Pandemia de coronavírus

O “escandaloso desequilíbrio” na distribuição de vacinas contra a covid-19 entre ricos e pobres

A OMS estabeleceu a meta de iniciar a imunização contra o coronavírus em 220 países nos primeiros 100 dias de 2021. Não foi alcançada e as doses prometidas às economias mais pobres tampouco foram distribuídas pelo Covax: enquanto 87% dos vacinados são de países ricos, nos menos desenvolvidos apenas 0,2% da população foi imunizada

Enfermeiro prepara a vacina da Johnson & Johnson contra a covid-19 em um centro de saúde pública em Klerksdorp, África do Sul, em 21 de fevereiro de 2021.
Enfermeiro prepara a vacina da Johnson & Johnson contra a covid-19 em um centro de saúde pública em Klerksdorp, África do Sul, em 21 de fevereiro de 2021.Shiraaz Mohamed / AP

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem uma lista de 220 territórios nos quais a vacinação contra a covid-19 já deveria ter sido iniciada. Pelo menos essa era a meta definida no início deste ano: que nos primeiros 100 dias de 2021 as doses teriam começado a ser administradas em todos. Neste sábado, 10 de abril, vencerá o prazo e a meta não foi atingida: em 14 países ainda não há o menor rastro das vacinas, como reconhece a própria organização. “Alguns deles não solicitaram vacinas, outros ainda não estão prontos e outros planejam começar nas próximas semanas ou meses”, disse em uma entrevista coletiva o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

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Adhanom detalhou que 194 países e economias já iniciaram a vacinação e outros 12 começarão em breve, pois acabaram de receber as primeiras doses ou devem recebê-las nos próximos dias. Mas esta não foi a única falha da estratégia: tampouco se conseguiu atingir a meta de distribuir 100 milhões de doses por meio do programa Covax, iniciativa liderada pela OMS, pelas Nações Unidas e pela Aliança Global de Vacinas (GAVI) para garantir o acesso à vacina a países em desenvolvimento. O objetivo final é entregar 2 bilhões de doses este ano para todo o mundo, 80% delas para esses países com maiores dificuldades financeiras, mas nas primeiras seis semanas de envios desde que o primeiro carregamento chegou a Gana em 24 de fevereiro, só foram disponibilizadas 38 milhões. Dessa quantidade, mais de 37 milhões são da empresa AstraZeneca. O atraso, segundo a OMS, se deve ao fato de que as principais empresas farmacêuticas associadas ao Covax (AstraZeneca, Pfizer-BioNTech e o Instituto Serum da Índia) estão otimizando seus processos de produção na fase inicial do lançamento.

No caso do Instituto Serum, além disso, o atraso está acontecendo porque a Índia, país onde está localizada a produção, enfrenta uma grave segunda onda da pandemia, o que levou as autoridades nacionais a aumentarem o ritmo de vacinação e isso provocou uma redução da quantidade de doses destinadas à exportação.

Adhanom insistiu que a vacinação ainda é muito desigual no mundo, já que das mais de 700 milhões de doses administradas no planeta até hoje, 87% foram inoculadas nos países mais ricos e apenas 0,2% foram para os países de menor renda, algo que o mais alto representante da OMS descreveu como um “desequilíbrio escandaloso”. “Nos países de alta renda, uma em cada quatro pessoas em média já foi vacinada, enquanto nos países pobres apenas uma em cada 500 foi imunizada”, denunciou.

A ameaça de aumento da desigualdade

O especialista etíope acrescentou que os acordos e doações bilaterais que alguns países optam por fazer fora do programa Covax “ameaçam aumentar a desigualdade na vacinação” e alertou que a escassez de doses “alimenta o nacionalismo e o uso das vacinas com fins diplomáticos”.

“Necessitamos do apoio contínuo de Governos e fabricantes, pois toda vez que um acordo bilateral é feito sem passar pelo Covax, isso significa menos doses para o programa”, acrescentou o diretor executivo da GAVI, Seth Berkley. O norte-americano manifestou confiança em que os atuais problemas de abastecimento do Covax serão resolvidos no segundo semestre. “E poderemos nos beneficiar do aumento da capacidade de produção.”

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Nesse contexto, Adhanom anunciou que a OMS, junto com outros parceiros do Covax, está “trabalhando em várias opções para acelerar a produção e o fornecimento”. “Estamos conversando com o Governo da Índia sobre o fornecimento de vacinas por meio do Instituto Serum. Estamos trabalhando para acelerar a liberação e a administração das vacinas da SK Bio na Coreia do Sul. Estamos tentando agilizar a entrega da vacina da J&J. Estamos acelerando a aprovação de mais vacinas, incluindo as da Sinopharm, Sinovac e Gamaleya. Continuamos buscando doações de doses de países que têm o suficiente para cobrir toda a sua população várias vezes, não dentro de alguns meses, mas agora. Estamos em negociações com vários países enquanto tentamos expandir a capacidade de fabricação mundial”, enumerou.

Nesse sentido, o diretor de Regulação e Pré-qualificação da OMS, Rogério Gaspar, adiantou que as vacinas da Sinopharm e Sinovac estão “em fase final de avaliação”. Da mesma forma, anunciou que o grupo de assessoria técnica de vacinas da OMS se reunirá em 26 de abril: “Esperamos que pelo menos uma das duas vacinas seja avaliada nessa reunião”.

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