ELEIÇÕES BRASIL 2020

Cidade elege as primeiras mulheres vereadoras em 70 anos

Três Rios nomeia as primeiras vereadoras após sete décadas de monopólio masculino no poder local

A vereadora Bia Bogossian observa os vereadores homens nos corredores da Prefeitura de Três Rios, na segunda-feira.
A vereadora Bia Bogossian observa os vereadores homens nos corredores da Prefeitura de Três Rios, na segunda-feira.Ariel Subirá

A última vereadora de Três Rios terminou seu mandato há 70 anos. A professora Alva Coutinho pertenceu à primeira Câmara da Prefeitura desta cidade do interior do Rio de Janeiro, próxima a Petrópolis, tradicional local de descanso dos imperadores do Brasil. Desde então todos os vereadores e prefeitos foram homens, como demonstram as fotos em preto e branco dos corredores da Prefeitura. Mas há duas semanas os moradores realizaram uma pequena revolução porque nas recentes eleições locais elegeram quatro mulheres entre os 15 vereadores. As efusivas felicitações com que as protagonistas são recebidas na segunda-feira nas ruas dão ideia do calibre de uma mudança que deixou elas mesmas atônitas. E exultantes. Bia Bogossian, jornalista e empreendedora de 23 anos, transformou esse fato histórico —70 anos sem nenhuma vereadora — em um dos eixos de sua campanha. E, pelo resultado, acertou no alvo.

Após uma primeira tentativa fracassada aos 19 anos, se preparou com afinco, incluindo cursos em Londres e Barcelona. A recompensa foram 1.097 votos que a transformam na vereadora mais votada deste município de 82.000 moradores. Bogossian acreditava em sua vitória, diz, mas temia ser a única. E quando tomar posse em 1 de janeiro terá ao seu lado Ana Clara Araújo, uma assistente social negra de 25 anos, a ativista dos direitos animais Ana Carolina Junqueira (35) e a empresária Jacqueline Costa (52).

Mas o espetacular avanço aqui não é reflexo fiel de como ficou o Brasil após a primeiro turno das eleições municipais, no último dia 15, nas quais o eleitorado castigou o presidente Jair Bolsonaro e premiou a velha direita. O aumento nacional de vereadoras foi tímido, de 13% a 16%. “Nesse ritmo, só teremos paridade entre homens e mulheres nas prefeituras em 56 anos”, alertou um demógrafo.

O chamativo aumento de vereadoras transexuais (com 30 eleitas) e negras nas capitais eclipsa em boa medida o que na verdade é um lento avanço das mulheres na política brasileira. “Todo aumento deve ser comemorado. Mas a principal mudança é quantitativa. Câmaras que não tinham nenhuma mulher, elegeram mulheres; outras que não tinham negras, elegeram negras e muitas trans entraram. Isso demonstra que há uma mudança no eleitorado, que elege representantes mais parecidos à população”, afirma a cientista política Hannah Maruci.

Aumento leve e a partir de um limite baixo. Se for comparado o poder municipal que as mulheres ostentam no restante do mundo, o Brasil está um ponto abaixo do Afeganistão, de acordo com o índice Poder das Mulheres do Council of Foreign Relations. Mesmo que as mulheres tenham conquistado o direito ao voto em 1932, uma presidenta ter sido eleita duas vezes e existirem cotas de gênero (que não são cumpridas), elas estão por volta de 15% em todos os níveis, das prefeituras ao Congresso.

Os principais culpados são os partidos, concordam os especialistas. A resistência dos homens brancos que dominam os partidos faz com que a progressão seja a passo de tartaruga. Nem as cotas vigentes há 30 anos podem com eles. São sistematicamente burladas com toda a espécie de truques incluindo candidaturas fraudulentas. As mais óbvias, quando sequer a candidata vota em si mesma.

“Em termos quantitativos, esperávamos um avanço maior pela existência da cota de 30%”, diz Maruci, que destaca: “Algumas até mesmo conseguem ser eleitas apesar dos partidos”. A cientista política pertence à Tenda das Mulheres, um coletivo de voluntárias que nesta campanha formou dez mulheres e que pretende quebrar o machismo sistêmico dos partidos. Duas delas foram eleitas apesar de seus partidos não colocarem um centavo nelas. Nenhum é inocente. Nem mesmo o que tem o maior número de eleitas, o esquerdista Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Thais Ferreira, de 32 anos, uma ativista em saúde da mulher amadrinhada por essa iniciativa, conseguiu ser eleita na cidade do Rio de Janeiro após financiar a campanha com um crowdfunding. É a única vereadora negra do PSOL na cidade.

