EUA aprovam o uso do remédio remdesivir para pacientes com coronavírus

Trump anuncia a aprovação do medicamento em caráter emergencial após resultados incompletos e sem revisão de especialistas independentes

Cientista segura um remédio em um laboratório da empresa Gilead, nos Estados Unidos.
Cientista segura um remédio em um laboratório da empresa Gilead, nos Estados Unidos.GILEAD SCIENCES
Pablo Guimón
Washington -

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na sexta-feira que a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos autorizou o uso emergencial, para o tratamento de pacientes da covid-19, do antiviral experimental remdesivir, um dos remédios mais promissores na luta contra a doença causada pelo coronavírus. O presidente realizou o anúncio em um pronunciamento no Salão Oval ao lado de Daniel O’Day, executivo-chefe da farmacêutica norte-americana Gilead, fabricante do remdesivir. O Governo afirma que está trabalhando para que o medicamento esteja à disposição dos pacientes o quanto antes, e a empresa anunciou que doará um milhão de doses do remédio.

Mais informações
Un grupo de mœsicos norte–os esperan por  clientes en el pante—n municipal numero 12 de la ciudad de Tijuana, MŽxico el d’a 27 de abril de 2020. Tijuana a sido declarada como uno de los puntos cr’ticos de contagios de COVID-19, la ciudad ocupa el segundo lugar en el pa’s, solo superado por la Ciudad de MŽxico y hasta el momento el registro de muertes en el estado es de 215 siendo Tijuana el lugar que m‡s reporta.
Últimas notícias sobre o coronavírus no Brasil e no mundo
FILE - In this Thursday, April 9, 2020 file photo, a chemist displays hydroxychloroquine tablets in New Delhi, India. Scientists in Brazil have stopped part of a study of the malaria drug touted as a possible coronavirus treatment after heart rhythm problems developed in one-quarter of people given the higher of two doses being tested. Chloroquine and a similar drug, hydroxychloroquine, have been pushed by President Donald Trump after some early tests suggested the drugs might curb coronavirus entering cells.  (AP Photo/Manish Swarup, File)
Medicamentos contra o coronavírus. Muita pesquisa, mas pouca ciência na aplicação
Trabajadores del Instituto de Virología de la Universidad Philipps de Marburgo (Alemania), que investiga una vacuna contra el coronavirus de Wuhan.
Além da cloroquina, o que está sendo testado contra o coronavírus

“Queremos agradecer a colaboração que levou o remdesivir até esse ponto e às muitas pessoas que foram parte disso”, disse Trump, de acordo com a rede CNBC. “É realmente uma situação muito promissora”.

A FDA não fez uma aprovação formal do medicamento. Mas a declaração de uma emergência de saúde pública por parte do Governo federal lhe permite autorizar a utilização de determinados medicamentos para combater a emergência na ausência de alternativas, mesmo quando não existem dados completos sobre sua eficácia e sua segurança. Desse modo, o remdesivir se transforma no primeiro medicamento aprovado para a covid-19.

A droga trouxe resultados positivos em um teste clínico federal, que mostrou que o tratamento com remdesivir pode acelerar a recuperação dos pacientes com coronavírus. O teste foi feito com 1.063 pacientes graves, alguns dos quais receberam remdesivir enquanto outros receberam placebo. Os tratados com remdesivir demoraram em média 11 dias para se curar enquanto os tratados com placebo demoraram em média 15 dias. O teste não mostrou uma redução significativa, entretanto, na taxa de mortalidade dos pacientes. “Ficou demonstrado que é um medicamento que pode bloquear o vírus”, disse na quarta-feira o epidemiologista Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas. “Esse será o padrão de tratamento”.

O estudo, realizado pelo Instituto Nacional de Doenças Infecciosas (NIAID), que faz parte dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), não foi revisado por especialistas independentes e não foi publicado em uma revista científica. É bem incomum que se publiquem os resultados de um teste clínico sem que se tenha superado o processo de revisão, e muitos médicos pedem cautela.

O remdesivir, que foi desenvolvido para tratar o ebola, mas não demonstrou ser efetivo, é um dos remédios mais promissores para se transformar no tratamento padrão da covid. O medicamento detecta o genoma viral e bloqueia a proteína ARN polimerase (RdRp), que multiplica as cópias do vírus. Sem essa proteína, o coronavírus causador da doença vovid-19 não pode se replicar e a infecção fica bloqueada.

Diante da complexidade de dispor de uma vacina contra o patógeno, o foco se voltou aos possíveis tratamentos, e essa atenção fez com que, algumas vezes, se prescinda do método científico na comercialização de medicamentos. Na quarta-feira, no mesmo dia em que o NIAID divulgava os resultados preliminares de seu estudo, a Gilead publicava os primeiros dados de um de seus próprios testes clínicos, que chamava de “promissores”. Apesar das limitações do estudo, que não foi realizado com grupo de controle e não foi revisado por especialistas, o anúncio da Gilead provocou aumentos nas bolsas. Pouco depois, a prestigiosa revista médica The Lancet surpreendentemente publicou o primeiro teste clínico sobre o remdesivir com grupo de controle e revisado por especialistas independentes, e os resultados mostram que o medicamento não trouxe vantagens significativas aos pacientes de covid-19.

Na quinta-feira, a Gilead anunciou que espera produzir mais de 140.000 doses de seu tratamento de dez dias de remdesivir para o final de maio, e que poderá produzir um milhão delas até o final do ano.

Informações sobre o coronavírus:

- Clique para seguir a cobertura em tempo real, minuto a minuto, da crise da Covid-19;

- O mapa do coronavírus no Brasil e no mundo: assim crescem os casos dia a dia, país por país;

- O que fazer para se proteger? Perguntas e respostas sobre o coronavírus;

- Guia para viver com uma pessoa infectada pelo coronavírus;

- Clique para assinar a newsletter e seguir a cobertura diária.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS