Cidades paralisam vacinação por falta de imunizante e Pazuello acena com 230 milhões de doses até julho

Após pressão por demissão de ministro, pasta diz que vai assinar contrato para adquirir vacinas russa e indiana nos próximos dias. Salvador, Rio e Cuiabá já anunciaram paralisação ou restrição da campanha

Geralda Olímpio, de 83 anos, recebe vacina contra a covid-19 em sua casa, no Rio de Janeiro.
Geralda Olímpio, de 83 anos, recebe vacina contra a covid-19 em sua casa, no Rio de Janeiro.Bruna Prado (AP)

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Cerca de um mês depois do início da vacinação contra a covid-19 no Brasil, a escassez de imunizantes disponíveis fez algumas cidades anunciarem a interrupção temporária da aplicação da primeira dose em grupos prioritários. O problema é enfrentado por capitais ―a exemplo de Salvador, Rio de Janeiro e Cuiabá― e também por cidades menores, como as paulistas Rio Claro e São Sebastião da Grama. O cenário tem elevado ainda mais a pressão política sobre o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já investigado em um inquérito da Polícia Federal e ameaçado por uma CPI no Senado pelas ações da pandemia. Nesta semana, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) chegou a pedir o afastamento do general “por não acreditar que a atual gestão reúna as condições para conduzir este processo” de vacinação. Em resposta à cobrança de prefeitos, governadores e secretários da Saúde, o ministro prometeu que, até o fim de julho, serão distribuídas 230,7 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 aos Estados. Estão incluídas nesta conta as vacinas da Fiocruz e do Butantan, além de 20 milhões de doses da indiana Covaxin e de 10 milhões da russa Sputnik V. As duas últimas ainda não têm autorização de uso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nem contratos formalizados pelo Ministério da Saúde. A expectativa é de que esta formalização ocorra nos próximos dias.

Segundo a pasta, novos lotes devem ser distribuídos aos Estados na semana que vem, a partir de 23 de fevereiro, para dar continuidade ao calendário de imunização. Mas gestores locais querem um cronograma mais definido para planejar suas campanhas, ampliar estruturas logísticas e, assim, acelerar a imunização. Pazuello prometeu enviar um cronograma de fevereiro e março no fim do dia. Outro mais amplo, até julho, deve ser enviado até segunda. Enquanto as vacinas não chegam ―estão previstas 11,3 milhões de doses ainda neste mês―, a já caótica campanha de vacinação brasileira enfrenta suspensões temporárias em várias partes do país. É o caso da cidade do Rio de Janeiro, que interrompeu nesta quarta-feira (17) a aplicação da primeira dose em idosos. Deve seguir administrando apenas a segunda dose até a próxima semana, quando espera receber mais vacinas. Só então poderá retomar a imunização, desta vez contemplando idosos com 82 anos de idade. “Recebi a notícia de que não chegaram novas doses. Teremos que interromper amanhã nossa campanha. Hoje vacinamos pessoas de 84 anos e amanhã de 83. Estamos prontos e já vacinamos 244.852 pessoas. Só precisamos que a vacina chegue”, escreveu o prefeito Eduardo Paes no Twitter na última segunda (15).

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No Mato Grosso, a capital Cuiabá também precisou restringir a vacinação contra a covid-19 por falta de doses. A cidade focará até a próxima terça na vacinação de pessoas com mais de 85 anos que estão acamadas, mas já suspendeu temporariamente a primeira dose em profissionais da saúde e idosos que podem se dirigir até o polo de vacinação, a ser retomada tão logo cheguem os imunizantes. Em Salvador, capital da Bahia, as vacinas relativas à primeira dose acabaram na terça (16). Assim, a imunização segue apenas para os profissionais da saúde e idosos que precisam receber a segunda dose. Seguem esperando parte dos profissionais de saúde ainda não contemplados e idosos de 73 a 84 anos. “Estamos aguardando uma nova distribuição do Governo federal para que possamos dar prosseguimento ao cronograma de vacinação em nossa cidade”, disse o prefeito Bruno Reis no Twitter.

Em entrevista ao EL PAÍS, Reis disse que Salvador recebeu 116.000 doses e que, agora, a estrutura que montou para a campanha ―com drive thru, aumento de vacinadores e criação de novos postos de vacinação― está subutilizada, servindo apenas para a aplicação da dose de reforço. “Só não desmobilizamos a logística que tínhamos porque ela está sendo utilizada na segunda dose, mas estamos funcionando de forma subdimensionada, tendo em vista que foi montada uma grande estrutura pra aplicar rapidamente as doses repassadas, para imunizar mais rapidamente. Esta estrutura agora está quase parada”, diz.

