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Coluna
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Eduardo, preciso te contar que teu pai e a Amazônia estão ameaçados de morte

Filho do líder camponês Erasmo Theofilo, o menino nasceu enquanto a família estava escondida para não ser assassinada, em uma floresta que, segundo recente pesquisa publicada na Nature, começa a agonizar

Depois de nascer longe de casa, Eduardo voltou à sua comunidade em Anapu, no Pará. Na foto, tirada em 20 de julho, o menino está com seu pai, Erasmo Theofilo, liderança camponesa marcada para morrer.
Depois de nascer longe de casa, Eduardo voltou à sua comunidade em Anapu, no Pará. Na foto, tirada em 20 de julho, o menino está com seu pai, Erasmo Theofilo, liderança camponesa marcada para morrer.NatalhaTheofilo
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Eduardo, quando você nasceu, em 15 de abril, teu pai, Erasmo, e tua mãe, Natalha, estavam há cinco meses longe de casa para não morrer. Tua mãe teve que deixar tudo para trás e seguir teu pai, carregando uma gravidez de risco, arriscando portanto a vida dela e a tua, porque a probabilidade de morrer à bala era maior do que a de morrer de parto. Os tempos, Eduardo, agora são assim. É preciso fazer cálculos indignos como este. Teus três irmãos, ainda crianças, tiveram que trocar a floresta por um apartamento fechado numa cidade desconhecida. Você nasceu longe dos avós e da tua comunidade, entre estranhos, num hospital tomado por pacientes com covid-19. Não é o que eu gostaria de dizer a você, Eduardo, mas é o que preciso dizer a você, uma criança amazônica: Eduardo, você nasceu exilado em teu próprio país.

Preciso dizer —e preciso dizer agora— porque você nasceu em tempos de guerra. A guerra por terra sempre foi um massacre, pela desproporção das forças, e assinala o país chamado Brasil desde que ele foi forjado a pólvora e vírus pelos colonizadores europeus. E agora também te alcança a guerra climática, Eduardo. E esta é também um massacre, pela desproporção das forças. Ainda assim, tua gente resiste. Teu corpo de criança da Amazônia, Eduardo, é uma esquina onde essas guerras se encontram. E por isso você não tem escolha a não ser lutar.

Lutar, Eduardo, pela floresta, junto com a floresta, sendo floresta também. Não é uma coincidência que defensores da Amazônia sejam obrigados a escapar para sobreviver e seguir lutando. A floresta está sendo executada, Eduardo. A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, uma maravilha que levou milhões de anos para se formar, a casa da maior biodiversidade do planeta, o mundo de milhares de povos originários com línguas e culturas diversas, está sendo assassinada. Quando digo a você que a Amazônia está sendo assassinada, não estou usando retórica nem forçando a expressão. Há muito xamãs como Davi Kopenawa e lideranças como Raoni alertam para a morte da floresta. Depois, as deles se somaram as vozes de cientistas como Carlos Nobre e, mais recentemente, as de milhões de adolescentes liderados pela sueca Greta Thunberg. Agora, Eduardo, a morte está próxima. A floresta já agoniza.

Uma floresta como a Amazônia é um ser tão grandioso, Eduardo, composto por zilhões de outros seres, que mesmo quando morre rapidamente, como é o caso da selva em que você vive, para o tempo dos humanos parece muito. Desde a ditadura civil-militar, iniciada com um golpe clássico, em 1964, homens como os que ameaçam a vida de teus pais exterminam a floresta a fogo e a motosserra e envenenam os rios que a compõem com mercúrio. Parece muito tempo, mas como lembrou o cientista da Terra Antonio Nobre, “a floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente. Mas em menos de 50 anos está ameaçada pela ação de humanos”.

Em 14 de julho, Eduardo, a Nature, uma das revistas científicas mais importantes do mundo, divulgou um estudo coordenado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele mostra que, entre 2010 e 2018, a porção leste da Amazônia, esta onde vive e luta a tua comunidade, já começou a emitir mais CO2, um gás de efeito estufa, do que é capaz de absorver. Sabe o que isso significa, Eduardo? Significa que a floresta já está deixando de ser floresta. Significa, Eduardo, que a Amazônia começa a deixar de ser solução para se tornar problema. Um problema de proporções amazônicas num mundo em que o planeta está superaquecendo rapidamente.

