Venezuela anuncia envio de oxigênio a Manaus, mas Governo não confirma recebimento

Itamaraty não se posiciona a respeito do anúncio do país vizinho, nem a Secretária de Saúde do AM. Capital recebe doações de outros Estados. Cidade do interior é orientada a “abrir mais valas”

Florantonia Singer|Steffanie Schimidt
Caracas / Manaus - 17 jan 2021 - 01:24 UTC
Familiares de pessoas com covid-19 aguardam em fila para reabastecer cilindros de oxigênio em Manaus.
Familiares de pessoas com covid-19 aguardam em fila para reabastecer cilindros de oxigênio em Manaus.BRUNO KELLY / Reuters

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Diante do colapso da saúde em Manaus, o Governo de Nicolás Maduro anunciou o envio de oxigênio para a capital amazonense, conforme relatou o chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza. Segundo o diplomata, cerca de 100.000 litros foram carregados na Siderúrgica del Orinoco (Sidor) para seguir rumo ao Brasil. A planta localizada no sul da Venezuela é a principal processadora de alumínio e aço do país, mas está paralisada há anos devido à deterioração do Governo e a corrupção. “Dei a boa notícia ao Governador do Estado do Amazonas no Brasil de que hoje saem de Puerto Ordaz para Manaus os primeiros caminhões de cilindro com milhares de litros de oxigênio”, escreveu Arreaza em seu Twitter. Também diz ter colocado à disposição um contingente de 107 médicos brasileiros e venezuelanos formados pela Escola Latino-Americana de Medicina de Caracas, criada em parceria com Cuba.

A informação não foi confirmada pelo Itamaraty até o momento, nem tampouco pela assessoria da secretaria de Saúde de Manaus. Areazza afirmou que vários caminhões carregados com cilindros de oxigênio doados partiram neste sábado com destino a Manaus, mas não especificou quantos veículos iriam viajar e nem por onde. Supõe-se que entrariam por Roraima para seguir a Manaus, uma viagem de ao menos dez horas. O fato de envolver trânsito na fronteira deveria passar pelo Ministério das Relações Exteriores. Porém, o Brasil não reconhece o governo de Maduro o que gera especulações sobre o eventual silêncio a respeito do assunto.

O chavismo tem usado a gestão da covid-19 como propaganda em sua política internacional. Desde o início da pandemia, Maduro tem feito alarde sobre o descontrole de casos em países vizinhos, como Colômbia e Brasil —cujos presidentes não reconhecem sua legitimidade como chefe de Estado— embora omita os números reais do seu país. A Venezuela tem poucas notificações de infecções —cerca de 118.000 casos e pouco mais de mil mortes— mas é um dos países que menos realiza testes moleculares e os números oficiais têm sido questionados pelo setor médico e científico.

A crise em Manaus foi explorada novamente dentro dessa estratégia de Maduro, apesar de os hospitais na Venezuela estarem em grave deterioração e o país vivenciar atualmente um aumento acelerado de casos em que os serviços de atendimento já começam a ficar sobrecarregados. O anúncio da remessa ao Brasil gerou indignação entre os que trabalham para conter a crise humanitária que atravessa o país muito antes da pandemia e que provocou a migração forçada de venezuelanos. Manaus foi um dos destinos dos refugiados e imigrantes venezuelanos.

A grande maioria dos centros de saúde na Venezuela nem mesmo tem acesso a água potável regularmente e os profissionais de saúde exigiram durante a pandemia suprimentos adequados e suficientes de equipamentos de proteção, uma vez que são obrigados a reutilizar máscaras faciais. Os bombeiros de Caracas não dispõem de oxigênio para realizar transferências de pacientes com dificuldades respiratórias. Mais de 300 profissionais de saúde morreram de covid-19, um dos números mais altos da região.

Oxigênio de outros Estados

Imerso em uma crise sem precedentes com a falta de oxigênio para seus pacientes com covid-19, o Governo do Amazonas recebeu cilindros de oxigênio de outros Estados neste sábado. “Um voo comercial com 2.000 m³ por dia nos ajuda, mas é muito pouco para atender a demanda do Estado do Amazonas”, disse o secretário de Estado da Saúde, Marcellus Campêlo em declaração oficial divulgada pela secretaria. Doações locais e de outros Estados somaram 8.663 m³ de oxigênio (866 cilindros de 10 m³), o que representa 11,8% da demanda diária necessária, de 76.000 m³. As doações têm sido transportadas por companhias aéreas e aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), após pressão desesperada de parentes de pacientes e médicos dos hospitais de Manaus.

O quadro obrigou as autoridades a enviarem seus pacientes para outras cidades. Neste sábado, 11 pacientes de duas unidades de saúde da capital foram transferidos para São Luís (MA). O grupo é o terceiro que sai para receber tratamento de covid-19 em unidades de saúde de outros Estados. Ao todo, desde sexta-feira (15/01), embarcaram 32 pacientes para o Piauí e Maranhão.

A situação é ainda mais drástica nos municípios do interior, que buscam garantia, via liminar, ao fornecimento por parte do Estado. “O Secretário do Interior, órgão pertencente à estrutura da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas, por ocasião do desabastecimento no estado do Amazonas, chegou a oferecer câmeras frigoríficas ao Prefeito Municipal de Itacoatiara, Sr. Mário Jorge Abrahim, orientando-o a abrir valas no cemitério local, uma vez que não havia previsão para o fornecimento de oxigênio para o Município de Itacoatiara”. A cidade é o última com ligação por terra a Manaus, distante 176 quilômetros da capital. A ação foi impetrada na tarde deste sábado, 16, para garantir a vida de 77 pacientes internados. “A situação atual de Manaus assemelha-se a uma guerra contra o covid, contudo, tal guerra era absolutamente previsível, eis que trata-se da segunda grande onda de covid e, como tal, deveria o Governo já ter a mínima previsibilidade e antever a necessidade de contenção desta situação”, diz trecho do documento.

Mesmo com a falta de oxigênio, a taxa de ocupação de leitos na rede pública em Manaus segue acima da capacidade: 103,69% de UTI e 111,45% de leitos clínicos. No interior, a taxa de ocupação de leitos clínicos para covid até o momento é de 49,55% e 34,21% em Unidades de Cuidados Intermediários (UCIs). Não há leitos de UTI no interior. Em 24 horas 2.856 novos casos no Estado foram registrados e o número de sepultamentos chegou a 202 pessoas; 29 morreram em casa, sem atendimento médico.

Líderes e partidos da oposição brasileira, assim como organizações civis, responsabilizaram o presidente Jair Bolsonaro na sexta-feira pelo colapso da cidade, que ficou sem camas e sem meios para enfrentar a emergência, para a qual convocaram protestos e inúmeras críticas. As manifestações condenando o chefe de Estado se multiplicaram depois que o presidente descreveu a situação em Manaus como “terrível”, mas dizendo que o governo já havia “feito sua parte”. O Brasil, com seus 210 milhões de habitantes, é um dos epicentros da pandemia e o segundo país com mais mortes por covid no mundo, depois dos Estados Unidos, com quase 206.000 mortes.

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