 2”.

A vantagem é que o filme está em geral situado num plano tão afastado das habilidades de compreensão de uma criança que é difícil que lhes gere a angústia ou o medo que podiam resultar de alguns fragmentos de Viva e Divertidamente. Só as almas perdidas, que representam essas pessoas que “não puderam superar suas ansiedades e obsessões”, e a quase sádica reviravolta dos cinco minutos finais provocam angústia autêntica. Já os adultos encontram todo tipo de material cômico e trágico, das referências às grandes figuras da história, como Lincoln e Carl Jung, que fracassaram na hora de formar a futura personalidade da personagem 22, uma alma que se prepara com pouco sucesso no Grande Antes (uma espécie de limbo) para sua vida na Terra, aos acenos aos filmes de Powell e Pressburger. A versão original, além disso, oferece fantásticas interpretações de atores que não são habitualmente vistos no cinema, como Tina Fey e Richard Aoyade.

À medida que avançávamos no complicado argumento do filme, ficou claro que eu não ia encontrar o filme que imaginava, que era “o filme jazzístico da Pixar” ou “o primeiro filme da Pixar com um protagonista afro-americano”, aspectos que dominaram a divulgação publicitária. E embora eu tenha gostado muito da apresentação visual (os filmes da Pixar já não pretendem deslumbrar, como os primeiros de Walt Disney, e sim subjugar o espectador, para que se renda às infinitas possibilidades da animação), e até certo ponto do argumento, não pude deixar de sentir falta daquele filme, o que eu achava que veria e não vi, a história desse sujeito um pouco melancólico, Joe, de sua mãe que o ama e sofre por ele porque já teve que manter um marido músico de jazz com seu salário de costureira, o filme que faria algo central do conflito entre perseguir seu sonho de ser músico ou aceitar o trabalho seguro como professor na escola. É admirável, aliás, que Docter e Kemp Powers, codiretor e corroteirista que entrou no projeto entre outras coisas para dar credibilidade às questões afro-americanas, tenham resistido à tentação de criar uma trama amorosa para Joe, por exemplo, uma das muitas regras de roteiro que Soul deixa de lado.

Quando menina, eu já era uma espectadora obstinada e às vezes um pouco estupidamente ancorada ao realismo como forma narrativa. Quando via A Princesa Prometida, queria que, em meio a tanta fantasia, aparecesse mais “o Kevin Arnold” (Fred Savage), o menino doente que ouve a história. Minha parte preferida de Labirinto tinha a ver com o mundo real de Jennifer Connelly cuidando a contragosto do seu meio-irmão Toby, em parte porque Connelly me parecia muito bonito e fascinante, e também porque o universo escheriano, com David Bowie como Jareth, o rei dos Goblins, me apavorava. Voltei a me sentir assim, rasa e convencional, ao ver Soul, um pouco agoniada como o Grande Além o Grande Antes e desejando voltar a ver Dorothea, a displicente diva do jazz que chama Joe de “Teach”, e Connie, sua aluna mais talentosa, que precisa de apoio e confiança para continuar tocando trompete – personagens muito breves, mas muito bem definidos. Esse outro filme teria sido legal também, mas seria certamente muito pouco Pixar. E geraria perguntas um tanto mais fáceis de responder.

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