E, Eduardo, preste atenção na data: 2018 é o último ano analisado pelo estudo publicado. E, em 2018, Bolsonaro se elegeu. Desde que ele assumiu o poder, a destruição da Amazônia se multiplicou e acelerou. Assim, perceba que a catástrofe investigada e comprovada pelos cientistas, hoje, após dois anos e meio de estímulo oficial à predação da floresta, é certamente muito maior.

Para que você, Eduardo, entenda o que está em jogo, você que apenas estreou no mundo, neste mundo terrível que a minha geração deixará para a tua, eu preciso te dizer que a Amazônia é (ou talvez era) o maior sumidouro terrestre de carbono. Ou seja: em terra, é ela quem é capaz de absorver mais esse gás diretamente responsável pelo superaquecimento global. Em todo o planeta, os que mais absorvem carbono na atmosfera são os oceanos. E também eles estão sendo destruídos, agora pela mineração de profundidade, acidificação, plásticos e superaquecimento global. Depois, em segundo lugar, vêm as florestas tropicais, a Amazônia a maior de todas elas, casa de 10% das espécies existentes no planeta. O problema, Eduardo, é que, mesmo sabendo disso, uma parte dos humanos, da qual o antipresidente do Brasil é um dos expoentes globais, está matando a natureza que garante a sobrevivência da própria espécie.

Guerra climática, superaquecimento global, sexta extinção em massa das espécies serão as palavras que assinalarão a tua geração, Eduardo. Você nasceu no momento em que a minoria dominante dos humanos, composta por bilionários e supermilionários protegidos em grandes corporações transnacionais, provocou a catástrofe climática e a sexta extinção em massa das espécies. Depois, alguns deles vão passear no espaço, como fez Jeff Bezos nesta terça-feira, enquanto negligenciam seu próprio planeta. Bezos, aliás, um dos bilionários que mais lucrou na pandemia, se apropriou do nome Amazon, consumando um outro tipo de violência.

A tragédia planetária que atende pelo nome de crise, emergência ou colapso climática/o começou com a Revolução Industrial, no século 18, com o uso de combustíveis fósseis, primeiro carvão depois petróleo, e se intensificou enormemente no século 20. Agora, no século 21, quando o colapso está claríssimo, parte dessa gente, porque são gente, Eduardo, segue liderando a destruição.

Por que, você provavelmente perguntará? Não matarão também seus filhos? É uma pergunta mais do que lógica e também justa, Eduardo. E eu serei obrigada a te dizer que, por um lado, eles não se importam, porque a única coisa que lhes interessa são os privilégios imediatos, a sua própria vida como indivíduos. Não estarão aqui para lidar com o depois. Por outro, eles acham que vão se safar, porque esta é a experiência histórica das elites do planeta e também do Brasil. Seja o que for que aconteça, seu dinheiro sempre as salva, o custo sobra para os outros.

Para enfrentar o que virá e eles sabem que virá, porque têm as melhores e mais atualizadas informações, parte dos destruidores do planeta se apressa a construir bunkers de luxo na Nova Zelândia, o novo paraíso na Terra —ou o “último refúgio”. Anúncios de condomínios de alto luxo preparados para a emergência climática para os muitíssimos ricos, mas não bilionários, já circulam pela Europa. O capitalismo, principal sistema responsável pela corrosão de nosso planeta-casa, lucra com todas as misérias que provoca.

Peço desculpas, Eduardo, por te dar essas notícias antes mesmo de você ser capaz de escutá-las. Mas não são desculpas sinceras. Você não tem escolha, nem eu, nenhum de nós tem tempo para firulas. Você precisará ser forte, se quiser viver. Precisamos criar crianças fortes, capazes de enfrentar o que virá, adaptar-se a um planeta hostil e criar possíveis no impossível. É muito coisa, mas é o que temos para o momento. E você, Eduardo, é forte.

Antes de mesmo de nascer, você já lutava para não morrer no útero da tua mãe que fugia dos grileiros que destroem a floresta e usam suas milícias de pistoleiros para matar aqueles que a protegem —ou, em alguns casos, como acontece em todo o Brasil dominado por Bolsonaro, as próprias polícias militar e civil passam a agir como milícias privadas. Enquanto tua família estava escondida, casas de moradia, uma casa de farinha, plantações e equipamentos foram queimados na tua comunidade. Elas pertenciam ao povo que teu pai lidera, camponeses agroecológicos na Amazônia. A algumas famílias só restou a pouca roupa que levavam no corpo.