De volta a Três Rios, a juventude jovial de Bogossian, usando uma camisa de cor roxa sufragista e jeans com enormes furos, contrasta com os sóbrios relatos dos homens que dirigiram os destinos da cidade nas últimas sete décadas. Entre eles, um tataravô seu que presidiu a Câmara municipal em 1947, a da pioneira Coutinho.

Bogossian está envolvida na política local desde a adolescência, adorava ir às sessões da Câmara. “Era uma menina e vinha mais do que alguns vereadores, veja que loucura”, diz na pequena sala adornada com um enorme crucifixo. Sob o púlpito do orador, uma bíblia aberta.

Quando lhe perguntam por que escolher colocar a histórica ausência de mulheres no centro de sua campanha, a ‘millennial’ dá primeiro a resposta de manual. “Por uma questão de representatividade”, começa para contar depois o medo de seu pai quando ela ia às sessões porque eram tarde, estava escuro, ficava longe. O típico. E então surge a resposta espontânea: “Somos 52% da população de Três Rios, sem nenhuma vereadora!”. Para ela é anacrônico. A revolução local obedece, diz, “ao fato de que os ‘millennials’ estamos mais conscientes no geral, crescem tanto à esquerda como à direita”. A metade da nova corporação é de novatos.

Esta mulher que se define de centro-esquerda afirma que não quer ser de uma só bandeira. A retomada econômica e a sustentabilidade também são prioritárias. Diz que o próximo prefeito precisará gerir “um grande presente” à população em forma de royalties do petróleo. “A fiscalização será essencial”, alerta. Também quer que a Prefeitura chegue à neutralidade de carbono, como colocou em sua campanha eleitoral. Agora busca tempo para plantar 107 árvores que compensem suas emissões de CO2.

Após posar para as fotos (a quarta vereadora não vai porque está doente) a ativista Junqueira sai voando para a delegacia “porque um morador enforcou um cachorro”, diz. Conta que “antes tentou envenená-lo, era um pitbull”.

A prioridade de Araújo, a assistente social, serão os moradores, aos que vê afundados em uma crise de identidade coletiva: “As mulheres não se veem como mulheres, os negros não se veem como negros e os pobres não se veem como pobres. Há pobres que votam em pessoas que perpetuam a desigualdade. Voto neste porque é amigo, vizinho, me coloca um aparador na porta e corta uma árvore em frente de casa. A política aqui se considera ajuda, não existe debate ideológico”, lamenta. Ambiciona mudá-lo.

Bogossian renunciou ao financiamento público para sua campanha, paga por três doadores. O principal, seu pai. É aluna dos movimentos de renovação política que proliferaram no Brasil pelo descontentamento popular com a política tradicional e a corrupção que tirou o Partido dos Trabalhadores do poder e elegeu Jair Bolsonaro. Financiados com doações de particulares, fazem processos de seleção multitudinários em que escolhem candidatos de todo o espectro político a quem dão formação sobre como construir seu discurso, sua equipe e seu programa. A jovem vereadora de Três Rios voltará às aulas (online) nos próximos dias. A matéria inclui, entre outros assuntos, como selecionar os três assessores que lhe cabem, uma questão que causa enormes desconfianças entre os veteranos da Prefeitura, que tentam fazer com que ela desista. Por toda a vida isso foi feito a dedo. Mas ela insiste em examiná-los e aplicar cotas. “Precisamos de boa política, nem nova e nem velha”, diz se aproximando esperançosa a uma das grandes lacunas da política brasileira.

O aposentado Joaquim Pereira, de 81 anos, é um desses brasileiros extremamente desiludidos com a política, tanto que enquanto toma um café no shopping responde abertamente que “tem que acabar com esse negócio das eleições”. Sim, escutou algo sobre elegerem vereadoras. “Vai melhorar porque já houve muitos homens e não fizeram nada. Só sabem roubar”, brada.

Perto, a senhora Maria Mariano Prudente, de 60 anos, limpa o chão. Votou, mas somente para prefeito “porque estava de plantão, trabalhando, não sabia o número (da candidatura) dos vereadores. Mas acho ótimo que existam mulheres porque nós precisamos muito de emprego, de saúde, de lazer. Mas eu acho que precisavam ter mais idade para mobilizar mais as pessoas, sabe?”.

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