Pandemia de coronavírus

O mapa do coronavírus: como aumentam os casos dia a dia no Brasil e no mundo

Mais de seis meses depois da covid-19 chegar ao Brasil, os números de casos e mortes em todo o planeta são contados na casa dos milhões. Confira a evolução da pandemia

Em janeiro, o novo coronavírus (SARS-CoV-2) estava concentrado na China, e só alguns casos chegavam a outros países, através de pessoas infectadas que viajaram de avião ou navio. No final daquele mês, já eram 10.000 infectados na China e em outros 129 países. Mas em fevereiro foram registrados vários surtos na Coreia do Sul, Itália, Alemanha e Espanha. No Brasil, o primeiro caso foi confirmado em 26 de fevereiro, mas os casos confirmados passavam de 1.500 menos de um mês depois (veja aqui em tempo real a atualização da covid-19 no Brasil). Em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde declarou o novo coronavírus é uma pandemia global.

Os casos e a evolução do surto em cada país

A China é o país onde o vírus apareceu, mas não é onde houve mais infecções. Outros países que detectaram os contágios posteriormente ultrapassaram por muito os chineses. Hoje, o top 10 mundial é formado por Estados Unidos, Índia, Brasil, França, Rússia, Espanha, Argentina, Reino Unido, Colômbia e Itália. A China é apenas a 49ª colocada, com pouco mais de 90.000 casos confirmados. No mundo, são mais de 50 milhões de casos e aproximadamente 1,2 milhão de mortes.

O ritmo de cada país é diferente. Na China, as infecções deixaram de aumentar de forma exponencial em meados de fevereiro, quando a quarentena e as medidas de distanciamento fizeram efeito. Já países como Itália, Espanha, França e Alemanha tiveram os casos disparando e sistemas de saúde colapsados, o que soou o alarme na Europa, e só então partiram para o lockdown. Estados Unidos e Brasil, por outro lado, viram a curva chegar no topo e manter-se num platô por meses, o que os disparou para a ponta do ranking entre os mais afetados pelo novo coronavírus.

O contraste é claro entre outros países asiáticos e latino-americanos. Japão e Coreia do Sul detectaram antes o vírus e puderam controlá-lo. Controle semelhante aconteceu na Oceania, onde Austrália e Nova Zelândia se confinaram cedo e estão entre os países capazes de sossegar o vírus de forma mais eficaz; o primeiro tem menos de 1.000 mortos e o segundo, menos de 50. Todos foram ultrapassados por Argentina, Colômbia, México, Peru e Chile, onde o crescimento foi maior e posterior.

É importante entender que falamos de casos confirmados. Ou seja, estamos medindo dois fenômenos ao mesmo tempo: o aumento real de infectados em cada país e a capacidade de detectá-los por parte de suas autoridades. Pode ser exemplificado, por exemplo, pela África que, apesar de ser o segundo continente mais populoso do planeta, tem apenas a África do Sul como 13º país mais atingido entre os 30 primeiros.

A letalidade registrada por país

O número de mortes causadas pelo novo coronavírus também um dado relevante, embora saibamos que seja uma medida imprecisa da verdadeira letalidade do vírus. Ao menos por dois motivos. O primeiro é que as mortes costumam chegar com atraso, dado que a doença pode durar várias semanas. Isso explica certamente por que a mortalidade na China cresceu de 2,1 em janeiro para 3,7 em fevereiro.

Esse atraso tem outras implicações. As primeiras mortes por covid-19 na Espanha foram de pessoas que não tinham sido diagnosticadas. “Essas mortes indicam que o vírus chegou antes do que se pensava”, afirma Antoni Trilla, do Hospital Clínic de Barcelona. O vírus fica pelo menos quatro semanas circulando sem ser detectado, como aconteceu na Espanha e em países como a Itália. “Se há uma morte quando ainda não há muita transmissão, isso sugere que poderia haver algumas centenas de infectados”, diz Kucharski. A lógica é clara: se a mortalidade gira em torno de 1%, detectar um morto implica ter cerca de 100 infectados há três semanas, que é o que a doença demora para matar. E esses 100 casos provavelmente tenham se estendido para 300, 500 ou 1.000 no dia da morte.

