Polícia reprime ato contra Bolsonaro em Recife e governador promete investigar responsáveis

“Policiais atiraram não para dispersar, mas para ferir ou para matar”, diz a vereadora agredida com spray de pimenta no rosto. Desfecho reforça debate sobre influência bolsonarista nas polícias

Manifestantes com boneco de Jair Bolsonaro durante protesto no Rio de Janeiro.
Manifestantes com boneco de Jair Bolsonaro durante protesto no Rio de Janeiro.RICARDO MORAES (Reuters)

Gritos de “fora Bolsonaro” e “Bolsonaro genocida”, entre muitos outros, ecoaram neste sábado em diversas cidades brasileiras na principal convocação às ruas promovida pela oposição ao presidente Jair Bolsonaro desde sua chegada ao poder. Ao todo, 109 municípios de 26 unidades federativas do Brasil —a única exceção foi o Acre— se uniram para demonstrar a insatisfação de cerca de 75% da população —segundo as mais recentes pesquisas de opinião— com relação ao mandatário de ultradireita. Os atos ocorreram em meio a uma CPI no Senado que vem apurando a gestão errática e negacionista da pandemia de coronavírus do Governo, que desde o início vem boicotando tanto medidas de isolamento social como a campanha de vacinação em massa.

A maioria das cidades realizou suas manifestações pela manhã, tendo São Paulo como grande exceção, já que o protesto está marcado para ocorrer agora à tarde. No Recife, o ato foi dispersado por volta das 13h por meio de ação violenta da Polícia Militar. A vereadora Liana Cirne (PT) foi agredida com spray de pimenta no rosto ao tentar frear o avanço da polícia. Com a carteira de vereadora em punho, procurou parar uma viatura quando foi atacada por um policial que, de acordo com ela, não estava identificado. “Agrediram a minha chefe de gabinete e o motorista também”, afirmou ela ao EL PAÍS, por telefone, enquanto comprava soro fisiológico para atenuar as queimaduras causadas pela pimenta. “Corremos para o carro e ficamos uns 15 minutos parados, no meio da rua, sem poder nem dirigir e nem pedir socorro, porque não enxergávamos nada por causa do spray”, conta. Um homem de 51 anos, morador da Zona Oeste da cidade, foi atingido pela ação policial. Uma bala de borracha atingiu o olho esquerdo dele, que acabou perdendo o globo ocular, segundo familiares relataram ao portal Marco Zero. Ele não participava do protesto.

A vereadora afirmou que não estava no protesto, mas prestando suporte jurídico aos manifestantes. Para ela, não houve motivo para justificar a ação policial. “Eles estavam atirando e não era para cima, era em direção aos manifestantes, era realmente para ferir ou para matar”, diz. “Isso não tinha nada a ver com o cumprimento de nenhum dever funcional”. Pouco depois das imagens da agressão à vereadora circularem pelas redes sociais, a vice-governadora Luciana Santos (PCdoB) gravou um vídeo afirmando que seu governo não compactua com a violência. “Nós condenamos esse tipo de atitude e vamos tirar as consequências do acontecido”, disse ela. Horas depois, o governador Paulo Câmara (PSB) também se manifestou, via Twitter. “Determinei a imediata apuração de responsabilidade”, disse ele, que afastou os policiais envolvidos até o final das investigações. O desfecho em Recife, com repressão sem ordem expressa do comando, reforça o debate sobre a influência bolsonarista entre os agentes de segurança. Nas manifestações pró-Planalto, é raríssimo algum caso de hostilidade entre policias e manifestantes, que muitas vezes violam regras de isolamento social.

A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em Pernambuco, órgão do Ministério Público Federal (MPF), diz que imagens do protesto em Recife indicam “uso desproporcional” da força policial. O órgão afirma que receberá as denúncias e as encaminhará às autoridades competentes para atuação. “As imagens divulgadas ao longo do dia indicam uso desproporcional da força por agentes do Estado, inclusive com gás lacrimogênio, spray de pimenta e balas de borracha”, diz o MPF, em nota.

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Os atos do #29MForaBolsonaro e #29MPovoNasRuas, como foram chamados nas redes sociais, testaram a capacidade de mobilização e de discurso da oposição ante as imagens que o bolsonarismo produz, como no passeio de moto protagonizado pelo presidente no Rio na semana passada. Foram convocados pela frente Povo sem Medo, frente Brasil Popular e a Coalizão Negra por Direitos, organizações que congregam centenas de movimentos sociais, e apoiados por todos os partidos de esquerda —mas sem o envolvimento direto deles nem dos maiores sindicatos brasileiros, uma vez que o país volta a temer uma nova forte de contágios pela covid-19.

Devido ao passeio de moto realizado pelo presidente, os antibolsonaristas cariocas estavam mais ansiosos por este sábado do que a média da esquerda. No berço político do clã Bolsonaro, a manifestação ocorreu pela manhã no centro da cidade. “Estou aqui porque este é um Governo genocida e racista que usa a pandemia para destruir saúde, educação, nossas reservas ambientais”, explica a professora Josiane Peçanha, do Movimento Black Lives Matter, durante a marcha.

Nesses 14 meses de crise de saúde, os protestos contra o líder populista de extrema direita se limitaram basicamente às redes sociais. Especificamente, houve alguns panelaços contra Bolsonaro, mas muito mais por causa da pandemia, embora o descontentamento e a indignação estivessem aumentando. Até este sábado, a esquerda, salvo exceções como protestos antirracistas ou protagonizados por torcidas de futebol, vinha se recusando a se mobilizar nas ruas para evitar a propagação da doença. E também para se diferenciar do presidente e de seus seguidores, que no ano passado protagonizaram todo tipo de atos como se não houvesse uma pandemia. Com multidões e sem máscaras, as marchas bolsonaristas contra as medidas de confinamento, o STF, os governadores e a favor do presidente têm sido uma das tônicas da pandemia no Brasil.

A expectativa é que os atos deste sábado se somem à CPI da Pandemia e aumentem ainda mais o desgaste de Bolsonaro, abrindo o caminho para seu impeachment, conforme explicou Guilherme Boulos (PSOL), líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e um dos coordenadores da frente Povo sem Medo, em entrevista ao EL PAÍS.


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