Bolsonaro retoma controle das redes e Congresso esfria impeachment à espera da próxima crise

Levantamentos apontam que presidente evitou a sangria de seguidores ao conseguir emplacar a estratégia de que o recuo no embate com o STF foi calculado e demonstra humildade

Um militantes bolsonarista no protesto de 7 de setembro, em Brasília.
Um militantes bolsonarista no protesto de 7 de setembro, em Brasília.Andre Penner (AP)
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O recuo de Jair Bolsonaro à declaração de guerra contra o Supremo Tribunal Federal feita no Sete de Setembro já surtiu efeito. Se, na quinta-feira, a base bolsonarista demonstrou ter entrado em curto-circuito após a carta apaziguadora do presidente, em que ele prometia lutar contra a corte apenas na esfera judicial, nesta sexta-feira o mandatário começou a recuperar as rédeas de sua milícia digital, segundo apontam dois levantamentos feitos nas redes sociais com o uso de inteligência artificial. No Congresso Nacional, onde o tom pró-impeachment havia se elevado, também esfriou o movimento que pretendia pressionar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a abrir o processo de afastamento do mandatário.

Um monitoramento feito pelo banco ModalMais e pela consultoria AP Exata mostra que parece ter colado entre os apoiadores a avaliação de que Bolsonaro foi um “estadista e estratégico” ao emitir uma nota na qual dá vários passos atrás e busca uma conciliação com o STF. Após críticas intensas de apoiadores, os dados mostram que o presidente conseguiu estancar a sangria que se desenhava. Enquanto na quinta-feira, 66% das menções ao Governo nas redes eram negativas, na sexta o número caiu para 63%. As citações positivas migraram de 34% para 37%. Foram analisados 23 milhões de tuítes para esse estudo.

De acordo com os analistas da consultoria, houve uma modulação nas críticas feitas até pelos influenciadores bolsonaristas. “Bolsonaro também está sendo agora retratado como alguém que visa garantir a democracia, demonstrando humildade no recuo, mas exigindo respeito à Constituição por parte de todos os Poderes”, diz o relatório entregue aos clientes das empresas ao qual o EL PAÍS teve acesso.

Os momentos mais críticos para o presidente ocorreram em 5 de maio deste ano, quando 79% das menções ao mandatário eram negativas, e em 24 de abril do ano passado, quando ele também atingiu o patamar de 66% de rejeição nas redes. No primeiro caso, o número negativo se deveu a uma manifestação de Bolsonaro sobre a morte do humorista Paulo Gustavo, um opositor do Governo que morreu de covid-19. O segundo, em abril do ano passado, ocorreu quando o ex-juiz Sergio Moro rompeu com o presidente e renunciou ao Ministério da Justiça. A série história da ModalMais e da AP Exata, mostra que, naquele momento, o número de menções negativas ao presidente registrou uma queda de 12 pontos percentuais em único dia.

Em termos políticos, a saída de Moro foi uma crise de maior proporção porque, naquele período, Bolsonaro oscilava avaliações positivas com negativas. Agora, desde dezembro de 2020, o presidente não conseguiu um dia só de vitória nas redes sociais. Há sempre mais menções negativas do que positivas. Nos 982 dias de Governo, entre 1º de janeiro e 10 de setembro, 64,87% dos dias terminaram com mais posts de rejeição do que de aceitação, 28,41% foram mais positivos e 6,72% foram neutros.

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Uma análise feita por outra consultoria, a Bites, reforça essa tese de que há uma crise, mas que, aparentemente ela está sob controle. E o que a controlou foi a transmissão ao vivo feita pelo presidente em suas redes, na noite de quinta-feira, para justificar o recuo. Retorno esse que foi marcado pela carta escrita sob a orientação do ex-presidente Michel Temer (MDB). “Após a live, o grupo mais organizado se reestruturou e criou uma estratégia de contenção do problema que coloca Bolsonaro no papel de pacificador, não para a opinião pública, e sim para os seus seguidores”, diz o relatório.

