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Duelo entre Gilmar Mendes e Bolsonaro: guerra ou bandeira branca?

O ideal para o Brasil hoje é dar à política o que é da política, e ao Exército o que é do Exército

O ministro Gilmar Mendes durante a sessão plenária por videoconferência, em 15 de abril.
O ministro Gilmar Mendes durante a sessão plenária por videoconferência, em 15 de abril.Rosinei Coutinho/SCO/STF

O Brasil é um país ferido política e socialmente. Muitas árvores, reais e simbólicas, estão queimando. Para que mais incêndios? Por exemplo, essa polêmica entre o importante juiz do STF Gilmar Mendes e as Forças Armadas só pode servir para exacerbar ainda mais a crispação política que o país vive.

Melhor que desempoeirar velhas teorias em busca de um culpado no duelo entabulado entre Gilmar e os militares seria que ambas as partes erguessem uma bandeira branca para uma pausa de reflexão.

É possível que, nesta nova guerra aberta, ambas as partes tenham razão no fundo da disputa. O magistrado, de fato, não pode ser acusado de antimilitarista, sobretudo porque pessoalmente costuma ser bastante sensível a todos os Poderes, com os quais gosta de dialogar. E o Exército é um Poder do Estado. Talvez a preocupação do juiz seja que uma instituição tão apreciada pela opinião pública por seu senso do dever e da honra possa amanhã ser acusada de conivência com a gestão catastrófica do Governo com a pandemia, considerada internacionalmente como uma das mais desastrosas do mundo.

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Que necessidade tem o Exército de arcar com essa responsabilidade que não cabe a ele, e sim ao Governo Bolsonaro? É normal que os militares tenham se sentido ofendidos com o alerta do magistrado de que algum dia poderiam ser acusados de ter participado da catástrofe de uma gestão da guerra contra o coronavírus, considerada metaforicamente como um genocídio, já que milhares de vítimas talvez pudessem ser poupadas com uma gestão simplesmente mais normal e responsável.

O magistrado Gilmar sabe muito bem que este não é o momento para que uma figura do mundo judicial como ele dê motivos para incendiar ainda mais o ambiente político. Mais ainda, o ideal é que cada um dos Poderes do Estado se limite ao seu campo, sem intervir no curral alheio. A função do Supremo, em sua essência quase sagrada de ser o guardião da Constituição, é mais que suficiente como tarefa própria, sem querer invadir o campo da política. Esse é um afazer que deve ser deixado para os que foram eleitos pelo povo para gerir a nação.

Ao mesmo tempo, os militares decidiram ajudar o capitão reformado a sustentar um governo que já nasceu frágil e excessivamente ideologizado. Devem entender que uma entrega total a um Governo hoje rejeitado por 70% dos brasileiros pode lhe acarretar uma responsabilidade neste inferno em que se veem lançados.

Como bem escreveu Miriam Leitão n’O Globo, existe o perigo de que os militares, em seu afã positivo de querer contribuir para a gestão da vida pública, sejam salpicados em sua reputação como instituição pelos descalabros de um governo que parece mais um barco à deriva, acossado pelos perigos de um Titanic.

Foi a diretora do EL PAÍS Brasil, Carla Jiménez, quem, em um importante artigo neste jornal, alertou aos militares que eles podem vir a ser vistos como “cúmplices do macabro Governo Bolsonaro”.

Hoje, seria preciso recordar ao magistrado Gilmar Mendes e aos militares a já célebre frase do longínquo profeta judeu quando acossado pelos fariseus que, tentando fazê-lo cair numa arapuca, lhe perguntaram se seus discípulos deveriam pagar tributos ao imperador. Jesus, mostrando-lhes uma moeda, respondeu: “A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

O ideal para o Brasil hoje é dar à política o que é da política, e ao Exército o que é do Exército. Para começar a fazer isso, é melhor que, por favor, todos ergam a bandeira branca da paz.

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