Pandemia de coronavírus

Os pioneiros da dexametasona: uso se justifica em casos graves da covid-19, mas pode ser perigoso para o resto

Médicos espanhóis administram o medicamento em pacientes com mau prognóstico desde março

Ana Fernández Cruz, assistente de doenças infecciosas do Hospital Puerta de Hierro, em Madri.
Ana Fernández Cruz, assistente de doenças infecciosas do Hospital Puerta de Hierro, em Madri.Andrea Comas

A maioria das mortes por covid-19 não se deve tanto ao coronavírus, mas à reação que provoca em alguns pacientes. O SARS-CoV-2 por si só não é suficiente para acabar com uma vida; é a reação às vezes exagerada do sistema imunológico que pode causar uma inflamação grave e esta, por sua vez, favorece a insuficiência respiratória que acaba matando, principalmente os idosos e aqueles com patologias anteriores.

A primeira substância que pode evitar mortes por covid-19 ataca exatamente nesta fase. A dexametasona é um anti-inflamatório que também inibe a ação do sistema imunológico e é provavelmente por isso que sufoca a inflamação e consegue salvar vidas dos dois grupos de pacientes mais graves: aqueles que necessitam de respiração assistida e aqueles que precisam de oxigênio, de acordo com os resultados preliminares de um grande teste clínico divulgado na terça-feira. A dexametasona não combate o vírus, mas uma resposta imune exacerbada contra ele.

Os médicos e cientistas espanhóis foram os primeiros a alertar que o medicamento pode salvar vidas. No dia 11 de março que os médicos do Hospital Puerta de Hierro, em Madri, começaram a administrar dexametasona aos infectados que já estavam na UTI com ventilação mecânica, explica Ana Fernández Cruz, especialista em doenças infecciosas do hospital. “Como vimos que estava funcionando, estendemos a casos menos graves, aqueles que só precisavam de oxigênio”.

Depois de analisar cerca de 400 pacientes, a equipe publicou em 26 de maio que o medicamento reduz a mortalidade em 41% em um estudo preliminar que está prestes a ser publicado em uma revista científica. Até o surgimento deste trabalho, diz Fernández, só tinham sido publicados estudos com um pequeno número de pacientes na China. Também indicaram que o medicamento reduz a mortalidade em pessoas gravemente infectadas.

A dexametasona não combate o vírus, mas uma resposta imune exacerbada contra ele

Esses resultados confirmam o que foi anunciado agora pelos responsáveis por um teste com mais de 6.000 pacientes em 175 hospitais do Reino Unido: o medicamento reduz em um terço o risco de morte nos pacientes com respiração assistida e em um quinto nos que precisam de oxigênio. Este é o grupo mais ameaçado de morte por covid-19. “Com esses dados, o medicamento já deve ser administrado a todos os pacientes que tenham critérios semelhantes aos dos pacientes do estudo”, afirma Fernández.

“O que os responsáveis pelo teste britânico comunicaram é que o medicamento é capaz de salvar vidas e, em uma situação de pandemia como a atual, isso significa que se justifica usá-lo nos casos indicados”, explica Jesús Villar, pesquisador do CIBER de Doenças Respiratórias no Hospital Universitário Doctor Negrín, em Las Palmas de Gran Canaria. Villar coordena um teste clínico com dexametasona em pacientes graves de covid-19 em 17 hospitais espanhóis. O estudo começou depois que seu grupo publicou um estudo em março que mostrou que o medicamento reduz a mortalidade por estresse respiratório agudo, uma reação inflamatória grave que afeta os pulmões devido a infecções muito semelhantes às produzidas pelo novo coronavírus. “Se esses resultados forem confirmados, se deverá administrar o medicamento a todos os pacientes aos quais for indicado; já não se poderá ter um grupo de controle que não o receba”, destaca Villar.

A dúvida agora é quando administrar o medicamento, porque é uma faca de dois gumes. “Geralmente, a fase de inflamação máxima acontece 10 dias após o início dos sintomas e não ocorre em todos os pacientes. Se essa resposta inflamatória excessiva puder ser controlada, especialmente quando ainda não destruiu grande parte dos pulmões, pode ser benéfica para o paciente”, explica Fernández. Nos estudos espanhóis foi aplicada uma dose mais alta do que no britânico, o dobro no Puerta de Hierro e uma vez e meia maior no estudo coordenado por Villar.

Para muitos médicos, essas notícias são especialmente boas pelo preço e pela disponibilidade geral do medicamento. Na Espanha, o tratamento com dexametasona custa entre um e dois euros por dia, segundo Cristina Avendaño, farmacologista do Puerta de Hierro. Trata-se de um medicamento descoberto no final da década de cinquenta e amplamente utilizado, entre outras indicações, para tratar reações alérgicas —inflamatórias— graves e distúrbios autoimunes.

Este medicamento pode provocar infecções, diabetes, osteoporose e hemorragias digestivas. Não pode ser usado indiscriminadamente

A descoberta acontece no momento de maior suspeita depois que vários estudos sobre possíveis tratamentos contra a covid-19 já publicados e teoricamente revisados por especialistas independentes foram retirados porque seus dados não eram confiáveis. O exemplo mais destacado é a hidroxicloroquina, que no fim das contas não demonstrou ser eficaz contra esta doença. Embora os resultados do teste britânico sejam preliminares, os especialistas consultados por este jornal pensam que são confiáveis, em parte porque se trata de um estudo apoiado pelo sistema nacional de saúde do Reino Unido e também por ser randomizado —decide-se aleatoriamente quais pacientes recebem a droga e quais não a recebem—e com um grupo de controle que permite determinar que os benefícios observados se devem ao medicamento e não a outra coisa. Este é o tipo mais confiável de teste clínico.

“É muito possível que a droga seja eficaz, mas é importante selecionar bem os pacientes, pois os corticoides inibem o sistema imunológico, razão pela qual é necessário buscar um equilíbrio adequado entre reduzir a inflamação e não aumentar a carga viral”, afirma África González, presidenta cessante da Sociedade Espanhola de Imunologia.

O medicamento funciona apenas para os pacientes hospitalizados em estado grave e pode ser muito prejudicial para o resto. “Assim como é um medicamento eficaz, com grande poder anti-inflamatório, também possui muitos efeitos colaterais, como infecções, diabetes, osteoporose e hemorragias digestivas. Não pode ser usado indiscriminadamente”, adverte Fernández.

De qualquer forma, a droga traz apenas uma vitória momentânea. Enquanto não houver uma vacina que possa ser administrada à população em geral, a guerra contra a pior pandemia do século 21 não terá sido vencida, alerta a médica.

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