Você vai dar teus primeiros passos, Eduardo, em chão ameaçado por esses ladrões de terras públicas da Amazônia, que hoje fazem parte da base de apoio do antipresidente do país em que você nasceu exilado. E, por isso, cometem crimes sem serem perturbados nem mesmo por um arremedo de justiça. E há pessoas, Eduardo, que dizem que ainda há democracia no Brasil. Você nasce exilado, teu povo tem as casas queimadas, isso quando não tombam à bala, ninguém é punido por seus crimes e chamam a isso de democracia e Bolsonaro de presidente.

Antes de falar destes homens, porque a maioria são homens brancos, quero te contar sobre o teu pai, Erasmo Alves Theofilo. Teu pai nasceu em Altamira de um casal de migrantes, ela baiana e ele paranaense. Já tua mãe, Natalha, é filha de quilombolas. É deste mundo que você irrompe, Eduardo, o mundo dos que resistem há séculos contra todas as formas de morte, a primeira delas a escravidão. Por ser filho deste mundo, teu pai não teve vacina contra a paralisia infantil na infância, e por isso, hoje não pode mover as pernas e você sempre o verá numa cadeira. Mas, se as pernas de teu pai estão paralisadas, a verdade é que poucas pessoas no Brasil se movem —e movem— tanto quanto o teu pai.

De sua cadeira, ele lidera e resiste às balas e às tentativas de corrupção, a última delas uma oferta de 300.000 reais para que abandonasse a comunidade, comprasse uma casa no lugar onde estivesse e fosse cuidar da própria vida. Como teu pai recusou, ofereceram 500.000 reais. No país em que um ex-ministro general da ativa, militares e civis no Governo e até o antipresidente são suspeitos de atrasar a imunização contra a covid-19 para obter propinas na compra de vacinas, causando dezenas de milhares de mortes evitáveis, teu pai recusou. Hoje, o nome de Erasmo Theofilo corre o mundo como um defensor da floresta, mas esse reconhecimento não é suficiente para garantir a integridade de sua vida e, por isso, você nasceu no exílio.

Se é triste ter que deixar o próprio país para se abrigar em terra longe, Eduardo, mais triste é ter que se exilar dentro do próprio país porque as instituições e a lei não protegem teus direitos garantidos pela Constituição. Isso, Eduardo, se chama ditadura, e a de Bolsonaro corrói o Brasil desde dentro, fantasiada de democracia. A de Bolsonaro começou antes mesmo de ele alcançar o poder pelo voto, ao fazer apologia à tortura dentro do parlamento, crime previsto no Código Penal, sem ser perturbado.

A impunidade é a regra no Brasil. Impunidade para os grandes criminosos, bem entendido. Para teu povo, Eduardo, pelo furto de um shampoo e de um condicionador uma mãe de família ficou presa, foi torturada dentro da prisão e perdeu a visão do olho direito. Te conto apenas um entre milhares de casos similares ou até piores, Eduardo, para que você não tenha ilusões sobre onde vive. Entre o teu povo, milhares padecem anos na cadeia antes de sequer serem julgados. E muitos morrem antes de terem a chance de se defender, às vezes queimados e decapitados em motins provocados por disputas entre facções criminosas ou motivados pelas condições terríveis a que são submetidos em penitenciárias superlotadas que um ministro da Justiça já comparou a “prisões medievais”.

Bolsonaro é filho da impunidade, a mesma impunidade que faz com que torturadores e assassinos da ditadura anterior circulem livremente. Sabe como Bolsonaro começou sua carreira política? Ele era capitão do Exército e foi flagrado com um plano terrorista para explodir bombas em quartéis. Foi absolvido pela justiça militar e, assim abençoado pela impunidade da corporação, começou uma carreira bem sucedida de sete mandatos no parlamento. Passou 27 anos recebendo dinheiro público para prestar um serviço público —e o que ele fez? Teve três projetos aprovados, um por década. Dos três, apenas um virou lei, outros dois foram vetados pela presidência da República. Já como presidente, Bolsonaro lidera o assalto à floresta amazônica e a todos os suportes naturais da vida no território brasileiro.

