Pandemia de coronavírus

Estados cancelam festejos de ano novo e elevam restrições em meio a ceticismo de brasileiros com a covid

Rio proíbe fogos e som em toda a orla da cidade, enquanto São Paulo e cidades litorâneas cancelam festas. Protesto em Manaus faz Governo voltar atrás em decreto que fechava comércio por 15 dias

Orla do Rio de Janeiro vista a partir do Cristo Redentor.
Orla do Rio de Janeiro vista a partir do Cristo Redentor.Antonio Lacerda / EFE

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A pandemia da covid-19 roubou até a mais prosaica superstição dos brasileiros na virada do ano: pular sete ondas no mar para vibrar por seus anseios com o ano novo. A tradicional festa de Réveillon em Copacabana já estava cancelada, e neste sábado o prefeito em exercício, Jorge Felippe (DEM), anunciou a proibição de fogos de artifício e caixas de som em toda a orla da cidade. Na última quarta, 23, nove prefeitos de Baixada Santista, litoral de São Paulo, também anunciaram a proibição de festejos nas praias do sul do Estado, muito embora tenham mantido bares e restaurantes abertos, contrariando a diretriz do Governo do Estado, que determinou a fase vermelha para os 645 municípios de São Paulo desde a sexta, 25. Na fase vermelha, só serviços essenciais podem funcionar, mas o anúncio do governador João Doria, feito no dia 22, chegou tarde, segundo os prefeitos. Não houve tempo hábil para adaptar as cidades às novas restrições.

Diversas prefeituras optaram por elevar as proibições no final do ano, período propício para aglomerações e os excessos que se reservam para as festas, em meio à alta das mortes e contágios nas últimas semanas. Florianópolis, Recife, Salvador e Fortaleza já haviam anunciado cancelamento das festas de Réveillon nas orlas semanas atrás. O cansaço com a quarentena e a impossibilidade de se desconectar da pandemia, porém, continua a gerar tensão em diversos pontos do país, como em Manaus, onde um decreto estadual estabeleceu o fechamento do comércio e o funcionamento apenas de serviços essenciais por 15 dias. A medida pegou muita gente de surpresa, e um grupo de comerciantes e ambulantes decidiu protestar às 7 da manhã contra as proibições estabelecidas pelo governador Wilson Lima aos gritos de “Queremos trabalhar”. A grita surtiu efeito e o Governo do Estado voltou atrás e as lojas reabrirão a partir deste segunda.

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A ansiedade no país aumenta enquanto lideranças políticas reforçam divisões e a falta de empatia para o tamanho do problema que o país enfrenta, incluindo a ausência de planejamento para a vacinação nacional. Neste sábado, o presidente Jair Bolsonaro disse que não se sente pressionado pelo fato de outros países do continente, como México e Chile, já terem dado início à vacinação. “Ninguém me pressiona, não dou bola para isso”, disse Bolsonaro, que mencionou “responsabilidade com o povo” para justificar a demora em dar respostas concretas.

O presidente garante que a sua preocupação maior é a falta de responsabilização dos fabricantes de vacinas para eventuais efeitos colaterais na vacinação, mas no horizonte de suas decisões está a disputa política e pelo protagonismo com a vacina em contraponto com o governador de São Paulo, João Doria. São Paulo promete que a vacina Coronavac, produzida pelo instituto Butantan, em parceria com a chinesa Sinovac, estará pronta em 25 de janeiro, enquanto o Governo federal estima que a vacinação no país será possível em meados de fevereiro, a depender da aprovação de imunizantes pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Doria causou assombro ao deixar o país para passar férias de 10 dias em Miami no mesmo dia em que a fase vermelha era anunciada para o Estado de São Paulo. O vice que ficaria em seu lugar, Rodrigo Garcia, teve diagnóstico de covid-19 um dia depois da saída do governador, e Doria acabou voltando antecipadamente, Pediu desculpas pela “infeliz coincidência” de datas, pois se retirava do Estado quando ele entrava na fase vermelha. O Brasil já supera os 190.000 óbitos e mais de 7,4 milhões de casos de covid-19. Só São Paulo soma 45.808 mortes e mais de 1,4 milhão de infectados pelo vírus.

Enquanto isso, a população se divide sobre o confinamento neste final de ano. Em meio a relatos sobre festas familiares reduzidas país afora, outros estão levando vida normal a despeito da pandemia. O índice de isolamento medido pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas para o Governo do Estado mostrava uma taxa de isolamento abaixo de 50% na maioria dos municípios paulistas, incluindo a capital. A maioria dos dados se refere ao último dia 20.

A expectativa de especialistas é de que haja um grande onda de contagiados nos próximos dias no país, agravando o quadro de lotação em UTIs em hospitais. O país ainda repercute a festa do humorista Carlinhos Maia na cidade de Penedo, no Estado de Alagoas, onde foi promovido um show no dia 19. O evento acabou com o contágio de 47 pessoas, incluindo algumas encaminhadas para UTI.

Apesar das divisões, a pandemia tem colocado a saúde como prioridade concreta para os brasileiros, à frente inclusive do desemprego, mostra pesquisa Datafolha divulgada neste final de semana. O levantamento, que ouviu 2.016 entrevistados entre os dias 8 e 10 de dezembro, mostrou que 27% apontaram a saúde como o principal problema do país, à frente de desemprego (13%), crise econômica (8%) e corrupção (7%). Violência, política e segurança tiveram notas menores ainda.

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