Eleições Brasil 2020

Belo Horizonte elege sua primeira vereadora trans, Duda Salabert, que faz história com votação recorde

Professora, candidata do PDT, se torna a parlamentar mais votada na capital mineira. Em Aracaju, a também educadora Linda Brasil (PSOL) se elegeu com maior número de votos. São Paulo tem Erika Hilton (PSOL) como a primeira mulher trans eleita vereadora e Thammy Miranda (PL), primeiro homem trans eleito

Duda Salabert, a nova vereadora eleita em BH, em imagem de setembro de 2019.
Duda Salabert, a nova vereadora eleita em BH, em imagem de setembro de 2019.Douglas Magno

Belo Horizonte elegeu para a Câmara de Vereadores sua primeira candidata trans, professora Duda Salabert (PDT), com uma votação recorde ―a vereadora mais votada da história da capital mineira. Ela obteve mais de 37.000 votos segundo o TSE, ocupando a primeira posição do pleito a Câmara da capital mineira é formada por 41 vagas. Em 2018, quando havia disputado a eleição para o Senado pelo Estado de Minas, ainda pelo PSOL, ela já havia obtido mais de 350.000 votos. Em 2020, triplicou o número de candidaturas trans no Brasil e, ao menos em três capitais brasileiras, foram eleitas com boas votações no Legislativo municipal. Em São Paulo ―que em 2018 elegeu sua primeira deputada estadual trans―, Erika Hilton (PSOL) foi eleita a primeira mulher trans da Câmara de Vereadores, enquanto Thammy Miranda (PL), o primeiro homem trans a se tornar vereador da capital paulista. Já em Aracaju, a também educadora Linda Brasil (PSOL) foi eleita com o maior número de votos da história da capital sergipana.

Segundo Duda, a maior motivação na política é ajudar a construir um modelo de gestão que privilegie os grupos que representa e as bandeiras que levanta. “A cidade ideal ouve a voz dos movimentos sociais. E tem respeito pelos animais, pessoas LGBTs, negros e mulheres. Essas quatro pautas nunca foram valorizadas por nenhuma administração”, afirmou em entrevista ao EL PAÍS, em setembro do ano passado. Sua campanha para a Câmara não utilizou nenhum material impresso, como sinal de compromisso com o meio ambiente.

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Antes de iniciar o processo de transição de gênero, Duda Salabert construiu carreira na capital mineira dando aulas de literatura para alunos do ensino médio. Mas, há seis anos, desde que começou a se reivindicar socialmente como mulher, as propostas de emprego rarearam. “Estou no apogeu da profissão, era pra chover convites de outras escolas. Se eu fosse demitida, dificilmente outro colégio me contrataria. As pessoas não me leem como professora, mas como uma prostituta, já que 90% das mulheres transexuais no Brasil estão na prostituição. Esse é um reflexo da transfobia na sociedade”, disse na ocasião.

Duda contou que os alunos assimilaram bem a revelação de sua transexualidade, ao contrário de pais que não convivem diariamente com ela. “No ano passado [2018], uma mãe foi conversar com o dono do colégio exigindo satisfação porque a filha estava tendo aula com um traficante. Não sou prostituta nem traficante. Mas deve ser muito vergonhoso para uma família tradicional mineira ouvir a filha dizer que a pessoa que ela mais admira é uma travesti. Não posso fazer nada, né?”, disse a ativista, que enxerga a profissão como causa. “Tenho o sonho de transformar o mundo pela educação.”

Em 2016, criou a ONG Transvest, em que professores voluntários dão aulas preparatórias para o vestibular a transexuais em Belo Horizonte. “A escola é um espaço de violência, ódio e intolerância às pessoa trans. A grande maioria das transexuais não conclui o ensino médio. Nosso modelo educacional é falido, porque exclui a diversidade.” Ela entende que o país nunca teve um plano consistente na área, “nem nos Governos do PT”. Em sua visão, o Governo Bolsonaro tem adotado uma visão mercantilista da educação, amparado por movimentos que estimulam o patrulhamento a educadores dentro das escolas. “Querem culpabilizar o professor pelo fracasso educacional brasileiro. Eu quero que o aluno pense diferente de mim, me tire da zona de conforto. O conhecimento se constrói a partir das diferenças. Só não quero que ele me filme em sala de aula”, afirmou.

Na ocasião da entrevista, Duda havia se desfiliado há pouco tempo do PSOL, acusando a legenda de transfobia. “O PSOL é fundamental para a democracia, mas sua estrutura espelha a desigualdade que há no país”, explicou a professora. Na época da desfiliação, o partido divulgou nota discordando da alegação de Duda, embora reconhecesse não estar imune às “manifestações estruturais de nossa sociedade”. A ativista transexual se sentiu discriminada pela quantidade de recursos destinados pelo partido a seu pleito ao Senado. “Sou a terceira mulher mais votada da história de Minas Gerais. Não tive estrutura. Fiz a campanha praticamente sozinha. O PSOL não fez nenhuma caridade pra mim. Disputei e ganhei as prévias para me candidatar ao Senado”, afirmou Duda.

Logo na sequência, lideranças jovens do PDT lançaram campanha pela incorporação da professora. Em um encontro com Ciro Gomes, ouviu do terceiro colocado na eleição presidencial de 2018 que o partido a espera “com tapete vermelho estendido” —e aceitou a filiação, que a encaminhou agora para a Câmara dos Vereadores da cidade.

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