Se a incompetência de Bolsonaro como parlamentar está marcada em neon, a competência de Bolsonaro para fazer o serviço sujo de defender a ditadura militar, a liberação das armas e a violência explícita, assim como combater a igualdade racial, de sexo e de gênero, foi reconhecida —e premiada com o mais alto cargo do país. Bolsonaro foi eleito e reeleito seis vezes para o parlamento muito mais para barrar projetos do que para criar projetos para o país —e isso ele fez com competência. Ele era a besta que desviava a atenção das cartas na mesa onde o jogo era jogado. Um jogo, Eduardo, onde as cartas são marcadas com o sangue do teu povo.

Bolsonaro não era, porém, apenas um aberração de circo. Ciclicamente fazendo declarações para produzir barulho, por um lado, e por outro dizendo o que ninguém mais ousaria por horrendo que era. Como ao afirmar, por exemplo, que não estupraria uma colega deputada porque ela era “muito feia”. A cada vez que Bolsonaro defendia o extermínio de opositores, atentava contra os gays e as mulheres, os negros e os indígenas, ou homenageava um torturador e nada acontecia com ele, era uma vitória da barbárie, porque a linguagem ia sendo esgarçada e o nível de aceitação da violência era esgarçado com ela. Ao mesmo tempo, a capacidade (ou a vontade) de as instituições responderem à violação de direitos era testada. O impacto nas ruas era direto e assim o país foi sendo preparado para um outro tipo de golpe e de ditadura. Um golpe dentro do golpe, porque esse golpe é gestado desde muito antes. E seguirá mesmo sem Bolsonaro.

Teu povo, Eduardo, não votou em Bolsonaro. Teu povo sabe que é seu o sangue derramado pelas armas que Bolsonaro tanto defende. Teu povo já enterrava vítimas muito antes de Bolsonaro usar a covid-19 como arma biológica para “limpar” a Amazônia daqueles que a protegem. Tua comunidade pertence a uma das maiores zonas de conflito da floresta. O nome de Anapu ficou conhecido no mundo quando, em 2005, a missionária estadunidense Dorothy Stang foi assassinada com seis tiros por defender comunidades como a tua e denunciar as atrocidades cometidas pelos grileiros da região. Entre 2006 e 2014, Eduardo, ninguém foi morto. De 2015 até 2020, em cinco anos, 19 lideranças camponesas e pessoas associadas aos movimentos pela reforma agrária foram executadas só na tua cidade.

Se você se parecer com teu pai e tua mãe, você será uma pessoa muito inteligente, Eduardo, e você me perguntará o que aconteceu em 2015. Eu então explicarei a você que, em 2015, os ruralistas, que alguns chamam de representantes do “agronegócio”, uma palavra limpinha que nem de longe representa a destruição que a maioria promove no chão, já tinham tomado conta do Governo de Dilma Rousseff (PT). Há muito anos os Governos do PT já faziam muitas concessões ao seu projeto original alegando a necessidade de manter a governabilidade. A Funai já era fortemente desmantelada, a reforma agrária nunca avançou de forma significativa e a fiscalização ambiental tinha muito menos apoio do que deveria.

Teu pai, que cria galinhas para a alimentação da família, Eduardo, sabe que não se mantém a raposa sob controle depois que a porta do galinheiro é aberta. Mas há quem se ache mais raposa do que a raposa e, assim, em 2016, apesar de concessão em cima de concessão, a ponto de os eleitores se sentirem roubados no seu voto ao ver outro projeto ser imposto no lugar daquele em que votaram, a primeira mulher presidenta foi derrubada por um impeachment estapafúrdio, um arremate do golpe que já avançava desde dentro. Aprenda desde já, Eduardo, uma lição importante, para que não o enganem. As vítimas de golpe, Eduardo, não são os governantes nem o partido tirado do poder nem toda a sua entourage. Vítimas, Eduardo, é quem sangra mesmo quando todos os acima citados chamam o anormal de normal. Basta ver quem sangra no Brasil —e você encontrará os verdadeiros golpeados.

