Ministério da Saúde decide exonerar diretor suspeito de cobrar propina ao negociar vacina

CPI deve convocar representante da Davati Medical que disse a jornal ter recebido propostas de propina de Roberto Ferreira Dias, apadrinhado de Ricardo Barros na pasta. Líder do Governo ofereceu dinheiro a deputado Miranda para liberar contrato da Covaxin, diz revista

O líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros.
O líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros.Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Novas denúncias de corrupção na negociação da compra de vacinas contra a covid-19 elevaram ainda mais a pressão contra o Governo Jair Bolsonaro e o líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). O vice-presidente da CPI da Pandemia, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), anunciou nesta terça-feira que vai apresentar um pedido de convocação para que Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da Davati Medical Supply, deponha na comissão. Dominguetti Pereira disse ao jornal Folha de São Paulo que recebeu em fevereiro propostas para pagar propina ao tentar vender ao Ministério da Saúde 400 milhões doses da vacina AstraZeneca ―embora a farmacêutica negue ter relação com essa empresa. A denúncia envolve diretamente o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, que teria, nas palavras de Dominguetti Pereira, proposto o pagamento de um dólar por dose comprada. Horas depois da publicação da reportagem, a pasta indicou que vai exonerar Ferreira Dias, apontado como apadrinhado de Ricardo Barros no ministério.

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Não foi a única bomba da noite desta terça contra o Planalto. A revista Crusoé publicou uma reportagem na qual descreve novos relatos do deputado Luis Miranda, pivô das denúncias sobre supostas irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin pelo Governo. Segundo o texto, o próprio Ricardo Barros estava presente quando foi oferecido propina a Miranda em troca de que ele e o irmão, o servidor do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, deixassem de atrapalhar o contrato bilionário para a importação da Covaxin. À revista, o deputado Miranda não negou o teor da conversa descrita pela reportagem, mas disse que prefere falar sobre o tema com a Polícia Federal, caso seja chamado para tal.

Ainda há detalhes a esclarecer nas duas histórias. Não está clara, por exemplo, porque a empresa Davati Medical Supply, citada pela Folha, se apresentou como negociadora da AstraZeneca. À CPI, a fábrica do imunizante negou mais cedo que tenha qualquer intermediário no Brasil: “Sobre os questionamentos, gostaria de comentar que não houve representante da AstraZeneca e as vacinas são disponibilizadas por meio de acordos com o Ministério da Saúde e com a Fiocruz”. Também chama atenção que em fevereiro, quando o mundo enfrentava uma escassez ainda maior de vacina, alguém estivesse oferecendo um lote tão grande de imunizantes da farmacêutica, que na mesma época atrasava o envio de doses contratadas à União Europeia. No site da Davati Medical Supply não existe qualquer menção à vacina contra a covid-19. O EL PAÍS tentou, sem sucesso, falar com os responsáveis legais da AstraZeneca no país. Documentos nas mãos da CPI mostram que o Ministério da Saúde respondeu às ofertas da Davati.

Seja como for, as novas denúncias incendeiam ainda mais os ânimos em Brasília, horas antes de a oposição apresentar um novo e turbinado pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro. Também está previsto para o próximo sábado uma nova rodada de manifestações contra o Governo, que tenta reagir. Diante da acusação de que irregularidades na compra da Covaxin, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou a suspensão temporária do contrato para a compra de 20 milhões de doses pelo valor de 1,6 bilhão de reais.

A aquisição da Covaxin se tornou o centro da CPI da Pandemia desde a semana passada, sob suspeitas de corrupção e irregularidades levantadas pelo servidor Luis Ricardo Miranda. Seu irmão contou em seu depoimento na última sexta-feira a senadores ter levado as suspeitas ao presidente Jair Bolsonaro. Ainda de acordo com o parlamentar, o mandatário não só sabia do problema como ligou “o rolo” ao líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).

“Um dólar por dose”

De acordo com o relato à Folha de Dominguetti Pereira, da Davati Medical Supply, o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, cobrou uma propina de um dólar por dose durante a negociação. “Eu falei que nós tínhamos a vacina, que a empresa era uma empresa forte, a Davati. E aí ele falou: ‘Olha, para trabalhar dentro do ministério, tem que compor com o grupo’. E eu falei: ‘Mas como compor com o grupo? Que composição que seria essa?’”, contou Dominguetti à Folha. “Aí ele me disse que não avançava dentro do ministério se a gente não compusesse com o grupo, (...) que a vacina teria que ter um valor diferente do que a proposta que a gente estava propondo”, continuou. A conversa, ocorrida em 25 de fevereiro num shopping em Brasília, acabou não rendendo frutos.

Roberto Ferreira Dias entrou no Ministério da Saúde em 8 de janeiro de 2019, na gestão de Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) na pasta. Teria sido uma indicação de Ricardo Barros. “Reitero que Roberto Ferreira Dias teve sua nomeação no Ministério da Saúde no início da atual gestão presidencial, em 2019, quando não estava alinhado ao governo. Assim, repito, não é minha indicação. Desconheço totalmente a denúncia da Davati”, afirmou o hoje líder do Governo em seu Twitter.

A ânsia do Governo na negociação da Covaxin e até das doses nebulosas oferecidas pela Davati Medical Supply contrastam com o tratamento dado à Pfizer e a Coronavac. À CPI da Pandemia, o presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, afirmou que tanto o presidente como o Ministério da Saúde ignoraram ao menos cinco ofertas de vacina ―que significariam milhões de doses― ao longo de 2020. A pasta também demorou para acertar a compra da vacina de tecnologia chinesa produzida pelo paulista Instituto Butantan.

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