O cientista que alimentou as ‘fake news’ da pandemia

O pesquisador alemão Harald Walach publicou em junho dois estudos segundo os quais as vacinas contra a covid-19 provocam quase o mesmo número de mortes que evitam, e que as máscaras são perigosas para as crianças. Essa última informação falsa foi propagada pelo presidente Jair Bolsonaro

Anja Jahn

A comunidade científica ainda se pergunta como isso pode ter acontecido. Um pesquisador defensor da homeopatia e de outras pseudociências, o alemão Harald Walach, conseguiu publicar em junho passado dois estudos de alto impacto afirmando que as vacinas contra a covid-19 provocam praticamente o mesmo número de mortes que evitam, e que as máscaras são perigosas para as crianças. Os dois artigos se baseiam em cálculos malfeitos, e suas conclusões são totalmente errôneas. As duas revistas especializadas que os publicaram, Vaccines e JAMA Pediatrics, se retrataram da publicação poucos dias depois. A Universidade de Poznan (Polônia), onde Walach trabalhava, anunciou que não renovará o contrato do pesquisador. E o médico alemão Edzard Ernst, flagelo das pseudociências, lançou em seu blog uma pergunta que muitos outros já se fazem: “O professor Harald Walach é um incompetente ou um mentiroso?”.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro propagou essa fake news de que as máscaras fariam mal às crianças. Ele afirmou ter lido que o uso da proteção facial, recomendada pelas autoridades de saúde para reduzir a exposição a partículas que propagam o vírus, pode causar irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa a ir para escola ou creche, desânimo, vertigem e fadiga” em crianças.

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Walach, um psicólogo de 64 anos sem formação em vírus nem em vacinas, tem uma trajetória extravagante. Um de seus últimos trabalhos, baseado em uma pesquisa com 10 indivíduos católicos, chega à conclusão de que rezar o terço “pode gerar benefícios para a saúde”. Em outros estudos anteriores, dá trela a supostos casos de cura à distância. E também lançou teorias com obscuros conceitos da física quântica para tentar explicar supostos fenômenos parapsicológicos, como a telepatia. Em 2012, Walach foi eleito o “pseudocientista do ano” pela Sociedade para o Pensamento Crítico da Áustria.

Apesar desse currículo, Walach publicou em 24 de junho, na revista Vaccines, um estudo dizendo que as vacinas contra a covid-19 matam duas pessoas de cada três que salvam. Vários membros do conselho editorial da revista, como o virologista austríaco Florian Krammer e a imunologista britânica Katie Ewer, pediram demissão ao saberem da publicação do artigo, que foi imediatamente espalhado por movimentos antivacinas e negacionistas da pandemia. A Vaccines retratou o estudo em 2 de julho, depois de constatar que Walach fazia seus cálculos com uma base de dados dos Países Baixos que incluía todos os problemas de saúde observados depois da vacinação, mesmo que não tivessem nada a ver com a injeção. A especialista neozelandesa em vacinas Helen Petousis Harris, que também se demitiu do conselho editorial, mas voltou após a retratação, assim resumiu o estudo: “Se os dados que você analisa são um lixo, as conclusões que obtém são um lixo também”.

Harald Walach se defende. “Não sou um ativista antivacinas. Sou um cientista”, afirma. O pesquisador alemão se diz vítima “do politicamente correto” e argumenta que ter o apoio do movimento antivacinas não invalida seus resultados. No seu entender, os cálculos no seu estudo “são corretos”, embora a realidade seja outra: já foram administradas 3,7 bilhões de doses no mundo, e a catástrofe anunciada por Walach não ocorreu. Pelo contrário, a vacinação reduziu drasticamente as mortes.

Como foi possível que estudos tão enganosos fossem publicados por revistas científicas respeitadas? A Vaccines é editada pelo MDPI, um gigante empresarial fundado pelo químico chinês Shu-Kun Lin e com mais de 330 revistas científicas de acesso gratuito. Em 2018, dez membros de outra das suas publicações, a Nutrients, se demitiram alegando que o MDPI os pressionava a aceitar estudos de baixa qualidade. Como os autores têm que pagar taxas para publicar um artigo ―cerca de 10.000 reais, no caso da Nutrients― a editora tem um forte incentivo para publicar o máximo que puder, conforme advertiu a revista Science na época. O MDPI, com sede em Basileia (Suíça), negou exercer essa pressão sobre seus conselhos editoriais.

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Eva Méndez, especialista em ciência aberta da Universidade Carlos III, em Madri, aponta as falhas do atual sistema científico. A Comissão Europeia e outras instituições internacionais defendem o livre acesso dos cidadãos aos resultados da pesquisa científica, mas esta ciência aberta, segundo Méndez, “tem gerado práticas editoriais oportunistas e deu lugar a revistas fraudulentas e também a outras na linha fronteiriça, que sem serem totalmente uma fraude desenvolveram condutas predadoras, alimentadas pela sede de publicação dos pesquisadores”. A professora recorda que o sistema científico atual funciona com “o imperativo irracional e anacrônico de ‘publicar ou perecer’”, já que o sucesso de uma carreira acadêmica se mede pelos estudos publicados. “A Open Science [ciência aberta] implica devolver a ciência aos pesquisadores, deixando à margem interesse comerciais disfarçados de Open Science”, afirma.

O biotecnólogo espanhol Eduardo Gómez Casado, do Instituto Nacional de Pesquisa e Tecnologia Agrária e Alimentícia (INIA), é membro do conselho editorial da revista Vaccines, um cargo pelo qual não recebe pagamento. “O processo de revisão editorial da Vaccines é sério e controlado. Acho que o que ocorreu com este estudo é uma exceção”, opina. A chefa do comitê de ética do MDPI, Damaris Critchlow, considera que a editora “agiu rapidamente” e aponta que o responsável por publicar o estudo antivacinas foi um dos editores da Vaccines, o também psicólogo Ralph DiClemente, da Universidade de Nova York.

Em 30 de junho, Harald Walach publicou na revista JAMA Pediatrics outro estudo no qual afirmava, após examinar 45 menores, que crianças com máscara estão expostas a níveis inaceitáveis do CO2. A respeitada revista, pertencente à Associação Médica Norte-Americana, retratou o artigo em 16 de julho, mostrando suas dúvidas sobre o dispositivo utilizado para medir o CO2 e a metodologia empregada pelo pesquisador alemão. Walach, igualmente sem formação neste campo, argumenta que errados estão os outros. A Academia de Pediatria dos EUA, entretanto, recomendou em 18 de julho que todas as crianças maiores de dois anos usem máscara nas escolas.

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