Pandemia de coronavírus

Sem alarde, São Paulo muda divulgação de óbitos da covid-19 e especialistas criticam

Gestão Bruno Covas evita o número de mortes confirmadas em 24 horas e redistribui óbitos de acordo com data de ocorrência. Estudiosos dizem que formato dificulta acompanhamento

Imagem aérea do Cemitério Vila Formosa, em São Paulo.
Imagem aérea do Cemitério Vila Formosa, em São Paulo.MIGUEL SCHINCARIOL / AFP

Quatro meses depois do primeiro óbito registrado em decorrência do novo coronavírus no Brasil, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo mudou a forma como vinha divulgando as notificações de mortes pela doença na cidade. Sem fazer alarde e nem informar quais razões levaram à mudança, a gestão de Bruno Covas (PSDB) está, desde a semana passada, divulgando os óbitos pela data em que ocorreram e não mais pelo dia da notificação da morte no sistema, ou seja, não sabemos mais quantos óbitos foram confirmados nas últimas 24 horas. O total de mortes permanece, mas desde o dia 15 de julho os boletins com o balanço das vítimas da covid-19 na capital paulista vêm apresentando alterações retroativas no balanço diário de óbitos. A nova estratégia, que se assemelha àquela que o Ministério da Saúde tentou implementar no início do mês passado, mas acabou voltando atrás, causa confusão na interpretação de dados e falsa sensação de estabilidade na evolução da pandemia na maior cidade do país, criticam especialistas.

Em primeiro lugar, a nova metodologia já não permite dizer se houve ou não recorde de notificação nas últimas 24 horas. Os pesquisadores Marilaine Colnago e Wallace Casaca, do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) da Universidade de São Paulo (USP), explicam que essa nova maneira de divulgar os dados também não permite, por exemplo, calcular com precisão a chamada média móvel da última semana, isso porque a cada dia os números são alterados, criando um terreno instável para o acompanhamento da análise. O recurso estatístico da média móvel procura dar um retrato mais preciso da evolução da pandemia, atenuando variações na notificação de mortes (soma-se os resultados dos últimos 7 dias e divide-se por sete para ter a média de cada semana e comparar com as anteriores). Da nova maneira, também fica mais difícil saber quando foi o pico de mortes, ou quando isso ocorrerá. “Essa nova metodologia pode levar a interpretações equivocadas sobre as novas mortes num primeiro momento, visto que a curva de óbitos totais acaba não sofrendo nenhum tipo de alteração brusca nos últimos dias”, afirma Wallace Casaca. “Isso pode dar a impressão de que atingimos um platô”.

Um exemplo prático do que dizem os pesquisadores está no dado do próprio dia 15 de julho, que, até o fechamento desta reportagem já havia mudado três vezes: de 8.705 mortos totais divulgados no boletim do dia 16, para 8.735 mortos totais no dia seguinte, e 8.923 mortos totais no dia 21, conforme a série de três imagens abaixo. Foram três contagens do número de mortos para o dia 15, uma maior que a outra. E o mesmo ocorreu com as datas que seguiram. Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde informou, por meio da assessoria de imprensa, que “a atualização do passado não muda o total de óbitos divulgados, apenas os distribui conforme a data em que aconteceram”.

Ocorre que, com essa “distribuição”, perde-se a informação de quantas novas mortes totais foram confirmadas a cada 24 horas, reduzindo o impacto da cifra. A diluição de números de maneira retroativa fez com que na semana entre os dias 9 e 16 de julho, 185 mortos sumissem dos cálculos daquele período. É provável que esses óbitos tenham sido redistribuídos por outros dias anteriores, mas não é possível saber, já que os boletins informam somente os números dos últimos sete dias. A única informação nova trazida nos informes foi que os números correspondem aos “óbitos registrados por data de ocorrência”.

A Secretaria da Saúde afirma que os dados divulgados têm como fonte o Sistema de Informações por Mortalidade (SIM), que processa as declarações de óbitos confirmados e suspeitos em tempo médio de 3,5 dias após a ocorrência. E que “as divulgações diárias no boletim correspondem à realidade de atestados recebidos até o momento do fechamento de dados”. A pasta ainda diz que “para dar mais transparência aos dados dos óbitos por covid-19 no município” mais informações foram “adicionadas ao boletim, dentre elas: atualização do número de óbitos de dias anteriores, a partir dos atestados recebidos”, dentre outras informações. E que “os dados divulgados em cada uma das edições anteriores ao boletim [do dia 15] continuam disponíveis em seus respectivos boletins diários, que podem ser acessados no site”.

Comparações

Na data em que o novo método passou a ser divulgado, o prefeito Bruno Covas concedeu uma entrevista coletiva para anunciar boas novas. O Plano São Paulo de reabertura gradual da economia estava caminhando bem na capital e, diferentemente de diversas cidades do interior, como Campinas, Sorocaba e Barretos, São Paulo não deveria retroceder. “Graças à estabilização da doença”, Covas anunciou o encerramento de uma ala do hospital de campanha do Anhembi, e apresentou gráficos comparando o número de óbitos na capital com Nova York, nos Estados Unidos, Madri, na Espanha, e a região da Lombardia, na Itália, outros epicentros da pandemia.

Porém, no mesmo gráfico, a Prefeitura incluiu os números referentes ao Brasil também. A comparação, no entanto, fez com que a curva referente ao Brasil, na época com pouco mais de 70.000 mortos, fosse evidentemente muito maior que a de qualquer cidade. A impressão visual causada foi a de que São Paulo e as demais cidades apresentavam uma curva parecida, ficando todas próximas, bem mais abaixo da curva do Brasil. “Quando o Brasil entra no gráfico, naturalmente a escala é aumentada, dando essa impressão falsa de que as demais cidades estão todas em uma situação parecida”, diz Marilaine, do CeMEAI.

Os pesquisadores fizeram então um gráfico comparando a evolução dos óbitos somente nas cidades de São Paulo, Nova York e a região da Lombardia. O que eles perceberam é que há um comportamento parecido nas curvas de Nova York e da Lombardia, que não se repete na capital paulista. “Houve 50 dias aproximadamente de subida abrupta de óbitos em Nova York e Lombardia e no caso de São Paulo não foi detectada essa explosão”, afirma Marilaine. Ela ressalta que uma hipótese poderia ser a baixa testagem em São Paulo. “No entanto, nota-se que a curva de novos óbitos de São Paulo não está em declínio como foi afirmado na coletiva de imprensa. Pelo contrário, não há nenhum indício claro de que tenhamos passado pelo pico de óbitos”.

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