Governo Bolsonaro

Ato de Bolsonaro com motoqueiros tem tom de campanha e discurso negacionista

Milhares de motos seguiram em comboio com o presidente por São Paulo em gesto de apoio a uma eventual reeleição. Presidente fez discurso contrário a isolamento e mentiu sobre casos de covid-19

Jair Bolsonaro durante passeio de moto com apoiadores em São Paulo neste sábado (12).
Jair Bolsonaro durante passeio de moto com apoiadores em São Paulo neste sábado (12).Alan Santos / Presidency of Braz / EFE

Milhares de motos barulhentas marcaram mais um ato simbólico em apoio ao presidente Jair Bolsonaro, acossado atualmente pela CPI da Pandemia, que expõe diariamente seus erros na gestão da crise sanitária brasileira. Planejou —e conseguiu— reunir milhares de apoiadores na maior capital do país, no Estado gerido por um dos seus principais opositores políticos, o governador João Doria. A motociata, como ficaram conhecidos estes atos em que motociclistas bolsonaristas saem em carreata, cruzou a cidade de Norte a Sul, passando, no meio, por um pedaço do interior de São Paulo e acabou dominando o noticiário por toda a manhã e início de tarde. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, 12.000 motoqueiros participaram do ato.

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O grupo começou a se reunir às 9h deste sábado (12) em frente ao parque Anhembi, na zona Norte, e seguiu o presidente pela Marginal Tietê até a o km 62 da rodovia dos Bandeirantes (na altura de Limeira). Alguns apoiadores levavam bandeiras do Brasil para saudar o ato ao longo do trajeto. O comboio de motos chegou ao parque Ibirapuera na hora do almoço, onde o mandatário era esperado por outros apoiadores, que se concentraram especialmente na área entre o Monumento às Bandeiras e da Assembleia Legislativa. “Eu sabia que seria grande! A nossa bandeira jamais será vermelha!”, repetia um eleitor entusiasmado quando as motos passavam pela região. Ele, como muitos outros, circulava sem máscaras pelo local, assim como o presidente, que seguiu todo o trajeto sem o acessório, e ainda discursou reiterando que vacinados não deveriam usá-lo.

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O presidente ressaltou novamente que pediu um estudo ao Ministério da Saúde sobre a possibilidade de que pessoas imunizadas ou que já tenham tido covid-19 não precisem mais usar máscaras. “Quem por ventura for contra essa proposta é porque não acredita na ciência, pois o vacinado não tem como transmitir o vírus”, afirmou ele à multidão, em uma nova declaração falsa, que contraria a própria ciência. Ouviu, de volta, gritos de “eu autorizo”. A ideia não tem respaldo científico e é rejeitada por especialistas, que ressaltam a necessidade do uso do acessório mesmo entre os imunizados, devido ao alto número de contágios no país e a baixa cobertura vacinal. Vacinados também transmitem a covid-19. Os países que dispensaram o uso de máscaras já têm índices expressivos de vacinação, mais da metade da população, como no caso dos Estados Unidos.

No berço político de um de seus oponentes, o governador tucano João Doria, Bolsonaro voltou a criticar a quarentena, imposta por governos, como o de São Paulo. “Na Constituição, encontramos como cláusula pétrea o direito ao trabalho, coisa que o governador tirou de vocês, e o direito de ir e vir”, disse ele em outra declaração provocativa. Ninguém, especialmente motociclistas que fazem entregas, foi de fato impedido de trabalhar ou proibido de circular pela cidade durante a pandemia.

Suas teses, no entanto, são aceitas sem contrapontos por seguidores como Elias, que nem na vacina acreditam. Ele carregava um cartaz onde se lia “Por que você de direita está na matriz da vacina [veneno]?”. “Eu tenho 60 anos e não tomei e nem vou tomar”, explicou ele à reportagem. Elias vê manipulação no uso da vacina que ele considera dispensável contra o vírus. Outra eleitora em sua faixa etária, que carregava um cartaz a favor da intervenção militar, também afirmou que não iria se imunizar. “Quem se vacina recebe microchips no braço. Você viu que os celulares ficam grudado no braço de quem toma a vacina?”, disse ela, repetindo a teoria de um vídeo que circulou nas rede bolsonaristas em que uma menina tenta provar que há microchips na vacina ao colocar um celular que fica estático no braço dos pais —e que foi desmentido nas próprias redes.

