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Paulistano se orgulha da cidade de São Paulo, mas quer se mudar para outra

Pesquisas mostram que moradores de São Paulo apreciam a diversidade de gastronomia, cultura, lazer mas gostariam de um município mais calmo

As ruas de São Paulo durante a pandemia em dezembro de 2020.
As ruas de São Paulo durante a pandemia em dezembro de 2020.Sebastiao Moreira / EFE
Denize Bacoccina (A vida no centro)

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O paulistano tem orgulho de sua cidade. Mas, se pudesse, a maioria deixaria São Paulo para morar em outra cidade. E ainda: uma parcela muito pequena indicaria a cidade para amigos ou familiares, mesmo entre os que gostam de viver na capital. Várias pesquisas divulgadas nos últimos dias mostram esse aparente paradoxo entre uma avaliação positiva em relação à cidade e uma vontade de ir embora.

Embora nos últimos anos se note que saiu de moda falar mal de São Paulo como acontecia quando eu me mudei para cá em meados dos anos 1990, as pesquisas mostram que muitos moradores da cidade anseiam por uma vida mais calma ―embora gostariam de continuar usufruindo os benefícios da vida urbana, já que boa parte gostaria de se mudar para uma cidade menor próxima da metrópole.

Isso talvez se explique, em parte, porque aquela imagem de cidade que só pensa em trabalho está deixando de ser verdade absoluta. Ou deixando de ser cool. São Paulo começa a ser vista pela sua qualidade de metrópole cosmopolita com grande oferta de serviços, especialmente de gastronomia, e não apenas por suas oportunidades no mercado profissional.

A pesquisa Viver em São Paulo – Qualidade de Vida, da Rede Nossa São Paulo, mostra que 78% dos paulistanos têm orgulho da cidade (índice alto, mas inferior aos 85% que diziam isso no fim de 2008). No entanto, 60% sairiam da cidade se pudessem. E quais são os motivos? 74% estão insatisfeitos com a qualidade de vida na cidade e 71% dizem que a qualidade de vida piorou.

Dado parecido é obtido em outra pesquisa, esta realizada pelo DataZAP/OLX Brasil. 64% dos ouvidos avaliam a cidade como boa/ótima e apenas 4% consideram a capital como ruim/péssima. Apesar disso, apenas 22% indicariam a cidade para um amigo ou familiar morar. Gastronomia, facilidade de acesso a comércio e serviços, opções de entretenimento e diversidade de serviços são os aspectos mais apreciados.

A pesquisa da Rede Nossa São Paulo, aponta oportunidades, mercado de trabalho e diversidade de serviços e opções de lazer e entretenimento com as principais vantagens. Esperança (para 21%) e decepção (12%) são os sentimentos positivo e negativo que lideram as emoções em relação a São Paulo.

Em linha com as estatísticas de segurança, que mostram uma queda expressiva nos índices de criminalidade nas últimas duas décadas (embora a memória das pessoas não corresponda a esta realidade), a preocupação com a violência ainda é grande, embora menor do que nas edições anteriores.

A pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra essa queda entre as três edições. Em 2008, a violência era citada como o maior problema da cidade por 40% dos ouvidos. Em 2019, foi mencionado por 28% e em 2020 por 31%, enquanto criminalidade é apontada por outros 18%. Aumentou, por outro lado a percepção da desigualdade e da injustiça social como um problema: de 7% em 2008 para 10% e 2019 e 11% em 2020.

E, apesar de todo o discurso sobre solidariedade e empatia durante a pandemia, e de grupos comunitárias de ajuda que vimos surgir, aumentou no ano passado o sentimento de exclusão na comunidade onde vive, de 25% em 2019 para 30% no ano passado. A sensação de não pertencimento é maior entre os paulistanos entre 35 e 44 anos.

O bairro onde vivem x o bairro ideal

Um quarto dos entrevistados na pesquisa da Rede Nossa São Paulo disse não gostar do bairro onde vive. Mas é bem maior, 43%, a parcela dos que gostam. Pessoas com mais de 55 anos, menos escolarizados e das classes D e E são os que mais gostam do bairro onde vivem.

Outra pesquisa, feita pelo Zap+, mostra que o bairro ideal, para os paulistanos, é um lugar que não existe. A pesquisa foi feita entre os dias 7 de outubro e 3 de novembro, e respondida online por 829 pessoas, especialmente pessoas que consultaram os portais ZAP Imóveis e Viva Real.

A vizinhança ideal, para eles, é um bairro com muita arborização (76%), com calçadas largas, com muito espaço para o pedestre (87%), num ambiente calmo, com baixo fluxo de pessoas (81%), prédios e construções sem muros (66%), onde é possível se deslocar a pé, fazer tudo andando (91%). E aí o paradoxo: 59% preferem prédios de uso único, apenas comercial ou residencial. Ou seja, fazer a pé o quê? Como fazer tudo a pé num bairro calmo, com pouco fluxo de pessoas, e sem comércio?

E a vida coletiva?

A participação na vida política da cidade ainda é baixa. Mas está crescendo. A parcela dos paulistanos que não participam caiu de 57% para 46% entre 2019 e 2020, sendo que os abaixo-assinados são o principal meio de participação. A parcela dos que usam os abaixo-assinados aumentou de 21% em 2019 para 26% em 2020.

Ela é maior conforme aumenta a escolaridade e a renda familiar. E também é maior entre os brancos do que entre os pretos e pardos e também entre os que têm outra religião que não seja a católica ou evangélica. E ainda muito baixa entre os jovens: 67% dos jovens entre 16 e 24 anos não tem nenhum interesse em participar da vida política.

Apesar do momento pós-eleitoral, 30% não sabem em quem votaram para vereador na última eleição. Entre as principais qualidades de um prefeito, para os entrevistados, estão conhecer bem os problemas da cidade (64%) e ter visão de futuro (54%), enquanto para um vereador os requisitos mais valorizados são conhecer bem os problemas da região (51%) e ser trabalhador (45%).

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo

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