Gregório Duvivier: “O Cristo do Porta dos Fundos é o Cristo do amor”

Ator e humorista interpreta um Jesus gay em especial natalino na Netflix que desatou a ira de conservadores no Brasil

Fábio Porchat (esquerda) como Orlando e Gregório Duvivier como Jesus em imagem de divulgação do especial de Natal do Porta dos Fundos.
Fábio Porchat (esquerda) como Orlando e Gregório Duvivier como Jesus em imagem de divulgação do especial de Natal do Porta dos Fundos.Netflix/Divulgação

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Ninguém sabe o que Jesus Cristo fez durante os 40 dias que passou meditando no deserto. Os evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas relatam que ele foi tentado pelo diabo, mas sem grandes detalhes. Tudo o que se sabe é que “(...) foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”, conforme consta em Hebreus 4:15. Essa elipse temporal foi justamente uma das inspirações para o especial natalino que mais tem causado rebuliço —nas redes e na política—: A primeira tentação de Jesus, do Porta dos Fundos para a Netflix.

Na sátira humorística de 46 minutos, Jesus (Gregório Duvivier) volta do deserto para sua festa surpresa de 30 anos acompanhado de Orlando (Fábio Porchat), uma personagem extravagante que deixa implícito, em quase todos os momentos, que ele e o filho de Deus estão envolvidos romanticamente, chamando-o em um momento, inclusive, de “capricorniano travesso”. Foi o suficiente para atiçar a ira de cristãos, políticos e pastores. Um abaixo-assinado que pede o veto da produção (disponível no catálogo global da plataforma desde o dia 3 de dezembro), que é considerada “ofensiva à fé cristã", ultrapassou os dois milhões de assinaturas na última semana.

Um dos ofendidos mais ilustres é o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que criticou a obra nas redes sociais. “Somos a favor da liberdade de expressão, mas vale a pena atacar a fé de 86% da população? Fica a reflexão”, escreveu no Twitter, com uma imagem em que se pode ler que a “Netflix ataca cristãos”. O também deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano usou o mesmo canal para relembrar que já processou o Porta dos Fundos (a ação foi arquivada pela Justiça). “Cristãos e não cristãos me cobram atuação contra os irresponsáveis do Porta dos Fundos. Em anos anteriores já os processei, mas a ‘Justiça’ diz que é liberdade de expressão”, escreveu.

“Sempre enfrentamos essas críticas, mas este ano foi diferente, o que diz muito sobre a homofobia no nosso país. No especial natalino do ano passado, Jesus chegava a torturar pessoas e não causou um décimo do escândalo de agora, quando ele só é gay”, comenta ao EL PAÍS Gregório Duvivier. Se beber não ceie, o especial natalino do ano passado, retratava um Jesus sádico em sua última ceia e acaba de ganhar o Emmy Internacional como melhor comédia do ano. Ambas obras são assinadas por Porchat, a quem Duvivier descreve como o “roteirista bíblico” do Porta dos Fundos. “Talvez por ter estudado a vida inteira em escola católica”, acrescenta.

Diferente do Jesus de Porchat, o Cristo deste ano é bondoso, até ingênuo, e fica perdido quando seus pais, Maria e José fazem uma revelação bombástica: ele, na verdade, é filho de Deus e sua missão é pregar a palavra do Pai mundo afora. “A sexualidade de Jesus é o de menos. A ideia é mostrar um ser humano comum em dúvida sobre sua vocação”, diz Duvivier, que acredita que os setores conservadores “se sentiram mais empoderados no direito de impor suas opiniões sobre os demais” depois das eleições de 2018, que levaram ao poder o ultradireitista Jair Bolsonaro.

De fato, até mesmo para os que gostam de apontar o dedo acusatório e gritar “blasfêmia”, a sexualidade de Jesus é o de menos na narrativa, que retrata Maria e Deus como amantes ilícitos —e, sim, carnais—, José como um carpinteiro desajeitado que não consegue construir uma mesa e os Três Reis Magos como mentirosos que tentam passar presunto por “soja criada ao ar livre”. Outras transgressões incluem Maria fumando um baseado, Melchior contratando uma prostituta e Jesus em uma reunião alucinatória com Buda, Krishna, Jah e uma divindade alienígena dos cientólogos depois de tomar um “chá especial”.

Os indícios de uma possível relação entre Cristo e Orlando, o estereótipo ambulante de um homem gay afeminado, ficam subentendidos quando este último descreve como os dois se conheceram: “Eu estava tomando banho em um oásis e estava nu”, diz Orlando, quando Jesus tenta interrompê-lo:

—Aí eu fui pedir uma informação. Foi isso que aconteceu. Eu pedi uma informação e ele deu.

—Eu dei mesmo. Quando me pedem, eu dou.

Algumas das poucas vozes ausentes nas críticas à produção humorística são de membros da comunidade LGTB, já que —spoiler— Orlando revela-se como Lúcifer que disfarçou-se para seduzir Jesus e, assim, dominar o mundo. Aparentemente, é ok o diabo ser gay. Para alguns, quiçá seja até algo esperado.

Um especial cristão

Na terça-feira da semana passada, 17 de dezembro, a Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara aprovou o requerimento do deputado Julio Cesar (Republicanos-DF), que convida um representante da Netflix para prestar esclarecimentos sobre a obra do Porta dos Fundos. “Nós entendemos que uma obra de arte pode abordar diferentes aspectos a respeito desse período histórico sem fazer nenhum tipo de caricatura ou ofensa à imagem de Jesus. No entanto, este filme é uma verdadeira afronta aos mandamentos constitucionais. Constitui crime previsto no Código Penal e verdadeira afronta religiosa aos valores cristãos." O deputado tem como base o artigo 208 do Código Penal para caracterizar a produção como vilipêndio.

