“Tive que carregar uns 10 corpos para dentro do caveirão”: os relatos de tortura no Jacarezinho

Em depoimentos na audiência de custódia, quatro presos relatam as agressões que sofreram da polícia civil ao serem detidos. “ [Eles queriam] pegar minha cara e tacar na tripa do moleque que tava pra fora”, diz um deles

Policiais apontam suas armas durante operação na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em 6 de maio. No vídeo, detidos durante a ação prestam depoimento durante audiência de custódia.FOTO: Ricardo Moraes / Reuters | VÍDEO: TJ-RJ / EL PAÍS

— Em algum momento você teve que carregar corpo? Pode contar um pouco como é que foi isso?

— Tinha vários corpos no beco e ele [o policial] falou “você vai ser obrigado a levar esses corpos aqui”. Eu falei “que isso, vai complicar levar esses corpos”. Já comecei a chorar, e eles “chora não!”, já querendo pegar minha cara e tacar na tripa do moleque que tava pra fora. Falei “não vou levar esse aí não”, aí ele começou a me bater, falando que eu era obrigado a levar. E eu falei “não vou levar, não vou levar, não vou meter a mão nisso daí, não”. “Bora, mete a mão logo!”. Aí começou várias porradas pra gente meter a mão. Mais de 10 corpos ele fez isso comigo.

O relato acima consta no depoimento, dado em audiência de custódia, de um dos seis presos na operação da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, no dia 6 de maio. A ação, a mais letal da história do Estado, deixou um saldo de 28 mortes, um rastro de terror e muitos esclarecimentos a serem dados pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio. Imagens da chacina e relatos dos moradores, que denunciaram execuções extrajudiciais e manipulação indevida dos corpos, levados por agentes até os blindados da corporação, desmentem a versão oficial de que a ação se baseou no princípio da legítima defesa. Os relatos dos detidos reforçam o entendimento de que houve uma violação dos direitos humanos naquela quinta-feira.

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AME5642. RÍO DE JANEIRO (BRASIL), 06/05/2021.- Habitantes de una favela observan a miembros de la Policía que realizan un operativo policíal contra una banda de narcotraficantes hoy, en Río de Janeiro (Brasil). Una violenta operación policial realizada este jueves contra un grupo de delincuentes en una favela de Río de Janeiro dejó al menos 25 muertos en medio de un intenso tiroteo y en momentos en que este tipo de acciones están restringida por la justicia en la ciudad más emblemática de Brasil. Los datos oficiales señalan que un policía perdió la vida minutos después de recibir un impacto en la cabeza y que 24 sospechosos fallecieron durante el operativo en la favela de Jacarezinho. EFE/ André Coelho
Em afronta ao STF, polícia do Rio impõe sigilo a operação do Jacarezinho e outras ações na pandemia por cinco anos
Relatives pray and mourn during a Mass for the victims of a deadly police raid, outside the Nossa Senhora Auxiliadora church in the Jacarezinho favela of Rio de Janeiro, Brazil, Wednesday, May 12, 2021. A bloody, hours-long gun battle last Thursday, left authorities saying the police mission killed two dozen criminals while residents and activists claimed human rights abuses. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
Editorial | Violência policial no Brasil
View of the scene where an alleged drug trafficker was reportedly killed by civil police in Jacarezinho favela, Rio de Janeiro, Brazil on May 6, 2021. - A massive police operation against drug traffickers in a Brazilian favela Thursday left 25 people dead, turning the impoverished Rio de Janeiro neighborhood into a battlefield and drawing condemnation from rights groups. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP)
“Cano estourado, porta com 40 buracos de tiro, poça de sangue no chão. É desolador ver isso no seu espaço”

Os vídeos de quatro depoimentos foram divulgados primeiramente pelo portal UOL e acessados posteriormente pelo EL PAÍS e outros veículos de comunicação através do Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). Neles, os presos relatam terem sofrido uma série de agressões quando já estavam sob a custódia da polícia. Um deles, o que afirmou acima ter sido torturado e obrigado a levar os corpos de pessoas mortas pelos agentes, detalhou as agressões sofridas: “Na minha cabeça, me deu vários chutes aqui, me botou de costas e deu socos nas minhas costas”, explicou durante o interrogatório da audiência de custódia, procedimento no qual pessoas detidas em flagrante são levadas em até 24 horas diante um juiz, que deve decidir sobre sua prisão. É também um espaço no qual os detidos podem relatar, com segurança, eventuais abusos policiais: “Minha cabeça até aberta aqui, pode colocar a mão pra ver”, acrescentou o detido.

Outro detido chegou a afirmar ter medo de contar o que havia acontecido. Mas, depois de convencido pela autoridade que não havia o que temer, relatou ter sido espancado “com fuzil na cabeça, nos braços e nas costas”. Ele descreveu o agente como sendo “branco, olhos claros e alto”, e assegura que poderia identificá-lo.

Um terceiro detido contou ter sido agredido “vários pontos”, com “bambuzada, chute, tudo”, por diversos policiais. “Eram mais de 10, 15. Toda hora sobe dois, três e me dá um chute na cara”, detalhou. Ainda relatou que, no exame de corpo de delito, foram tiradas fotografias de seu rosto inchado. Questionado se havia dado a mesma versão após levado à delegacia, respondeu: “Não. Como que relata? O cara lá dentro quase matando nós.“

Outro dos presos relatou ainda ter recebido “chute, só chute”. Assim como outro detido, também contou ter sido obrigado a carregar os corpos de quem morreu. “Tive que carregar uns 10 corpos para dentro do caveirão”, relatou. Entre as várias imagens divulgadas durante a operação, também é possível ver agentes da Polícia Civil carregando os corpos, inviabilizando as perícias que, em tese, devem ser realizadas depois de uma operação policial.

Policiais carregam corpos de pessoas mortas durante a operação do Jacarezinho, em 6 de maio.
Policiais carregam corpos de pessoas mortas durante a operação do Jacarezinho, em 6 de maio. RICARDO MORAES (Reuters)

O material deve ser levado em conta pelo Ministério Público, que, pressionado pela opinião pública e por entidades dos direitos humanos, formou uma força-tarefa para apurar o massacre. O organismo, que tem como atribuição constitucional fazer o controle externo das atividades policiais, quer investigar ao longo de pelo menos quatro meses as denúncias de execuções e abuso policial, a morte do agente André Frias e a tentativa de homicídio contra outros cinco policiais, duas tentativas de homicídio a passageiros do metrô e uma eventual irregularidade na remoção dos corpos.

Mas o momento posterior à operação vem sendo marcado por uma série de afrontas da Polícia Civil ao Supremo Tribunal Federal, acusado por um agente de fazer “ativismo judicial”, e também à transparência. A corporação impôs um sigilo de cinco anos aos documentos relacionados à chacina do Jacarezinho e estendeu o segredo a todos os papéis relacionados a operações policiais durante a pandemia, a partir de 5 de junho de 2020. Nesse dia, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, concedeu uma liminar —posteriormente respaldada pelos demais ministros— que restringe as ações durante a crise sanitária, determinando que elas sejam feitas em casos excepcionais e depois de uma justificativa ao Ministério Público do Rio.

Entidades de direitos humanos, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, vem acusando a Polícia Civil de querer ocultar as informações daquele dia. Com a divulgação dos depoimentos dos presos, fica cada vez mais difícil manter os abusos policiais cometidos naquele 6 de maio nas sombras.


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