Butantan afirma que ataques de Governo Bolsonaro à China já atrapalham vacinação

Dimas Covas, presidente do instituto, diz que entraves diplomáticos causados por falas de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes têm causado mudanças nos prazos e no volume de insumos recebidos. Instituto diz que só tem imunizante até 14 de maio

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan.
Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan.Gobierno de São Paulo

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O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou nesta quinta-feira que os ataques do Governo Bolsonaro à China já provocam atrasos e reduções na entrega das matérias-primas necessárias para a confecção das vacinas. Segundo ele, só há doses disponíveis de Coronavac, o principal imunizante usado no país, até o próximo dia 14 de maio. O instituto trabalhava com a expectativa de receber uma nova remessa de insumos (IFA), usados também na produção da AstraZeneca, até o dia 10 de maio, data que foi postergada para o dia 13 de maio. O volume inicial, que era de 6.000 litros, também foi reduzido para 2.000 litros. “Claramente tem aí mudanças que não são mudanças de produção do Sinovac [laboratório chinês que faz parceria com o instituto], mas sim consequências da falta de alinhamento do Governo Federal”, afirmou, após entregar um milhão de doses da Coronavac ao Ministério da Saúde nesta manhã.

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Dimas Tadeu Covas, director of Instituto Butantan gestures as he speaks during an interview with Reuters in Sao Paulo, Brazil July 28, 2020. Picture taken July 28, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
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Depois de o Ministro da Economia, Paulo Guedes, ter sido gravado no final de abril afirmando que os chineses “inventaram” o coronavírus e que a vacina desenvolvida pelo país asiático contra a doença é menos efetiva que o imunizante da norte-americana Pfizer —ele depois admitiu ter usado uma “imagem infeliz”—, Bolsonaro insinuou na quarta-feira, sem mencionar a China, que esse vírus teria sido criado “em laboratório”. “É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu o seu PIB? Não vou dizer para vocês”, disse o presidente. A China foi o país que apresentou o maior crescimento na economia em 2020.

Dimas Covas rebateu as afirmações do presidente nesta quinta-feira: “Essas declarações contêm inúmeras inverdades. Primeiro de que o vírus foi produzido na China e que faz parte de uma guerra biológica, uma coisa mirabolante”. O governador de São Paulo, João Doria, opositor político de Bolsonaro, manifestou sua “preocupação” com a postura do Governo Federal. “Isso criou já um profundo mal estar na chancelaria, na diplomacia com a China”, lamentou o governador, durante a entrega das novas doses de Coronavac.

As declarações também geraram descontentamento no agronegócio brasileiro. Nesta quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos Alberto França, foi questionado sobre a fala do presidente por senadores em uma sessão da Comissão de Relações Exteriores, para a qual havia sido previamente convocado. A presidente da comissão, senadora Kátia Abreu, representante dos produtores rurais, afirmou que recebeu inúmeras mensagens “do setor do agronegócio” que expressavam preocupação com a declaração do presidente. O chanceler, entretanto, minimizou a fala e disse ter “muita confiança de que a parceria [com a China] será cada vez maior”.

Presente na última terça-feira na CPI da Covid-19, que apura no Senado a responsabilidade de Bolsorano na pandemia, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta apontou que o Itamaraty e o deputado Eduardo Bolsonaro também prejudicaram as relações com a China quando ele estava no ministério. Segundo ele, a ausência de um documento do Brasil endereçado ao país asiático foi a semente da crise diplomática que depois trouxe problemas para as importações de insumos médicos ao país.

O colegiado também externou sua preocupação, na quarta-feira, de que o embate com o país asiático dificulte a importação da matéria-prima das vacinas da China neste momento em que há escassez de doses no país. “Não é o momento da gente cutucar ninguém”, bradou o presidente Omar Aziz, que avalia que a postura pode trazer outros problemas por conta da importância da China como parceira econômica do país. O ex-chanceler Ernesto Araújo será convocado para depor na próxima semana e deverá ser questionado justamente sobre os conflitos com a China em meio à crise. “Um parceiro comercial como a China não é possível desprezar”, argumentou Aziz.

Nesta quinta, João Doria disse que voltou a procurar diretamente a Embaixada da China no Brasil para salientar que o “Butantan não tem nada a ver” com as declarações do presidente. “Nos ficamos à mercê dessa situação. Depois do dia 14, não temos mais matéria-prima para processar. Temos que debitar isso no nosso Governo Federal, que, infelizmente, tem remado contra”, insistiu Dimas Covas.

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