Pandemia de coronavírus

Amazonas vive a dor que não cessa após um mês de colapso na saúde

Com casos de covid-19 ainda em alta e sob os efeitos da crise que culminou na falta de oxigênio para doentes, Estado decide flexibilizar o comércio. Somente neste início de 2021, montante de vidas perdidas é quase o dobro do registrado durante todo 2020

Enfermeira Angela Maria Reis se prepara para tomar conta de Erystenys Reis da Costa, 45, contagiada pela covid-19, em Manaus.
Enfermeira Angela Maria Reis se prepara para tomar conta de Erystenys Reis da Costa, 45, contagiada pela covid-19, em Manaus.BRUNO KELLY / Reuters
Steffanie Schmidt

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Um mês depois da catastrófica falta de oxigênio medicinal nos hospitais de Manaus e do interior do Amazonas, ocorrida em 14 de janeiro, o Estado já registrou quase 4.000 óbitos por covid-19. Somente neste um mês e meio de 2021, o montante de vidas perdidas é quase o dobro do número registrado durante todo o ano de 2020, segundo dados da Fundação de Vigilância Sanitária do Amazonas (FVS-AM), totalizando 10.100 mortes desde o início da pandemia. Embora a corrida pelo oxigênio tenha sido freada, a situação ainda não é estável, com hospitais lotados e o consumo diário do gás medicinal atingindo a média de 86.000 metros cúbicos, 10.000 a mais do que o registrado no pico da crise. Ainda assim, o Governo do Estado anunciou no último sábado (13) a flexibilização das regras mais rígidas de circulação que havia adotado, permitindo a abertura do comércio no sistema drive-thru e liberou o transporte de cargas de produtos no período de 24 horas. A medida passou a valer na última segunda-feira (15), e segue pelos próximos sete dias.

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“Nas últimas quatro semanas atingimos índice de isolamento social de 50%, chegando a um pouco mais de 60% em alguns dias. Esse não é o ideal, mas a gente entende o esforço e faz um apelo à população para que as medidas de isolamento sejam adotadas no dia a dia”, afirmou o diretor técnico da FVS-AM, Cristiano Fernandes, durante live realizada no sábado (14) para anunciar as medidas de relaxamento. O quadro apresentado pelo diretor aponta o “aumento da frequência de prováveis reinfecções” e “o aumento de casos em duas regiões do interior do Estado”, que ainda permanecem na fase roxa, a mais grave do plano de contingenciamento.

O Amazonas apresentou uma tendência de redução de 21% na media móvel de contaminação nos últimos 14 dias, mas ainda está em platô elevado de número de casos com uma taxa de transmissão de 1,01, ou seja, cada 100 pessoas infectadas podem transmitir para 101 em um intervalo de uma semana. “Isso caracteriza alta transmissão. Ainda é um perfil epidemiológico que preocupa, apesar dessa desaceleração. Não é o momento de relaxarmos, mas de mantermos nossas medidas de prevenção para que consigamos diminuir ainda mais o risco de transmissão. Os 61 municípios do interior continuam na fase roxa. Manaus regrediu para a fase vermelha que ainda é grave”. A apresentação técnica dos dados, feita pelo diretor da FVS-AM, Cristiano Fernandes, parecia desconexa com a decisão do governador Wilson Lima, que estava ao lado dele durante o anúncio das medidas de flexibilização no Estado.

Pressionado pelo comércio e com dez pedidos de impeachment contra ele protocolados na Assembleia Legislativa, o governador do Amazonas decidiu pelo funcionamento do setor, o que incentivou uma parte dos estabelecimentos a já funcionarem de forma irregular no mesmo dia, antes ainda da validação do decreto. Na rua do Comércio, em Manaus, por exemplo, restaurantes atendiam clientes nas mesas normalmente, e lojas recebiam pessoas.

A vacinação em massa de pelo menos 70% da população elegível de Manaus e das sete cidades do entorno, impactadas diretamente pela capital, é a única solução plausível para puxar a curva de contaminação para baixo, na avaliação do epidemiologista Jesem Orellana. “Para diminuir casos novos, reduzir casos graves e a mortalidade, essa é a solução. Isso devolve a dinâmica à economia, a possibilidade do empresário pensar nos próximos meses sem a preocupação de lockdown. Hoje temos centenas de pessoas passado fome por conta da negligência de autoridades responsáveis pela tragédia da primeira e segunda onda, que seguem impunes”, afirmou em live realizada na noite de sábado (13).

Ele explica que focar onde a pandemia está castigando, ou seja, priorizar regiões como o Amazonas, é seguir o critério epidemiológico, técnico e não o político. “O critério usado hoje pelo Ministério da Saúde, na minha avaliação e de dezenas especialistas, é equivocado. Quando você tem escassez de vacinas e pulveriza essa distribuição não há a menor possibilidade de alcançar imunidade coletiva ou controlar a transmissão. Isso joga fora a oportunidade de focar no problema principal para dar conta depois dos problemas menores”.

Até o momento, 214.534 doses foram aplicadas em todo Amazonas até terça (16), sendo 202.828 primeiras doses e 11.706 segundas doses.

Unidades lotadas

A atendente de bar e restaurante, Patrícia Pereira Corrêa, 52, gastou 100 reais com transporte por aplicativo no início da tarde de domingo (14), para conseguir atendimento para o marido, Sílvio César de Figueiredo, 48, percorrendo três unidades de saúde para achar um lugar que pudesse atendê-lo. Ela está desempregada desde o início da pandemia e dependia do auxílio emergencial para sobreviver. “Hoje a gente conta com ajuda de um e de outro. Nem tenho esse dinheiro, mas ele estava passando muito mal, com os dedos roxos”.