E então Michel Temer (MDB), o vice golpista, assumiu, e teu povo seguiu sendo morto. E então veio Bolsonaro (atualmente sem partido) e teu pai teve que deixar sua comunidade pela primeira vez. Era perto do Natal de 2019, primeiro ano do Governo de extrema direita, e os grileiros se sentiam tão à vontade que se falava abertamente numa lista de marcados para morrer na região de Anapu. Desde o ano anterior, ano de eleição, as pessoas iam checar com o chefe da pistolagem local se estavam na lista ou não. “Não estou na lista, mãe”, disse o camponês Leoci Resplandes à sua mãe. Mas estava. E caiu morto a (muitas) balas —“23 cartuchos de calibre 12, segundo sua mãe”— dentro de casa, a terceira pessoa da mesma família a ser morta pela luta para que a reforma agrária seja realizada. Sua mãe hoje foge. A família inteira foge.

Em 2019, Eduardo, depois de um atentado contra a vida dele, teu pai teve que desaparecer. Acontece todo Natal nos últimos anos. As instituições que ainda representam algum tipo de proteção entram em recesso de final de ano e as organizações socioambientais e de direitos humanos fazem férias coletivas. Pessoas da linha de frente da luta pela floresta em pé, como teu pai e vários outros e outras, são então obrigados a sumir e só voltar quando os recessos terminam e as férias coletivas também. Testemunhei o sofrimento do teu pai e da tua mãe, confinados num espaço pequeno, numa cidade outra, sozinhos e ameaçados enquanto a maioria viajava ao encontro de sua família para comemorar as festas. Voltaram a Anapu pouco antes da cerimônia de 15 anos da execução de Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2020. Teu pai olhava para a cruz onde se enfileiravam o nome dos mortos a tiros sem saber se no ano seguinte estaria conferindo os novos nomes na cruz ou com seu nome gravado nela.

Quando o ano seguinte chegou, a situação era tão pior que teu pai não pôde voltar quando o martírio da missionária completou 16 anos. Erasmo e Natalha mais uma vez tinham sido obrigados a deixar Anapu, desta vez também para proteger você, Eduardo. Teu pai já tinha escapado de um total de três atentados, não seria prudente confiar que o quarto fracassaria. Mais uma vez, partiram antes do Natal. Se você se tornar cristão, Eduardo, encontrará similaridades entre a narrativa bíblica do nascimento de Jesus e a tua história real. Com a diferença que você, Eduardo, estava muito mais ameaçado. Mas muitas das pessoas que comemoram o Natal gostam das narrativas, mas desentendem-se com a vida que se desenrola logo ali e que, portanto, demanda comprometimento.

Enquanto tua mãe lutava para manter você vivo, primeiro dentro de seu útero, depois fora, um juiz deu uma sentença favorável ao grileiro. A comunidade que teu pai lidera ocupa o lote 96 da chamada Gleba Bacajá, terra pública destinada à reforma agrária. Mas, na disputa judicial entre o grileiro e as 54 famílias que buscam implantar um projeto agroecológico, o juiz se posicionou favorável ao grileiro. É com esse tipo de “justiça” que o povo de teu pai lida, uma justiça que com frequência é apenas mais uma violência.

Mas teu povo, Eduardo, resiste. Você representa a mais nova geração de um monumental processo de resistência que já dura séculos. Bolsonaro é o mais recente flagelo e possivelmente o pior de todos eles. Mas, não se iluda nem por um segundo: aqueles que sustentam Bolsonaro já estavam no poder antes dele. Usaram Bolsonaro tanto para barrar os avanços que tua gente conseguiu com muita luta quanto para avançar eles mesmos sobre a natureza, privatizando terras públicas pela força, para benefício individual em detrimento do coletivo. Bolsonaro e sua quadrilha fazem o serviço mais sujo enquanto for possível. Em algum momento, que muito possivelmente já está chegando, ele será rifado para que o projeto maior continue. Relembro este ponto, Eduardo, para você saber que tua luta não vai acabar quando Bolsonaro deixar o poder.

