Séries

Como roubar 24 milhões de dólares do McDonald’s

‘McMillions’, a nova série documental da HBO, examina a maior fraude conhecida na rede de fast-food

Promoção da retomada do jogo Monopoly do McDonald's em Melbourne, na Austrália, em 2016. No vídeo, o trailer do documentário.
Promoção da retomada do jogo Monopoly do McDonald's em Melbourne, na Austrália, em 2016. No vídeo, o trailer do documentário.Scott Barbour / Getty

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McMillions começa com um post it na tela do computador do sujeito mais chato do escritório mais chato do FBI, o de Jacksonville, na Flórida. No bilhete se lê: “Fraude no Monopoly do McDonald’s?”. Bem, é o que lê um tal de Doug Matthews, o obstinado agente do FBI designado para esse escritório. Matthews é o principal protagonista de toda esta história de fraudes, operações secretas, máfia, negócios obscuros, chantagem e extorsão. É ele quem pede a seu colega que o deixe investigar isso que o outro ―que não participa do documentário― tinha escrito ali no post it depois de receber várias ligações alertando sobre essa possível fraude. Obviamente, não tinha nenhuma intenção de investigar. Isto é Jacksonville.

Em 1985, o McDonald’s contratou com a Simon Marketing, a mesma agência que lhes trouxe a ideia do cardápio infantil (Happy Meal), um jogo que servisse para aumentar as suas vendas. Criaram, então, um inspirado no Monopoly. Colados a copos de papel ou anúncios na imprensa, havia pequenos selos que correspondiam às casinhas do famoso jogo de tabuleiro e que podiam, por si só ou combinados com outros, conter prêmios que iam desde lanches gratuitos até um milhão de dólares (4,4 milhões de reais). Entre 1989 e 2001, um sujeito (e depois dois) conhecido como Uncle Jerry conseguiu fraudar até 24 milhões deste jogo (105,6 milhões de reais).

As primeiras suspeitas nascem no momento em que se revela que um número significativo de ganhadores tem conexão uns com os outros. Assim começa a investigação de Matthews, que é uma mistura de colega de trabalho supermotivado, ator frustrado e monitor de escoteiros. Você o ama ou o odeia. Com ele como um grande narrador e animador, o documentário encontra um relato mais cinematográfico do que fomos acostumados por produtos semelhantes. O ritmo é frenético, as guinadas do roteiro são constantes, e a perplexidade, ao contrário do que acontece em muitas passagens de Making A Murderer (Netflix) ou Wild Wild Country (Netflix) é mais hilária do que chocante. Aqui não há mortos. Bem, o que há de errado em embolsar alguns milhões de dólares de uma empresa que vale bilhões?

No meio do terceiro episódio, o hilariante começa a conviver com o inquietante. O que até o momento tinha sido uma sucessão de situações rocambolescas resolvidas da maneira menos intuitiva possível se torna algo mais sombrio. Até então, tínhamos visto Mathews enfronhar um terno dourado para conhecer o pessoal do McDonald's, a fim de informá-los que um monte de ganhadores do Monopoly, esse jogo que fez suas vendas aumentarem 40%, são parentes ou vizinhos. Vemos agentes do FBI fingindo ser equipes de televisão gravando os vencedores fraudulentos que contam sua história, e sem saberem a menos como segurar uma câmera. Então, quase de repente, descobrimos que Uncle Jerry (os dois) não é um trapaceiro comum, nem um Robin Hood. É um mafioso, e com os mafiosos é complicado rir até o fim.

Pode-se debater se a melhor ficção é aquela que lembra a realidade ou a que aposta exatamente no oposto: imaginar o inimaginável. Menos discutível parece ser afirmar que, no campo da não-ficção, a mais interessante é a que retrata uma realidade inimaginável. Neste particular, McMillions não tem quem a supere. Desde sua premissa até seus desdobramentos, passando por seus personagens principais e secundários, suas subtramas e até sua aposta estética, esta série documental de seis episódios, dirigida por James Lee Hernandez e Brian Lazarte para a HBO, contém os elementos mais celebrados do melhor cinema de suspense, da melhor ficção financeira, do melhor humor de costumes. Vendo McMillions, não se pensa no mundo real, mas no cinema dos Coen, no de Soderbergh ou em Argo. Imagine os personagens de Fargo estrelando o documentário sobre a Enron (Enron: Os Mais Espertos da Sala).

É organizado à base de imagens da época (final dos anos 90), anúncios antigos do McDonald's, gravações do FBI, recriações um tanto estabanadas de alguns dos eventos narrados e que não estão documentados e entrevistas atuais com alguns dos principais personagens. Tudo isso acaba formando um corpus estético que pode resultar em um princípio feio ou simplesmente inevitável, mas que possui força e coerência e até está em sintonia com algumas apostas audiovisuais realizadas nos últimos anos.

Matt Damon e Ben Affleck compraram os direitos da história por 1 milhão de dólares, como foi relatado no The Daily Beast em 2018 pelo jornalista Jeff Maysh. É muito provável que seja mais fácil acreditar no longa-metragem do que nesta série de documentário. O complicado será fazer o filme ficar pelo menos tão divertido como a série.

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