Nem todos os simpatizantes, porém, seguiam essa tese. As vendedoras Meire e Paula, por exemplo, vieram da zona Leste da cidade para prestigiar o presidente. “Eu simpatizo com ele”, disse Meire, que usava máscara e estava sentada num gramado um pouco longe do carro de som. Questionada por que não ia ouvir de perto o discurso do presidente, ela explicou que preferia ficar afastada porque havia muita gente junta e sem máscara onde estava Bolsonaro. “Se entrar no hospital com esse vírus você não sai mais”, completou Paula.

As vendedoras Meire e Paula, que saíram da zona Leste para o ato de Bolsonaro neste sábado
As vendedoras Meire e Paula, que saíram da zona Leste para o ato de Bolsonaro neste sábadoCamila Svenson

Aceno a motoqueiros e tom de campanha

Embora negue que esteja em campanha eleitoral, Bolsonaro fez um aceno a seu novo grupo organizado de apoiadores, afirmando que isentará as motos de pedágio em “toda e qualquer nova concessão ou renovação de rodovias no Brasil”. Segundo ele, a proposta recebeu o aval do ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, ao lado dele no ato. Além das bandeiras e camisetas com o nome de Bolsonaro 2022, houve quem carregasse uma bandeira de São Paulo com um foto de Bolsonaro ao lado de Tarcísio escrito “Tarcísio governador”.

Em uma fala a religiosos, que também participam do ato e chegaram a batizá-lo de Acelera para Cristo, afirmou que também “não mandou fechar igrejas”. “A igreja, mais que um refúgio do cristão, é o local onde muitas vezes se encontram as forças para continuar vivendo”, declarou ele, contrariando, mais uma vez, cientistas, que afirmam que locais de cultos, geralmente fechados, são ambientes perfeitos para a proliferação do coronavírus e que as igrejas deveriam ser fechadas. “Nós jogamos dentro das quatro linhas da Constituição e esperamos que não seja necessário, quem diria, uma medida legal, mas contundente, para fazer cumprir dispositivos da nossa Constituição”, ressaltou o mandatário, que ainda afirmou que “o meu, o nosso Exército brasileiro” jamais irá às ruas para “deixá-los em casa”, mas poderá, sim, ir às ruas “para garantir o direito de ir e vir”.

Bolsonaro afirmou ainda, em outra declaração grave, que Estados e municípios inflaram o número de mortos por covid-19 para receber mais recursos. Citou, novamente, como fez dias atrás, um relatório que agora chamou de “não conclusivo” do Tribunal de Contas da União que afirma que o mecanismo de repasses de verba federal para os Estados e municípios levava em conta o número de óbitos pela doença. “Houve, sim, uma supernotificação de casos de covid-19. Quem nunca ficou sabendo de pessoas que seu ente querido faleceu de outra doença e colocaram na certidão de óbito covid-19”, disse ele que haja qualquer prova disso. O relatório “não conclusivo” citado por ele foi feito por um auditor bolsonarista que foi afastado pelo TCU do cargo “porque não encontrava respaldo em nenhuma fiscalização do órgão”. E em desafio à CPI da Pandemia, que revela a falta de prioridade na vacina contra a covid-19, defendeu, mais uma vez, o tratamento precoce, considerado inócuo para o combate da doença por diversos estudos.

Embora a imagem do comboio de motos tenha impressionado, o ato não arrastou multidões na chegada do presidente, que levou o ministro Ricardo Salles ao carro de som em que discursava. Salles é alvo de investigação da Polícia Federal. Bolsonaro, seu filho Eduardo e o ministro Freitas foram multados em 552,71 reais pelo Governo de São Paulo por contrariarem as determinações legais do Estado e circularem sem máscara durante o ato.

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