Governo Bolsonaro
Tribuna
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Fica, Salles!

Demissão do antiministro do Meio Ambiente não basta; como ato isolado, poderia passar a impressão de que o problema é só ele, não Bolsonaro

Bolsonaro e Ricardo Salles em Brasília.
Bolsonaro e Ricardo Salles em Brasília.ADRIANO MACHADO (Reuters)
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Em 9 de dezembro de 2018, o então presidente eleito, Jair Bolsonaro, finalmente anunciara o último nome de seu gabinete, o do ministro do Meio Ambiente. O escolhido era um ex-advogado da Sociedade Rural Brasileira, Ricardo Salles. A reação do Observatório do Clima foi imediata. Em nota, lembramos que Salles promovera o desmonte da governança ambiental no Estado de São Paulo em seu breve período como secretário. Fora chamado por Bolsonaro para cumprir a mesma tarefa no Governo federal. “Ao nomeá-lo, Bolsonaro faz exatamente o que prometeu na campanha e o que planejou desde o início: subordinar o Ministério do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura”, dizia o texto. E concluía com uma frase que hoje parece profética, mas para nós sempre foi óbvia: “O ruralismo ideológico, assim, compromete o agronegócio moderno ―que vai pagar o preço quando mercados se fecharem para nossas commodities”.

Fomos criticados pela suposta disposição bélica em relação a um governo que nem começara. Muita gente achava que era preciso dar um “voto de confiança” e que o Governo acabaria por se “normalizar” diante das pressões e da complexidade inerente ao exercício da Presidência da República. Em poucos meses, quem nos criticava passou a nos agradecer.

Corta para 22 de abril. Naquela infame reunião ministerial, é o próprio Ricardo Salles quem, num inédito rompante de sinceridade, resume a política do governo Bolsonaro para o meio ambiente (e todo o resto): aproveitar que a imprensa está distraída com a Covid para “passar a boiada”. Depois de mentir sobre quase todos os aspectos de sua gestão durante um ano e quatro meses, ali estava Salles encarnando, afinal, o mensageiro da verdade. E dando razão aos ambientalistas, servidores do ministério, procuradores e ex-ministros que esse tempo todo bradavam que a agenda era precisamente aquela: desmontar o que existe e “dar de baciada” a desregulamentação.

Como vínhamos avisando desde 2018, a economia brasileira começa a pagar a conta das boiadas de Jair Bolsonaro e seu antiministro do Meio Ambiente. No ano passado tivemos o primeiro ensaio de sanção econômica, no setor de couros. Depois uma rede de supermercados escandinava. Carta de fundos de investimento preocupados com as queimadas. Carta de empresas europeias contra o fim da moratória da soja. Carta de 40 varejistas contra a MP (hoje PL) da grilagem. Aqui e ali, pipocam histórias de exportadores discretamente abandonados por compradores de commodities na Europa (“não ligue pra gente, nós ligamos pra você”) e executivos de multinacionais de outros setores tomando pitos da sede. E aí veio o ultimato dos 34 fundos de investimento que detêm em ativos mais do que duas vezes o PIB do Brasil. E a carta dos 38 grandes empresários brasileiros, alguns deles antigos apoiadores de Bolsonaro. E o acordo comercial Mercosul-União Europeia, que escala lépido o telhado. Nossos concorrentes agrícolas na Europa, como França e Irlanda, riem de orelha a orelha com a política ambiental do Governo, enquanto o vice-presidente da República diz que críticas a ela são coisa... dos nossos concorrentes agrícolas.

O Governo que chamou a pior pandemia em cem anos de “gripezinha” também agiu como negacionista do boicote: em vez de agir para combater o desmatamento, que é o que lhe cabia, preferiu dobrar a aposta no lero-lero. O problema, argumentam os luminares do Executivo, é de “comunicação”. Decerto acham que pessoas que gerenciam 4 trilhões de dólares podem se dar ao luxo de ser desinformadas ou que desinvestimento é conversa de ONG que se evita com uma ação de propaganda. Então contrataram para vender a sustentabilidade do Brasil no exterior a mesma agência de relações-públicas que inventou a estratégia do negacionismo climático. A Terra é redonda e dá voltas.

Como o desmatamento e as pressões comerciais sobre o Brasil não vão parar de crescer, por melhor que seja o sotaque americano do locutor dos vídeos de propaganda, tendem a se intensificar as pressões pela saída do personagem que melhor encarna o antiambientalismo ―o ministro do Meio Ambiente. Com a autoridade de quem já pedia “Fora, Salles!” antes de isso virar modinha, digo que seria uma injustiça.

Ricardo Salles é condenado por fraude ambiental, investigado por enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro e uma pessoa desprezível. É natural que não se goste dele, tamanha a sua eficiência em entregar a destruição dos controles ambientais criados em 30 anos no país. Mas Salles é sintoma, não a doença. A razão da crise ambiental, civilizatória e de confiança que o Brasil vive se chama Jair Messias Bolsonaro. Salles é apenas a mais perfeita tradução do pensamento socioambiental do chefe.

Trocar o ministro do Meio Ambiente seria um ato de greenwashing do Governo, que poderia ter algum efeito de marketing, mas que, em si, não mudaria nada na situação ambiental do país se várias outras coisas não mudassem junto. Não adianta só tirar Salles e Bolsonaro continuar festejando garimpeiros e desmatadores. Não adianta tirar Salles e o Ibama seguir de mãos atadas e sem concurso para novos agentes. Não adianta tirar Salles e Tereza Cristina seguir manobrando para anistiar a grilagem, o combo ruralistas atrasados/igrejas seguir mandando na Funai e os generais do Planalto seguirem propalando abobrinhas sobre dados de satélite e tentando controlar o Inpe. Não adianta tirar Salles e um pseudocientista seguir municiando o governo de estatísticas criativas sobre uso da terra no Brasil.

Enquanto Jair Bolsonaro ocupar o Palácio do Planalto, não existirá esperança de mudança real na política socioambiental brasileira. O melhor a que se pode aspirar é impedir a passagem da boiada no Congresso e no Judiciário e tentar avanços via Parlamento. Os ex-ministros da Fazenda já deram a deixa: a recuperação econômica verde. Ricardo Salles precisa responder na Justiça por seus feitos e suas omissões, mas o ato isolado de sua demissão, sem outras medidas, pode passar a impressão errada de que o problema é ele ―e não seu chefe e seus apoiadores na caserna e no setor privado.

Marcio Astrini é secretário-executivo do Observatório do Clima.

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