Uma porta-voz da Netflix declinou falar sobre tal convite, mas disse ao EL PAÍS que o “Porta dos Fundos sempre teve uma visão mais satírica e irreverente do humor, e a Netflix apoia a liberdade criativa dos artistas com os quais trabalha”. A porta-voz da empresa acrescenta que “a plataforma entende que nem todo mundo vai gostar de todos os produtos do catálogo da plataforma e, por isso mesmo, deixa o controle na mão do cliente”.

Duvivier concorda. “Se a obra fosse feita com dinheiro público ou se passasse na televisão aberta, o debate até teria algum lugar. Mas é uma produção em uma plataforma de streaming on demand, ou seja, a pessoa não apenas tem que pagar para assistir, mas também tem que clicar para ver o especial. Essas pessoas têm anseios tirânicos e autoritários ao querer legislar sobre o que os outros podem ver”, diz o intérprete do filho de Deus. Ele, aliás, rejeita a possibilidade de prestar explicações à Câmara, se convidado. “Mas Jesus iria. Eu iria como a personagem”.

Na última sexta, 20 de dezembro, o humorista viu seu nome ligado ao ataque hacker sofrido por procuradores da Lava Jato no início deste ano —o que inflou ainda mais a ira da direita que o critica. De acordo com um relatório da Polícia Federal, Duvivier sugeriu a um hacker “pegar” chefes do Grupo Globo e teria citado o nome de dois jornalistas da empresa ao trocar mensagens com Walter Delgatti Neto, preso desde julho por suspeita de envolvimento com a invasão dos celulares de autoridades. O humorista —que não foi imputado por nenhum crime pela PF no relatório— disse ao depor que jamais sugeriu a invasão do celular de ninguém. O advogado de Duvivier afirmou à Folha que ele disponibilizou espontaneamente “toda a troca de mensagens com o hacker” no intuito de cooperar com as investigações.

No fim das contas, o especial natalino confirma a vocação divina de Jesus, que aceita a missão de seu Pai. Para Duvivier, é “quase um conto de fadas cristão”. Ele, que se diz “cristão, apesar de ateu”, reconhece a importância social e histórica da figura de Jesus. “Ele foi um socialista, um ser humano admirável como pensador e influencer. O Cristo do Porta dos Fundos é esse do amor, do amor livre, que abraça prostituta, que cuida dos leprosos, que prega a distribuição igualitária de renda. Um Cristo que nunca se preocupou em calar ou censurar os hereges. Ele só pregou a favor dos renegados, desses que foram renegados posteriormente pela Igreja em nome dele”.

Perguntado sobre a decisão da promotora Barbara Salomão Spier, do Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro, que solicitou “a imediata suspensão da exibição do programa” e uma multa de dois milhões de reais, montante que corresponde, segundo os autores da petição, a dois centavos por brasileiro que professa a fé católica (um total de 123 milhões, de acordo com o IBGE), Duvivier ri. “É maravilhoso! Uma piada pronta! Por que cada católico só vale dois centavos? Quanto vale um evangélico, então? Mostra que a questão é mais mercadológica do que religiosa”.

Em seu despacho, Spier afirma que “o que é sagrado para um, pode não ser sagrado para o outro, e o respeito deve, portanto, imperar” e acrescenta que “fazer troça aos fundamentos da fé cristã, tão cara a grande parte da população brasileira, às vésperas de uma das principais datas do Cristianismo, não se sustenta ao argumento da liberdade de expressão".


“O critério de ofensa é subjetivo, né?”, contesta Duvivier. “No meu caso, a violência pornográfica do Cristo de Mel Gibson [diretor de A Paixão de Cristo, de 2004] me ofenderia muito mais do que o Jesus ingênuo que a gente fez. O que muitos religiosos fazem no Brasil, usando o nome de Jesus para pedir cartão de crédito dos fieis, ganhando dinheiro em cima da fé alheia, é dez vezes mais ofensivo”.

O humorista também questiona o argumento de que a produção ofende a maioria dos brasileiros. E o faz com um dado difícil de contestar: o episódio Se beber não ceie, vencedor do Emmy, foi a produção brasileira da Netflix mais vista na história da plataforma. “Isso mostra que a maioria está se divertindo e rindo com a gente. Duvivier também contesta o conceito de sagrado. " É fácil rir da maconha que é sagrada para o rastafári ou da vaca, que é sagrada para o hindu, porque a gente não conhece hindus. A gente só ri do que não conhece, mas essa ideia de que nada é sagrado está no cerne do humor".

Enquanto a polêmica continua, o Porta dos Fundos, como era de se esperar, coloca mais lenha na fogueira. O grupo publicou um vídeo em que ironiza os ataques conservadores. Jesus aparece triste em uma Igreja e conversa com um padre sobre o bullying sofrido pelos “meninos do Porta dos Fundos” e sobre seu desejo de vingança. Ambos chegam a falar sobre o problema dos refugiados na Síria e a fome na África, mas Cristo tem “prioridades”: “O que tá pegando mesmo no mundo agora é piada. Uma coisa de cada vez”, diz. Em outro momento, afirma que nada pode fazer contra os comediantes e acrescenta: "Por isso preciso de padres e pastores para me defenderem na Terra”.

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