Outra dificuldade para medir a letalidade é que existem infecções que não são detectadas porque geram sintomas leves. Se esses casos fossem contabilizados, as taxas de letalidade diminuiriam. É o que sugere a situação do início do ano na Coreia do Sul, que estava fazendo mais exames do que ninguém e reportou naquele momento uma mortalidade de 0,6%. São boas notícias, mas só relativamente: mesmo que a mortalidade do coronavírus seja um terço do que dizem os dados atuais, continuaria sendo bastante pior que a da gripe comum.

Tampouco existe consenso sobre quantos casos não detectados existem em cada país. O epidemiologista Christophe Fraser, da Universidade Oxford, explica que a proporção de casos não reportados poderia ser de 50%. Desse modo, “a taxa de letalidade seria em torno de 1%”. O médico Bruce Aylward, da Organização Mundial da Saúde (OMS), concorda. Como ele disse ao The New York Times no início do ano, não haviam evidências [na China] de que estávamoss vendo apenas a ponta do iceberg, com nove décimos dele formados por zumbis ocultos que espalham o vírus. O que estávamos vendo é uma pirâmide: a maior parte está à vista. Por sua vez, o especialista em RNA viral Adolfo García-Sastre, pesquisador do Hospital Monte Sinai de Nova York, considera que “existem de cinco a 10 vezes mais infectados do que está sendo contabilizado, o que reduz muito a sua letalidade”.

Até este novembro, o top 3 de países mais atingidos pelo vírus se repete na lista dos que tiveram mais mortes pela doença: Estados Unidos, Brasil e Índia. O primeiro com mais de 200.000 óbitos, os outros dois ainda na casa dos 100.000. Em seguida vem o México, que é o 11º em casos. Reino Unido, Itália, França, Irã, Espanha e Peru completam os 10 primeiros, todos entre 30.000 e 50.000 casos.

A segunda onda

A situação da Europa, que chegou a ser o epicentro da pandemia, passou a melhorar com as medidas de confinamento a partir do meio do ano. O verão europeu foi de algumas reaberturas comerciais, além de afrouxamento das restrições de circulação. No entanto, desde meados de outubro a preocupação da segunda onda de covid-19 tomou conta de países como Reino Unido, Itália e Espanha, que bateram recordes de novos contágios diários. O receio aumenta com a chegada do segundo inverno na pandemia e, por isso, muitos países voltaram com restrições que se assemelham ao lockdown do primeiro semestre, ainda que sem o mesmo rigor.

Ao contrário do hemisfério norte, o Brasil se encaminha para o verão, o que, segundo especialistas, é um fator atenuante na preocupação com a segunda onda de covid-19. Além disso, pesa a favor dos brasileiros o tempo hábil para a melhoria das estruturas de saúde pública, especialmente em grandes centros urbanos como São Paulo. Até novembro, a maioria dos Estados brasileiros registrou quedas ou manutenções da taxa de contágios e óbitos, o que colabora com a reabertura gradual do país.

Colaborou Diogo Magri, de São Paulo, com informações sobre o Brasil e a América Latina

Metodologia e fontes

Os dados são do Center for Systems Science and Engineering (CSSE), da Universidade Johns Hopkins. Recolhemos os últimos dados continuamente e os processamos para calcular os surtos de cada país e os tempos de duplicação. Os gráficos se atualizam a cada dia, às vezes várias vezes.

Início do surto. Para fixar a data do início do surto da cada país consideramos o primeiro dia em que se registraram 20 casos novos. Para os surtos das comunidades tomamos no primeiro dia com 10 casos novos.

Tempos duplicação. estimamos o tempo de duplicação da cada país para a cada dia. Para fazê-lo tomamos uma janela de nove dias ao redor da cada data e ajustamos uma curva exponencial, da que consideramos o valor de tempo de duplicação correspondente. Nosso cálculo é similar ao deste trabalho da London School of Hygiene & Tropical Medicine.

Luís Sevilhano colaborou na elaboração desta informação.

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