Atualmente, a fila de espera por um leito para covid-19 é de 227 pacientes, sendo 149 para leitos clínicos e 78 para UTI. Segundo o Governo do Estado, a fila tem diminuído: há 18 dias, 659 pessoas aguardavam uma vaga. Segundo o órgão, 542 pacientes com covid-19 já foram transferidos do Amazonas para outros Estados. Desse total, 271 pacientes (50%) receberam alta hospitalar, 242 retornaram ao Estado e 62 faleceram (11,43%).

O Governo afirma que no momento as unidades de saúde da capital e do interior estão abastecidas de oxigênio, mas a demanda pelo insumo ainda está acima da média histórica, o que exige que ele seja levado pela White Martins de outros Estados a Manaus. O Governo prevê instalar 74 usinas de oxigênio, sendo que 28 delas já se encontram em operação. “A solução para o problema passa pela queda do número de internações, que puxará para baixo o consumo de oxigênio das unidades. Nessa frente, o Governo se esforça, com o auxílio do Governo Federal e dos municípios, para acelerar ao máximo a imunização da população contra a Covid-19”, informou o órgão em nota.

Impactos psicológicos

Diante de tantas mortes e do trauma causado por um sistema de saúde em que não se pode confiar, os impactos psicológicos são muitos, conta a psicóloga Carolina Omena, que vem atuando de forma voluntária no atendimento online de pacientes em Manaus desde o início do ano. “Atendi recentemente o filho de uma senhora de 59 anos que foi internada com covid-19 depois de ter rodado por vários hospitais. Dias depois de conseguir o atendimento, ele pode entrar no hospital e soube que a mãe ficou durante quatro dias no corredor sem assistência, mesmo com a saturação oscilando entre 45% a 50% e teve que dividir oxigênio com outras pessoas. Ele conta que tinha que abraçar a mãe para que ela não visse gente morrendo sem respirar. O que mexeu muito com ele foi ver que tinham várias pessoas que estavam há mais tempo ali e ainda não haviam sido atendidas”, afirma Omena. O trauma permaneceu no paciente, mesmo diante da recuperação da mãe que foi transferida para Recife (PE) e aguarda o retorno para Manaus.

Segundo a psicóloga, o número de atendimentos de casos de pessoas com transtornos de ansiedade, pânico e depressão, todos relacionados à covid-19, tem aumentado. As perdas, a impossibilidade da despedida, o isolamento e a falta de perspectiva compõem o quadro de adoecimento mental apontado por especialistas e que tende a se agravar no futuro.

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Omena conta ainda que atendeu um socorrista de 64 anos que havia conseguido transportar o irmão, de 47 anos, com quadro grave de covid-19. Quatro dias depois, ele faleceu. Logo após enterrar o irmão, o próprio socorrista ficou doente e passou um mês debilitado. “Não teve tempo de viver o luto, de viver a dor e agora tem medo de voltar ao trabalho. Por isso temos o desenvolvimento desses transtornos, as pessoas não têm tempo de assimilar a dor”, explica. “Para quem está no Amazonas, há constantemente uma vivência de perdas: perdemos a liberdade, os hospitais, os atendimentos médicos, perdemos o sistema de saúde primário, secundário. Tudo caiu. Tem ainda as perdas do amigo do amigo, do vizinho, do colega. Isso tudo gerou uma tristeza, o luto não é luto porque alguém falece, é um momento de transição, de quando a gente perde algo”, diz.

Por conta da demanda que vem recebendo, ela afirma que vem tentando convencer os colegas a ampliar a rede de escuta, por perceber que as pessoas não conseguem ajuda.

A coordenadora do projeto de acompanhamento psicológico online da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Sônia Maria Lemos, 57 anos, representante da universidade na Rede de Emergência em Saúde Mental do Amazonas, afirma que o que pode aparecer adoecimento emocional é, na maioria das vezes, um sofrimento emocional, natural em decorrência do momento vivido. “O problema é se a pessoa continua com esses sinais e isso impede que ele toque a vida adiante, aí podemos ter o adoecimento mental em decorrência da pandemia”, explica.

Para ajudar, ela e outros profissionais, de diversas instituições, articularam a rede de emergência em saúde mental, iniciativa que resultou na contratação de 50 profissionais para atuar no atendimento na rede pública do Amazonas, fato que ela considera histórico, dada à situação extremamente deficitária de política pública da área. “Em saúde mental, quanto maior o número de informações objetivas, corretas, mais segurança eu tenho de ter um comportamento adequado pra responder. Sempre tivemos subnotificação de casos. Quando mais conflito de informações quanto mais volume de informações desencontradas, menor é a minha chance de confiar nelas. Aqui no Amazonas não podemos confiar em todos os níveis”, afirma a psicóloga Sônia Lemos.

“A pessoa que ocupa a cadeira da presidência faz propaganda de tratamento que não funciona, o governo do Estado compra equipamentos superfaturados de lugares que não vendem equipamentos de saúde, a primeira ação do novo prefeito foi burlar a fila de vacinação. Imagina como eu, pessoa, me sinto em relação a qualquer informação de saúde? Como vou querer que a saúde mental das pessoas encontre alguma coerência onde não há coerência, mas tristeza e frustração?”, indaga.


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