O prefeito cobra um cronograma claro do Ministério da Saúde, com datas precisas para o envio de novos lotes para que os gestores locais possam de fato planejar suas campanhas. “A minha maior dificuldade hoje é a falta de regularidade dos envios”, aponta. Ele diz que a capital da Bahia já chegou a vacinar 70.000 pessoas por dia na campanha da gripe e que é possível chegar a 100.000 por dia com ajustes logísticos, mas com a escassez de doses, a campanha contra a covid-19 chegou ao máximo de 10.700 vacinados em um dia. “Por que na covid-19 tem demora? Justamente para não imunizar quem não está no grupo prioritário. Se temos a possibilidade de abrir para todo o grupo acima de 60 anos, a conferência do requisito da pessoa é mais fácil e ganhamos mais tempo porque não precisa ter uma fiscalização tão grande como temos hoje para evitar o fura-fila”, diz. Segundo ele, sem um cronograma definido, fica complicado para as cidades ―as responsáveis pela vacinação de fato― traçarem seu plano operacional e mobilizar recursos no momento correto. “Hoje temos aqui toda estrutura sem vacina, e isso tem um custo”, completa.

A reivindicação dos prefeitos é por uma celeridade maior no envio das doses, mas também um calendário com datas definidas dos repasses. No país, há vários municípios que ainda não suspenderam a vacinação, mas estão usando as últimas doses em estoques nesta semana. Em Fortaleza, as doses disponíveis devem durar apenas mais quatro dias. Já Curitiba estima que os estoques só suprem a demanda até a sexta-feira. A questão levou colegiados de prefeitos a emitirem notas e pedirem a saída do ministro Pazuello. “Seu comando não acreditou na vacinação como saída para a crise e não realizou o planejamento necessário para a aquisição de vacinas. Todas as iniciativas adotadas até aqui foram realizadas apenas como reação à pressão política e social, sem qualquer cronograma de distribuição para Estados e Municípios”, afirma a CNM. Em nota, o Ministério da Saúde disse que “à medida em que os laboratórios disponibilizarem novos lotes de vacina, novas grades de distribuição e cronogramas de vacinação dos grupos prioritários serão orientados pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI)”.

Desde janeiro, os governadores já vinham pressionando Pazuello a apresentar um cronograma da entrega de vacinas. Nesta quarta-feira (17), o ministro recebeu governadores, prefeitos e gestores de saúde para uma reunião sobre o tema. Anunciou a entrega de mais 11,3 milhões de doses ainda em fevereiro e previu chegar a 230 milhões de doses até o fim de julho. Dessas vacinas anunciadas para fevereiro, 9 milhões viriam do Butantan. Uma quantidade superior às 3,4 milhões de doses previstas pelo instituto, conforme noticiou a Folha de S. Paulo. O Butantan anunciou ainda ter reforçado as equipes de produção da vacina para adiantar em um mês a entrega total ao Governo Federal. Depois de muita pressão política, o ministério assinou nesta semana o contrato para a compra adicional de 54 milhões de doses da Coronavac. Elas deveriam ser entregues até o fim de setembro. Segundo o instituto, agora, este quantitativo deve ser liberado até o fim de agosto.

A presença dos presidentes do Butantan e da Fiocruz, Dimas Covas e Nísia Trindade, na reunião com o ministro é o que tem dado segurança aos governadores sobre o cronograma apresentado. Se por um lado as respostas de Pazuello não apagam completamente a insatisfação de alguns gestores, por outro representa um passo importante na retomada do diálogo, que, segundo reclamou a frente de prefeitos, estava interrompido. “A reunião ter a presença de todas as partes [inclusive Fiocruz e Butantan] nos trouxe mais esperanças. Agora nós temos o que cobrar, temos um cronograma que antes não existia”, afirma Welington Dias, governador do Piauí, e coordenador do grupo de vacinas no Fórum Nacional de Governadores. Embora a apresentação do ministério inclua vacinas ainda não contratadas oficialmente e sem o aval da Anvisa, o governador diz que os quantitativos previstos pela Fiocruz e Butantan dão a possibilidade de seguir com a vacinação suspensa em várias cidades. “Até abril, teremos 104 milhões de doses que permitem concluir a primeira fase, com a vacinação de 50 milhões de brasileiros. Vacinar essa primeira fase que hoje, que responde a mais de 70% das internações e óbitos nos permitirá uma chance de redução [dos indicadores da pandemia]”, diz.

O presidente do Conselho Nacional de Secretários Municipais da Saúde, Wilames Freire, acredita que com a apresentação do cronograma de entrega mais detalhado nos próximos dias, será possível usar as doses disponíveis sem guardar a reserva para a segunda aplicação de reforço. Também destacou que o ministro sinalizou que a União voltará a custear leitos de UTI para covid-19, cujo financiamento caiu pela metade neste mês em relação a janeiro com a falta de renovação da homologações por problemas orçamentários. “Estamos trabalhando em uma portaria interna para um alinhamento conceitual, disciplinando o pagamento dos leitos de UTI como pós-produção. O que produziu no mês será pago no mês seguinte”, explica.

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