Governo Bolsonaro
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Bolsonaro humilha o Brasil ao defini-lo como “republiqueta”

Aqueles que continuam acreditando que as ameaças de golpe de Bolsonaro são bravatas inofensivas de um desequilibrado estão contribuindo para que o golpe se realize

O presidente Jair Bolsonaro durante uma cerimônia de liberação de recursos para Saúde no combate à covid-19, nesta terça-feira, 11 de maio.
O presidente Jair Bolsonaro durante uma cerimônia de liberação de recursos para Saúde no combate à covid-19, nesta terça-feira, 11 de maio.UESLEI MARCELINO (Reuters)

Não me lembro, em meus longos anos de jornalismo, de um chefe de Estado desqualificando o seu próprio país. É o que acaba de fazer o presidente Jair Bolsonaro, que chamou o Brasil de “republiqueta”. E ameaçou salvá-lo com um golpe de Estado. Na verdade, para o presidente brasileiro todos os países com democracia plena e instituições independentes não passam disso, de republiquetas. Por isso voltou a ameaçar os valores democráticos, que considera inúteis e daninhos. Bolsonaro só acredita num país autoritário em que para governá-lo não se deve perder tempo tendo que aceitar a autonomia das demais instituições.

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Para ele, os freios e contrapesos ao poder que constituem a essência da democracia, como o Congresso e o Judiciário, são não apenas inúteis como impedem de governar sem ter de prestar contas a ninguém, como um novo Napoleão tropical. E já está claro que seu plano é acabar com todos esses estorvos das democracias organizando um plano para poder governar com poderes absolutos.

Aqueles que continuam acreditando que as ameaças de golpe de Bolsonaro são bravatas inofensivas de um desequilibrado estão contribuindo para que o golpe se realize. Uma autoridade como o magistrado Edson Fachin, uma das figuras mais destacadas do Supremo Tribunal Federal, se manifestou sem meias tintas a respeito, dizendo que o Brasil vive um momento em que “pode sofrer um golpe”. E acrescenta: “O populismo totalitário ronda a democracia brasileira.” Esse alerta é fundamental, pois é a antessala do golpe. Fachin assumirá também a presidência do Tribunal Superior Eleitoral e terá a responsabilidade de conduzir o processo eleitoral da eleição presidencial do próximo ano, que deverá ser uma das mais dramáticas e incertas da história moderna.

Daí a grave responsabilidade dos políticos e juízes se ignorarem que as ameaças ditatoriais de Bolsonaro são reais e não um jogo de retórica. Não por acaso o presidente já adiantou que se não houver voto escrito em vez do tradicional das urnas eletrônicas “não haverá eleições”, o que em sua filosofia significa que não está disposto a deixar o poder mesmo que perca as eleições e menos ainda se tiver de deixá-lo nas mãos do Lula ressuscitado, que teme mais do que o demônio.

Isso foi confirmado pelo jornal O Estado de S. Paulo em um lúcido editorial em que alerta que dificilmente Bolsonaro, caso perca as eleições, “passe a faixa presidencial a qualquer um que as ganhe”. Por isso é grave que se continue defendendo a enganosa ideia de que é melhor deixar o presidente sangrar até as eleições para poder derrotá-lo com mais facilidade. É uma falácia que pode custar caro. Um animal ferido é sempre mais perigoso do que saudável.

Nunca, depois da ditadura militar, a responsabilidade das instituições foi tão grande como neste momento de incerteza democrática. Caso se equivoquem, amanhã poderiam se arrepender de ter subestimado a força de um presidente que nem sequer esconde seus planos golpistas nem tem escrúpulos em ofender o país aos olhos do mundo qualificando-o depreciativamente de republiqueta e cuja única alternativa que sabe oferecer é, como fez com a pandemia, a cloroquina milagrosa de um golpe autoritário para eternizar-se no poder.

O Brasil ainda tem tempo de se livrar de seus demônios que estão criando miséria e desalento e assassinando sua esperança. Que não o esqueça a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia no Senado, cuja responsabilidade neste momento em que o país está jogando sua democracia é crucial.

Se fizesse ameaças sem medidas concretas como outras vezes, poderia amanhã arrepender-se de não ter ajudado o país a sair do pesadelo que o aflige e que ameaça voltar aos tempos sombrios do passado.

Um país chamado a sentar-se à mesa dos grandes que hoje decidem o destino do mundo não pode se deixar humilhar e empobrecer reduzindo-se a uma republiqueta incapaz de sair do inferno astral ao qual foi arrastado pela política genocida e desequilibrada do capitão com seus sonhos imperiais. Bolsonaro, ao transformar o Brasil em um boneco, zomba e se diverte ao mesmo tempo com ele.

Até quando?

O presidente é a essência da antidiplomacia. Diz abertamente o que pensa e acredita. Daí sua periculosidade e o risco de não ser levado a sério. Dizer que é um louco inofensivo poderia ser um erro fatal. Com seus complexos, o capitão acredita no que diz, mesmo quando afirma que a ditadura militar, que é seu verdadeiro sonho, caiu no erro de “ter matado pouca gente”. Defensor dos torturadores que são seus ídolos, Bolsonaro jamais poderá aceitar um Brasil livre, defensor das liberdades.

Seus sonhos são de morte.

Está deixando isso claro com sua conduta criminosa durante a pandemia que, segundo os especialistas, poderia terminar o ano com um milhão de mortos. Tudo porque as autoridades não souberam deter a tempo as ameaças do presidente, que hoje se revelam como um inferno de morte. Não, a culpa não é só dele, mas também e principalmente daqueles que subestimaram as zombarias e as receitas milagrosas do presidente que chegou a rir de quem procurou se defender confiando na ciência e na medicina e não nos remédios fantasiosos do presidente terrivelmente negacionista que chegou a zombar do que acabou sendo um assassinato premeditado.

Os poderes que já deveriam ter contido seus instintos de morte com a Constituição na mão ainda precisam de mais provas? Essa Constituição que ele despreza e sonha em mudar para que em seus delírios o Brasil deixe de ser uma “republiqueta”. Ele não anunciou, assim que foi eleito presidente, que veio para “desconstruir” o país, eufemismo para dizer que seu programa era “destruir” a democracia da qual foge como da peste?

Continuar com a falácia de que a democracia no Brasil está consolidada pode acabar sendo um erro fatal. O presidente é uma ameaça real e perigosa que se potencializa cada vez que as instituições o desqualificam e o consideram inofensivo.

Tudo isso me faz lembrar de Ángel, o porteiro do meu condomínio em Madri que, considerado um pessimista inveterado, sempre respondia com certeza: “Esperem e verão”.

Ele tinha razão. Às vezes o otimismo irresponsável leva às maiores tragédias. O Brasil ainda está a tempo de não acreditar em contos de fadas inofensivos.

Então está tudo perdido? Não. De uma forma ou de outra o Brasil acabará ressuscitando dos escombros aos quais uma política de morte e destruição o conduziu. O país ainda mantém milhões de pessoas feridas e abandonadas à própria sorte que, embora em doloroso silêncio, ainda têm forças para defender seu direito de viver em paz e de poder desfrutar do pouco ou do muito que possuem. Elas têm o direito de desejar para seus filhos um futuro em que, como profetizou Isaías na Bíblia, “as espadas se converterão em arados para lavrar a terra e os lobos comerão junto com os cordeiros” (Is.65,25).

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