A Bites também constatou que, até o final da tarde desta sexta, Bolsonaro não tinha registrado significativa perda de seguidores como ocorreu na época da saída de Moro do Governo. Naquela época, ficou constado o rompimento do presidente com o lavajatismo, uma das correntes que o elegeu e da qual o ex-juiz Moro era a sua principal face. A exoneração do ministro significou que 55.000 perfis deixaram de acompanhá-lo no Facebook, Youtube, Instagram e Twitter. O movimento agora foi em outro sentido. “Desde ontem, ele [Bolsonaro] ganhou 4.200 novos seguidores”, ressalta o estudo que analisou 500.000 posts no Facebook e 1,3 milhão no Twitter.

Realidade paralela

Entre os influenciadores bolsonaristas, há a tentativa de marcar nele a figura de estrategista como Sun Tzu (o general e filósofo chinês autor de A Arte da Guerra), de enxadrista ou de um bom articulador político. É uma espécie de realidade paralela que tem sido estimulada por políticos de seu entorno como o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno. “Nosso presidente possui um formidável senso político. Discordei dele algumas vezes e depois descobri que ele tinha razão”, disse Heleno em uma postagem na sua conta do Twitter. Na sequência, o mais bolsonarista dos ministros faz um alerta, novamente com o objetivo de criar uma narrativa enviesada para os discursos golpistas de seu chefe. “A esquerda segue unida e querendo voltar. Ela sofreu também um duro revés porque descobriu que o presidente Bolsonaro não tinha qualquer intenção de dar o golpe”.

As falas para os convertidos têm como principal objetivo garantir sobrevivência eleitoral ao presidente e descolar dele a pecha de traidor, que estava em vias de ser solidificada até a noite de quinta. Contudo, assim como a classe política e observadores que acompanham o cotidiano de Brasília, os apoiadores de Bolsonaro também já sabem que essa paz é temporária. Ninguém acredita que ele seguirá até as eleições de 2022 sereno e conciliador, como tentou demonstrar em seus últimos movimentos. “Nem mesmo a militância governista acredita que o PR realmente estendeu uma bandeira branca porque pretende mudar o comportamento bélico. Bolsonaristas e oposição viram na jogada um ato estratégico, para garantir a governabilidade e reduzir as pressões. Algo certeiro e pontual, mas com data de validade”, avaliaram os analistas do ModalMais e da AP Exata.

Freio no MDB

Tido como um dos principais observadores dos movimentos políticos na atualidade, o presidente do PSD, o ex-ministro Gilberto Kassab disse que a carta de Bolsonaro, por enquanto, afasta o risco de impeachment. “Vamos aguardar e torcer para que o presidente tenha aprendido com esse episódio”, disse o cacique partidário para o podcast A Malu tá ON, do jornal O Globo. A legenda que Kassab dirige é uma das que compõem o Centrão e está em vias de abandonar os cargos no Governo, seguir para a oposição e começar a pressionar pela destituição de Bolsonaro.

Outro experiente político com bom trânsito com o mercado financeiro, o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), diz que ainda não há 342 votos necessários para um impeachment e, sem essa garantia, qualquer um que fosse o presidente da Câmara rejeitaria os pedidos. Entretanto, ele avalia que desde os atos antidemocráticos de Sete de setembro tem crescido o número de deputados que dariam suporte a uma destituição presidencial. Ramos afirma ainda que a carta de Bolsonaro, que teve o emedebista Temer como ghostwriter, serviu para frear a perda de apoio interno na Câmara.

“Ninguém confia em um discurso de moderação do presidente, mas eu acho que ela teve pelo menos um efeito de segurar que que o MDB não fosse para a oposição, como fez o PSDB”, afirmou ao EL PAÍS. A pax bolsonariana, definitivamente está com dias contados. Nos bastidores do poder a dúvida é: qual será a nova crise criada pelo presidente para desviar o foco da CPI da Pandemia? O colegiado retomará os trabalhos na próxima semana em vias de apresentar o seu relatório final, que ameaça ser bombástico contra o presidente.

Bolsonaro conversa com militantes no dia 10 de setembro, em Brasília.
Bolsonaro conversa com militantes no dia 10 de setembro, em Brasília.EVARISTO SA (AFP)

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