Neste exato momento, Eduardo, o colapso climático exibe no hemisfério norte uma amostra eloquente do que ainda virá. Em Lytton, no Canadá, os termômetros marcaram 49,6 graus Celsius. Esta temperatura, Eduardo, fala por si só. Mas ainda mais importante do que ela é o fato de que 49,6 graus Celsius significa cinco graus além do recorde anterior do país. Não é apenas um aumento, e sim um salto, um solavanco. Isso fez o Canadá, no extremo norte do globo, um lugar em geral fresco e agradável, se tornar mais quente do que o deserto do Saara. Tão quente que as florestas e a cidade literalmente pegaram fogo.

A quarta-feira, 21 de julho, foi o dia mais quente da história da Turquia, governada por outro déspota quase tão nocivo quanto Bolsonaro, Recep Erdogan. Recordes de temperatura também foram quebrados em muitas partes dos Estados Unidos nos últimos dias. O mês de junho marcou recordes de temperatura na Rússia, Finlândia, Estônia e Sibéria. De 2014 até hoje ocorreram os sete anos mais quentes da história humana desde que há medições. No Brasil, a Amazônia queimou mais do que em nenhum outro momento dos últimos dez anos, parte do Pantanal virou fogo, fumaça e cinzas, em cenas de apocalipse. A rica Alemanha estava embaixo d’água nos últimos dias. A Polônia, também governada pela direita predatória, estava embaixo d’água. Partes da China, maior potência emergente, hoje disputando a hegemonia do mundo diretamente com os Estados Unidos, está embaixo d’água.

Eu sei, Eduardo, eu sei. Não é justo o que tua geração terá de enfrentar, mas assim é. E tua escolha é lutar ou morrer. Então lute, Eduardo. Aprenda a lutar com teu pai, um guerreiro com um alvo na cabeça, e ensine outros a lutar. Da sobrevivência da Amazônia depende o futuro dos humanos no planeta e também da maioria das outras espécies, tão importantes quanto os humanos e que não fizeram nada para destruir o planeta em que vivem. Mesmo que grande parte das pessoas ainda não seja capaz de compreender, porque isso não é ensinado nas escolas, a Amazônia é o centro do mundo, a Amazônia é um dos centros do mundo.

A floresta, Eduardo, não é o pulmão do planeta, como se costuma dizer. E sim o seu coração, bombeando umidade por um amplo sistema circulatório acima de nossas cabeças, composto pelos chamados “rios voadores”, que cortam os céus alimentados pela transpiração das árvores. Em terra, os rios da Amazônia respondem por 20% do fluxo fluvial global para os oceanos. Isso significa, Eduardo, que sem a floresta sendo floresta, o planeta colapsa.

Mesmo que muita gente ainda não seja capaz ou não queira ligar os pontos, é você e comunidades como a tua, ao lado dos povos originários e das populações tradicionais da Amazônia, que estão no centro do futuro do presente. Quando teu pai move sua cadeira pela floresta e enfrenta os grileiros, ele está lutando por todos nós, humanos e não humanos. Temos uma dívida de gratidão impagável com ele e com todos os defensores e defensoras da floresta, mas ainda assim teu pai está na mira das balas de quem está condenando a vida no planeta.

Neste momento, Eduardo, você deixou o esconderijo e voltou à tua comunidade. Tua avó, uma mulher tão forte, pôde te acalentar pela primeira vez. Esta carta é para você, Eduardo, e é também para dizer ao Brasil e ao mundo, em várias línguas, que um dos defensores da floresta marcados para morrer está de volta a Anapu, com seu filho nos braços. De volta para lutar por uma floresta que se aproxima rapidamente do ponto de não retorno. É dever do Estado brasileiro protegê-lo, é dever das instituições que ainda merecem esse nome obrigar o Estado a protegê-lo, é dever do judiciário fazer justiça —e é dever da comunidade global, se é que ela existe, zelar pela sua segurança.

Proteger a vida da tua comunidade, proteger a vida da tua mãe e de teus irmãos, proteger a vida do teu pai, o líder camponês amazônico Erasmo Theofilo, e proteger a tua vida, Eduardo Theofilo, é responsabilidade de cada brasileiro e de cada brasileira, de cada cidadão e de cada cidadã deste planeta. Você e teu pai não podem ter o mesmo destino de Dorothy Stang e de outros tantos. Somos todas e todos responsáveis pela vida do teu pai e pela tua. E estamos atentos.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de sete livros, entre eles Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago).

Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter, Instagram e Facebook: @brumelianebrum

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